Ser homenageada por uma trajetória construída ao longo de quase três décadas entre o teatro, a televisão e o cinema ainda parece difícil de assimilar para Camila Morgado. Homenageada Nacional do 33º Festival de Cinema de Vitória, a atriz recebe, nesta segunda-feira (20), o Troféu Vitória, em uma cerimônia no Teatro Glória, no Sesc Glória, no Centro da capital.
Antes de receber a homenagem, Camila conversou com HZ sobre a relação que mantém com o ofício e não escondeu a emoção ao falar sobre o reconhecimento.
"Para mim representa muita coisa, porque você ser homenageada pelo seu trabalho... Eu sou uma pessoa que me conheço através do trabalho, como atriz e através dos personagens. É até difícil falar porque eu sempre me emociono. Para mim, é a minha vida, a minha trajetória", afirmou.
Ao olhar para os personagens que construiu ao longo da carreira, Camila acredita que eles também contribuíram para a mulher que se tornou. "Tive a oportunidade e o privilégio de fazer personagens lindos, que me ensinaram a ser uma mulher melhor", contou.
A atriz admitiu ainda que demorou a assimilar o fato de ser a escolhida para a homenagem nacional desta edição. "É difícil aceitar a homenagem porque são tantas pessoas maravilhosas. Para mim, ainda é um pouco difícil aceitar e falar: 'Dessa vez sou eu'. Mas estou muito feliz, muito radiante e muito grata por esse momento."
"A Casa das Sete Mulheres" e "Olga" mudaram tudo
Nascida em Petrópolis, no Rio de Janeiro, Camila Morgado iniciou sua trajetória artística no teatro antes de chegar ao audiovisual. Questionada sobre qual trabalho considera um divisor de águas, ela não conseguiu escolher apenas um.
A atriz apontou dois papéis fundamentais: Manuela, na minissérie "A Casa das Sete Mulheres", de 2003, e a protagonista do filme "Olga", lançado em 2004.
Eu tinha 27, 28 anos e vi minha vida mudando radicalmente. As pessoas começaram a me reconhecer. 'A Casa das Sete Mulheres' fez um sucesso estrondoso e 'Olga' levou milhares de pessoas ao cinema
A relação com "Olga", aliás, atravessou as duas décadas que separam o lançamento do filme dos dias atuais. Camila contou que é abordada por adolescentes que conheceram a produção em atividades escolares.
"Já tem mais de 20 anos que fiz esse papel e ainda hoje as pessoas falam de Olga Benário. E mais do que isso: 'Olga' passa muito nas escolas. Tem adolescentes de 14, 15 anos que vêm falar comigo. Como artista, a gente não tem noção de como o nosso trabalho vai se desdobrando, como vai encantando as pessoas, criando diálogos. Isso me enche de alegria."
O legado de Olga Benário
Para Camila, interpretar uma personagem histórica como Olga Benário também deixou marcas que ultrapassaram sua carreira artística. A atriz destacou o que aprendeu com a trajetória da militante alemã, entregue pelo governo de Getúlio Vargas à Alemanha nazista em 1936 e posteriormente assassinada no campo de extermínio de Bernburg.
"Olga me trouxe muito essa urgência, esse dever, essa luta e essa resistência por um Estado democrático. Ela me ensinou muito sobre isso. Eu carrego isso e tenho muito orgulho de ter feito uma personagem real que tem muito o que dizer", declarou.
"Cinema brasileiro é resistência"
Durante a conversa com HZ, Camila Morgado também avaliou o momento vivido pelo audiovisual nacional. Para a atriz, o reconhecimento recente de artistas e produções brasileiras no exterior é motivo de celebração, mas não elimina os desafios estruturais enfrentados pelo setor.
Eu acho que a gente está atravessando um momento de ouro, um momento de muita alegria no cinema. A gente está sendo muito reconhecido lá fora e aqui dentro. Temos muito orgulho do nosso cinema nacional
Camila citou Fernanda Torres e Wagner Moura como exemplos da projeção conquistada pelo Brasil internacionalmente e ressaltou a importância de eventos como o Festival de Cinema de Vitória, que chegou à 33ª edição.
Ao mesmo tempo, a atriz defendeu a necessidade de políticas públicas e investimentos permanentes para que a produção audiovisual avance em todas as regiões do país.
"Cinema brasileiro é resistência. Ainda temos muito caminho pela frente. Precisamos de muita política pública, muito fomento, muita formação de plateia. Temos filmes maravilhosos e ainda precisamos trabalhar muito a distribuição desses filmes. É uma luta constante", destacou.
Um sonho que ela não sabia que tinha
Depois de interpretar personagens em dramas, comédias, novelas, séries e produções cinematográficas, Camila diz não ter um papel específico que ainda sonha viver. O que busca são histórias capazes de provocar encontros e reflexões.
"Eu gosto de trabalhar com pessoas, gosto desses encontros com os personagens. Não saberia dizer um específico, mas personagens da atualidade, que possam criar pontes de diálogo e reflexão, me interessam muito. Seja na comédia, no drama, na tragédia, onde for, estarei aqui com meu corpo pleno para o chamado", afirmou.
Por enquanto, a atriz celebra uma conquista que nem sequer estava em seus planos. "Essa homenagem está sendo um sonho porque eu não imaginava isso acontecer. Foi um presente."
Nesta segunda-feira (20), Camila participa, às 15h, de uma coletiva de imprensa no Hotel Senac Ilha do Boi, quando também será lançado o Caderno da Homenageada, publicação biográfica sobre sua trajetória. Às 19h, ela recebe o Troféu Vitória no Teatro Glória, no Sesc Glória. A entrega será feita pela atriz Vera Holtz, amiga de Camila e parceira em trabalhos no teatro e na televisão.
A homenagem integra a programação do 33º Festival de Cinema de Vitória. A entrada é gratuita.
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