Filho de Adriana Esteves e Marco Ricca, dois nomes consagrados da teledramaturgia brasileira, Felipe Ricca, 26, cresceu imerso no universo artístico, mas não teve uma trajetória imediata rumo à atuação.
Hoje, depois de se formar em artes cênicas, o ator emenda trabalhos no audiovisual, com presença em produções de streaming e planos para estrear no cinema. Ser filho de quem é, ele reconhece, tem influência em sua formação, mas também vem acompanhado de uma exigência pessoal maior.
"Ser filho de dois atores que admiro tanto traz uma referência muito próxima e também aumenta a minha autocobrança", afirma ele em entrevista à reportagem.
A relação com a profissão começou a ganhar outro sentido durante a pandemia, em 2020, quando recebeu do pai um exemplar de "A Preparação do Ator", do dramaturgo e teórico teatral Konstantin Stanislávski. Na época, Felipe cursava direito, faculdade que frequentou por dois anos e meio, e chegou a se dedicar à música.
A leitura da obra, que traz técnicas de interiorização do personagem pelo ator, despertou seu interesse pela interpretação e o levou a mudar de rumo. Formado em artes cênicas pela Casa de Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio de Janeiro, ele passou pelo teatro antes de chegar à televisão e às plataformas.
"Não penso muito no futuro. Tenho tentado concentrar minha energia no presente: ganhar experiência, estudar, amadurecer como ator e como pessoa e aproveitar cada oportunidade da melhor forma possível", diz.
A decisão de seguir a carreira dos pais não significa reproduzir os mesmos caminhos. Felipe considera que a indústria mudou, especialmente com a chegada do streaming e a expansão das redes sociais, embora a essência do trabalho de ator permaneça.
"Acho que uma carreira assim se constrói no cotidiano, na dedicação a cada cena, em como você chega ao set, na relação com as pessoas e na disposição de continuar aprendendo", afirma. A comparação com os pais, segundo ele, existe, mas não necessariamente precisa se transformar em um obstáculo.
A exposição nas redes sociais ampliou as discussões sobre os filhos de artistas conhecidos e a cobrança em torno de suas trajetórias. Felipe diz compreender a curiosidade do público, mas procura não deixar que as comparações determinem sua relação com o trabalho. "Crítica faz parte de qualquer profissão artística e, quando alguma coisa chega até mim, tento absorver aquilo que considero pertinente e que pode contribuir para o meu crescimento."
Ele acrescenta que a prioridade é investir na preparação e no aprimoramento a cada novo personagem, em vez de gastar energia tentando controlar a percepção dos outros.
Esse processo de construção profissional passa também pela escolha dos projetos e pelas pessoas com quem trabalha. Depois de estrear no audiovisual como Kiko em "Pedaço de Mim" (Netflix), em 2024, Felipe integrou o elenco do remake de "Vale Tudo" (Globo), em 2025, como Carlos.
Neste ano, voltou à plataforma de streaming em "Habeas Corpus", série em que interpreta Bernardo Borrmann, um dos estudantes de direito do grupo liderado por Inêz, personagem de Marjorie Estiano.
O próximo passo é "Virando o Jogo", série da Disney+ ambientada nos bastidores do jogo do bicho, que tem direção de Mauro Lima e Izabel Jaguaribe. Felipe já iniciou a preparação e as filmagens da produção, mas prefere manter em segredo os detalhes de seu personagem.
Além do streaming, o ator se prepara para chegar ao cinema com "Guido", longa dirigido por Jayme Monjardim e previsto para estrear em 2027. O filme retrata a história de Guido Schäffer, médico e seminarista carioca conhecido como "Anjo Surfista", que morreu em 2009 e tem sua causa de beatificação em andamento no Vaticano.
Felipe interpretará Cambeto, um dos grandes amigos do protagonista, em sua primeira experiência no cinema. "Tenho muita vontade de fazer cinema, séries, novelas e teatro porque cada linguagem exige coisas diferentes", diz.
A televisão, aliás, continua nos planos: criado acompanhando novelas, ele diz ter uma relação afetiva com o gênero e vontade de voltar a atuar nesse formato.
A vida pessoal também se cruza com o ambiente artístico. Felipe namora Luiza Gabus, filha do ator Tato Gabus Mendes, com quem contracenou em "Habeas Corpus". Os dois, porém, já eram amigos antes de o relacionamento começar.
O ator destaca o vínculo criado entre os jovens do elenco, formado ainda por Pedro Roza, Nicolas Lee e Any Gabrielly. "É muito bom dividir o set com ela e com todo o elenco. Nós cinco criamos um laço muito forte durante a série, e isso tornou todo o processo ainda mais divertido."