O apresentador Fausto Silva, o Faustão, 76, afirmou que não tem planos de voltar à TV em uma longa e rara entrevista a Pedro Bial, na noite desta terça-feira (15), na Globo, emissora que ele deixou há cinco anos após três décadas de trabalho."Não tenho nada mirabolante", disse sobre os planos para o futuro. ‘É curtir a vida, viajar o máximo que puder e aproveitar a convivência com a mulher e os filhos".
Ele descreveu como um milagre o fato de ter sobrevivido a quatro transplantes —um de coração, dois de rim e um de fígado—, lembrou que passou a maior parte dos últimos anos em internações hospitalares e disse que ainda está em recuperação, num processo que inclui musculação, fisioterapia e tai chi chuan, arte marcial chinesa.
O programa, Conversa com Bial, ainda apresentou uma retrospectiva da carreira de Faustão, a exemplo do que ocorre com outros nomes da televisão brasileira que participam da atração. Bial foi recebido na casa de Faustão.
Entre os momentos marcantes, a retrospectiva resgatou o primeiro palavrão transmitido pela Globo desde a estreia de Faustão na emissora, em março de 1989. O caso ocorreu numa transmissão do Domingão do Faustão, em que o humorista Bussunda estava na plateia.
Bastaram poucos minutos para Faustão confirmar seu estilo irreverente, popularizado pelo programa Perdidos na Noite, que estreou na TV Gazeta em 1984 e foi transmitido pela Band de 1986 a 1988.
Segundo ele, o empresário Roberto Marinho, ex-presidente do Grupo Globo, sempre compreendeu e nunca reprimiu o estilo do apresentador.
O Conversa com Bial recordou também cenas históricas, como a do dia em que uma churrasqueira de controle remoto pegou fogo, ao vivo, durante o Domingão, e o apresentador criou o bordão "tá pegando fogo, bicho". Em seguida, ele chamou os bombeiros.
Ficaram de fora polêmicas como a do sushi erótico, de 1997, em que modelos nuas apareceram na tela cobertas só com iguarias da culinária japonesa, degustadas por convidados como Márcio Garcia e Oscar Magrini. O caso teria chocado a direção da Globo.
Com 62 anos de uma carreira que começou no rádio, ele disse não sentir falta do trabalho e destacou que teve a chance de se aproximar dos três filhos, Lara, João Guilherme e Rodrigo, ao se aproximar da morte.
Ele afirmou que o seu legado, depois de 33 anos na Globo, é a formação de profissionais que hoje ocupam a direção da emissora. "É legal ajudar a melhorar o trabalho para todo mundo. Isso não é questão de ser bonzinho, é ser inteligente. Você cria um clima melhor.
"Na fase de Perdidos da Noite, programa de auditório que, à época, foi considerado engraçado e inovador, Faustão chegou a receber agradecimentos do CVV (Centro de Valorização da Vida) porque o número de ligações diminuía enquanto ele estava no ar.
O apresentador contou que, hoje, assiste a diferentes programas esportivos, jornalísticos, séries e filmes.
Faustão afirmou ainda que teve de treinar a paciência após o transplante de coração, em 2023, seguido de várias complicações na saúde. "Fui doutrinado, ou melhor, adestrado a ter resiliência".
Ele deu a entrevista a Bial acompanhado do cardiologista Fernando Bacal, que o atendeu após uma viagem aos Estados Unidos e constatou a necessidade urgente de transplante de coração.
Faustão foi internado na UTI do Einstein Hospital Israelita como paciente prioritário para o transplante. De acordo com o médico, a fila segue critérios de compatibilidade sanguínea, gravidade e tempo de espera.
No caso do apresentador, ele dependia de medicação e aparelhos para sobreviver e esperou cerca de um mês pelo novo coração, no "bico do corvo", como disse o próprio Faustão.
Bacal reforçou que a fila de transplantes no Brasil é única e gerenciada pelo Ministério da Saúde. Segundo ele, 45% das famílias aceitam a doação de órgãos no país e o ideal seria chegar a 80% para atender a todos os pacientes. Hoje há 50 mil pessoas no Brasil aguardando um transplante.
"Um doador pode doar até seis, sete órgãos. É impressionante. Além de ser uma demonstração de amor, consegue dar vida para cinco, seis pessoas", afirmou Faustão.
O cardiologista disse que o apresentador ajuda a mostrar a seriedade do programa de transplantes no país e estimula a doação de órgãos.
"Ter um paciente como o Fausto, com todo o histórico de saúde, é um orgulho para a medicina brasileira. Se eu puder dizer para a população sobre o que ele nos deixa, é [a possibilidade] de falar sobre a doação de órgãos. É um grande legado."