Publicado em 6 de novembro de 2025 às 11:30
Com o crescimento da população e de grandes centros urbanos ao redor do mundo, um tema que tem ganhado protagonismo entre arquitetos e urbanistas são os efeitos da verticalização. Neste cenário, o crescimento vertical tem sido tema de debates e estudos, principalmente pela crença comum de que ele aquece as cidades.>
Para desmistificar este tema, que tem gerado dúvidas e até uma certa polarização, Imóveis A Gazeta conversou com o arquiteto e urbanista Luis Henrique Villanova, que é membro da filial do Council on Tall Building and Urban Habitat (CTBUH) no Brasil – o Conselho de Edifícios Altos e Habitat Urbano, uma organização internacional sem fins lucrativos do setor de arranha-céus e design urbano sustentável. >
Pesquisador a respeito do tema, ele comenta que os edifícios altos não são, necessariamente, "vilões climáticos”. Além disso, explica que o processo de verticalização pode trazer benefícios, quando feito de forma planejada e estratégica.>
Por isso, Luis Henrique destaca que é preciso formular diretrizes para que o crescimento vertical das cidades não resulte em impactos como efeitos negativos no conforto térmico ou obstrução de paisagens e locais turísticos.>
>
Luis Henrique Villanova - Os edifícios altos começaram a surgir porque eles possibilitam concentrar mais pessoas em um determinado espaço. Aqui no Brasil, nas décadas de 1950 e 1960, as edificações mais altas também surgiram nesse sentido, com a consolidação de centros bastante densos em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, por exemplo. Mas, a partir da década de 1960, com as novas visões do urbanismo moderno, muito vinculado a Brasília, e da locomoção mais rápida possibilitada pelos carros, começou-se a ter uma visão de querer sair dessas aglomerações. A partir dessa ideia de urbanismo, foram criados os nossos planos diretores, que 60 anos depois seguem essa mesma cultura de planejamento, baseada em estabelecer um limite de construção, dado pelo coeficiente de aproveitamento de uma determinada zona.
Não. Londres, por exemplo, é uma cidade que tem concentrações de edifícios altos, mas que também estabeleceu diretrizes que tornaram os prédios capazes de refrescar a sensação térmica, em locais de maior verticalização. É importante estudar, sempre, o contexto da cidade onde esses prédios serão construídos, tanto questões climáticas quanto fatores culturais e indicadores de demanda. As regras dos planos diretores municipais (PDMs), hoje em dia, costumam ser muito genéricas, o que podemos observar no quanto os edifícios de diversas cidades brasileiras são semelhantes, mesmo em um país de dimensões continentais.
É necessário elaborar diretrizes ambientais, visuais e contextuais, para que os edifícios se adaptem às cidades já existentes e possam servir para a função que eles foram criados: aglomerar mais pessoas no mesmo espaço. Nós temos que parar de olhar as cidades crescendo e passar a adaptá-las, porque o processo de verticalização vai continuar acontecendo.
Quando falamos em edifícios mais altos e próximos uns dos outros, muitos pensam que isso vai resultar, necessariamente, em apartamentos que não recebem luz do sol. Mas, na verdade, não é bem isso. Em vez de usarmos um cálculo matemático padrão que determina o quanto cada edifício deve estar afastado um do outro, como é o caso em muitos planos diretores, podemos ter diretrizes que garantem uma quantidade de horas de incidência de sol em edifícios de determinada região. Assim, é possível exigir que o projeto daquela edificação siga critérios que levam em conta o contexto dali.
Com certeza. Até porque, a partir de diretrizes, é possível concentrar mais edifícios em determinados pontos, liberando mais espaços verdes em outras áreas. E até nos próprios edifícios, você pode estabelecer métricas que garantam a implementação de elementos sustentáveis, como fachadas verdes, por exemplo.
Conforto térmico em Londres
Como citado por Luis Henrique, Londres implementou diretrizes pioneiras de conforto urbano, pensando as formas e a disposição de edifícios com base em fatores como vento, radiação solar, temperatura e umidade. Com a movimentação de ar mais eficiente e as sombras criadas pelas edificações, foi possível criar zonas mais refrescantes espalhadas pela cidade, até mesmo no verão.
Soluções habitacionais em Toronto
Luis Henrique explica que Toronto, no Canadá, está passando por um processo de verticalização justamente no momento em que vive uma crise habitacional. Uma das mais populosas da América do Norte, a cidade canadense teve um aumento significativo em sua população sem que o número de imóveis residenciais acompanhasse o crescimento. Agora, com um plano da prefeitura local de incentivo à construção de edifícios maiores em áreas estratégicas, houve uma explosão imobiliária que, inclusive, fez os preços de aluguel caírem significativamente.
Mais conforto na orla de João Pessoa
Outro exemplo citado pelo arquiteto e urbanista foi João Pessoa, na Paraíba, uma das poucas capitais no Brasil que tem uma legislação estadual e também municipal para definir o tamanho máximo dos prédios localizados mais próximos da orla. Ele explica que, ao permitir uma altura progressivamente maior para os prédios conforme a distância do mar aumenta, é possível evitar um maior sombreamento na praia.
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta