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Maturidade e transformação

Com recorde de obras, mercado imobiliário do ES projeta o futuro e redesenha o mapa de lançamentos

Setor, que vive o pico produtivo dos últimos 10 anos, desafia alta dos juros, acelera a industrialização nos canteiros e investe em projetos alinhados às transformações econômicas e demográficas capixabas

Publicado em 11 de Setembro de 2026 às 17:16

Karine Nobre

Publicado em 

11 set 2026 às 17:16
Vitória e Vila Velha se mantém em destaque no mercado imobiliário, mas outras regiões começam a ganhar protagonismo
Vitória e Vila Velha se mantém em destaque no mercado imobiliário, mas outras regiões começam a ganhar protagonismo Shuttestock

O mercado imobiliário e da construção civil no Espírito Santo passa por um período de maturidade e rápida transformação. O Censo Imobiliário do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-ES) revelou que o Estado atingiu, em 2026, o maior pico de obras da última década, com um total de 19.469 unidades em produção, somente na Região Metropolitana da Grande Vitória.


Mesmo diante de um cenário nacional em que a taxa Selic mantida em níveis elevados – chegou a 15% em janeiro e hoje está em 14% – deixa o financiamento imobiliário mais caro e pressiona os custos do setor, a atividade no Espírito Santo quase dobrou nos últimos seis anos, apresentando um ritmo de lançamentos e vendas que desafia os ciclos tradicionais.


Esse cenário local apoia-se em alguns fatores macroeconômicos próprios e no desempenho das finanças públicas do Estado, que já acumula 14 anos consecutivos com Nota A na Capacidade de Pagamento (Capag) do Tesouro Nacional – sendo os últimos com classificação A+ e liderança nacional em equilíbrio fiscal.


Além disso, dados do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) mostram que o território capixaba tem uma carteira estimada em R$ 138 bilhões em investimentos públicos e privados previstos até o ano de 2029, dos quais 70% já se encontram em fase de execução. Sendo que o setor da construção civil será o principal elo estratégico para a materialização desses projetos, que vão de grandes obras rodoviárias até complexos portuários e industriais, a exemplo da fábrica da GWM em Aracruz.

O ano de 2026 terá um resultado equilibrado como foi em 2025. Para 2027, ainda temos algumas incertezas como o resultado das eleições, as tarifas e mesmo a situação externa em relação ao petróleo e à inflação pressionada que não permite que os juros caiam. Pode ser um ano um pouco mais difícil, mas não será de retração do setor.

Alexandre Schubert Presidente da Ademi-ES

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Ambiente de sustentação

Para o consultor imobiliário Juarez Gustavo Soares, esse conjunto de fatores cria um ambiente de sustentação. “Nenhum mercado está imune ao crédito caro, mas o Espírito Santo reúne uma combinação de fatores que aumenta sua resiliência: economia diversificada (petróleo, rochas, agronegócio e logística), solidez fiscal do Estado e forte capacidade patrimonial de parte do comprador local. 


No médio e alto padrão, por exemplo, dois terços das unidades em construção estão nesses segmentos e cerca de 75% já foram comercializadas, mostrando equilíbrio saudável entre oferta e demanda”, analisa.


O presidente do Sinduscon-ES, Douglas Vaz, acrescenta, ainda, que a estabilidade é reflexo do comportamento da economia local. “A construção é o termômetro da economia. Não corremos risco de 'apagão' produtivo porque há um equilíbrio consciente entre a oferta e a demanda, e o mercado tem condições de se antecipar antes que a situação chegue ao limite”, afirma.


E para este ano, mergulhado em tensões internacionais e taxação do comércio pelos EUA, além de eleições majoritárias em outubro, o presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário do Espírito Santo (Ademi-ES), Alexandre Schubert, projeta um resultado semelhante ao que foi registrado em 2025. 


“Vai ser um ano equilibrado como foi em 2025. Para 2027, ainda temos algumas incertezas como o resultado das eleições, as tarifas e mesmo a situação externa em relação ao petróleo e à inflação pressionada que não permite que os juros caiam. Pode ser um ano um pouco mais difícil, mas não será de retração do setor”, analisa.

Nenhum mercado está imune ao crédito caro, mas o Espírito Santo reúne uma combinação de fatores que aumenta sua resiliência: economia diversificada, solidez fiscal do Estado e forte capacidade patrimonial de parte do comprador local.

Juarez Gustavo Soares Consultor imobiliário

Pressão dos custos exige novas formas de construir
Tecnologia, engenharia, construção
Inteligência de mercado, com análise de fatores diversos, é fundamental para desenhar novos projetos Shutterstock

Se a demanda por imóveis se mantém aquecida, a operação dos canteiros de obras enfrenta um de seus maiores gargalos históricos: a alta de custos e a escassez de mão de obra qualificada. 


O indicador do Custo Unitário Básico da Construção no Estado (CUB-ES) registrou variação de 6,93% no primeiro semestre e atingiu 8,21% no acumulado de 12 meses, impactado também pelos reajustes globais de insumos ligados ao petróleo. Como a mão de obra representa cerca de 50% dos custos diretos de uma edificação, e teve reajuste salarial de 7% no ano, as construtoras capixabas aceleram a migração para métodos industrializados.


A substituição de sistemas tradicionais de alvenaria por métodos a seco é a principal tendência que ganha corpo no Estado. “A busca por processos industrializados avança. Apontamos hoje como forte tendência o uso de paredes de concreto com fôrmas de alumínio moldadas no local, que exigem menos mão de obra. Também cresce o uso de sistemas que dispensam o uso intensivo de água e argamassa, como o steel frame e a construção a seco, além do software BIM, que compatibiliza projetos e elimina retrabalhos e desperdícios”, detalha o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-ES), Douglas Vaz.


No campo da sustentabilidade, as práticas ESG (do inglês, ambiental, social e governança) deixam de ser apenas peças de marketing e passam a orientar processos de engenharia e aprovações bancárias. Nas incorporações residenciais, o destaque prático tem sido a obrigatoriedade de soluções para uso racional de água e eficiência energética nos canteiros e nas entregas.

“A construção é o termômetro da economia. Não corremos risco de 'apagão' produtivo porque há um equilíbrio consciente entre a oferta e a demanda, e o mercado tem condições de se antecipar antes que a situação chegue ao limite.

Douglas Vaz Presidente do Sincuscon-ES

Para onde o ES vai crescer: o novo mapa imobiliário do ES

Com a escassez crítica e o alto custo de terrenos nas áreas mais consolidadas de Vitória e na orla tradicional de Vila Velha, os vetores de expansão imobiliária estão sendo redesenhados tanto na região metropolitana quanto no interior.

Verticalização costeira:

Vista de Vila Velha
Litoral de Vila Velha atrai novos empreendimentos onde ainda há áreas para construção Shutterstock

  • a faixa litorânea que se estende da orla de Vila Velha até a Serra apresenta alto potencial vertical. Segundo o diretor de Economia e Estatística do Sinduscon-ES, Eduardo Borges, o adensamento costeiro continuará atraindo empreendimentos que absorvem moradores dispostos a morar perto da praia.

Reocupação e retrofit em Vitória:
Obras de requalificação da Rua Sete de Setembro, no Centro de Vitória
Centro de Vitória tem potencial para investimentos Fernando Madeira

  • na Capital, onde o limite territorial é mais severo, o crescimento migra da abertura de novas fronteiras para o uso inteligente do espaço construído. Juarez Gustavo Soares aponta o Centro de Vitória como eixo promissor. “O Centro reúne condições muito favoráveis para reocupação residencial via retrofit ou novas incorporações: tem infraestrutura pronta, mobilidade, comércio e conexão com a baía. Outra área que o mercado precisará enxergar em breve é a região noroeste da ilha”, diz.

Expansão metropolitana:
Rodovia Leste-Oeste, que liga Vila Velha e Cariacica, vai ganhar novos empreendimentos residenciais e comerciais
Rodovia Leste-Oeste, que liga Vila Velha e Cariacica, se tornou novo eixo de desenvolvimento Carlos Alberto Silva

  • cidades como Cariacica e Viana entram em novo ciclo de valorização e obras, puxado por projetos residenciais, logísticos e de uso misto, impulsionado também pelas melhorias viárias no entorno da avenida Leste-Oeste. Na Serra, o vetor de crescimento caminha no sentido do litoral norte.

Interior, logística e turismo:
Área industrial de Aracruz
Área industrial em Aracruz é atrativo para empreendimentos residenciais Divulgação/Prefeitura de Aracruz

  • fora da Grande Vitória, municípios com forte dinamismo econômico lideram a procura. Aracruz e Linhares despontam pelo atrativo industrial e portuário. No turismo de montanha e litoral sul, Pedra Azul, Domingos Martins, Santa Teresa, Caparaó e Anchieta (Iriri e Ubu) consolidam um mercado aquecido de segunda residência e hospedagem.

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