Se antes o luxo era associado a logotipos, estampas e produções chamativas, a moda vive um movimento em outra direção. Nas principais capitais fashion, como Paris, Milão e Nova York, os looks monocromáticos, especialmente em tons terrosos, vêm ganhando espaço e reforçando uma estética mais discreta.
A mudança vai além da escolha das cores. Para a pesquisadora de comportamento, consumo, luxo e tendências globais Leka Tavares, a preferência por produções de uma única tonalidade acompanha a consolidação do chamado quiet luxury, ou luxo silencioso, que valoriza qualidade e refinamento em vez de ostentação.
Quando observamos as ruas de Paris, Milão ou os bairros mais sofisticados de cidades como Londres e Nova York, percebemos que a elegância deixou de estar associada ao excesso. O monocromático transmite segurança, sofisticação e um olhar muito mais apurado sobre estilo
Entre as cores que mais se destacam estão o chocolate, o marrom, o bege e o caramelo. Segundo Leka, o protagonismo dos tons terrosos também tem uma explicação comportamental.
“O marrom ganhou força porque comunica aconchego, estabilidade e sofisticação de uma forma muito natural. É uma cor que remete à qualidade dos materiais, ao couro, à madeira, ao cacau e aos elementos da natureza. Ela transmite luxo sem precisar chamar atenção”, afirma.
Embora possa parecer simples, montar uma produção monocromática exige atenção. Sem estampas ou contrastes fortes, detalhes como caimento, acabamento e textura passam a ocupar o centro da composição.
“No monocromático, nada se esconde. O tecido, a modelagem e o acabamento passam a ser os protagonistas. É justamente por isso que essa estética conversa tão bem com o luxo silencioso. Ela valoriza a excelência da peça e não apenas a marca estampada nela”, comenta a especialista.
A tendência também acompanha uma transformação no comportamento do consumidor premium, que passou a procurar peças mais versáteis e duráveis.
“As pessoas estão comprando com mais consciência. Um guarda-roupa construído em uma cartela de cores harmônica permite inúmeras combinações, reduz compras por impulso e faz com que cada peça tenha uma vida útil muito maior”, explica Leka.
“Vivemos um período de excesso de estímulos. Nas redes sociais, nas ruas e na publicidade somos impactados por milhares de imagens todos os dias. O monocromático surge quase como um respiro. Ele transmite calma, confiança e elegância sem precisar competir pela atenção”, analisa.
A estética ainda se conecta a outros movimentos que ganharam força nos últimos anos, como o consumo consciente, o guarda-roupa inteligente e a valorização de peças atemporais.
O consumidor percebeu que elegância não depende de quantidade de informação. Muitas vezes, um look composto por uma única cor comunica muito mais sofisticação do que produções carregadas de elementos
Mais do que uma tendência passageira, os looks monocromáticos representam uma nova maneira de enxergar o luxo. A sofisticação deixa de ser construída pelo excesso e passa a estar relacionada à qualidade, à harmonia e à segurança nas escolhas.
“O verdadeiro luxo está na simplicidade bem executada. O monocromático mostra que sofisticação não precisa ser exagerada para ser percebida. Ela está na qualidade dos materiais, no caimento, na construção da imagem e, principalmente, na segurança de quem veste aquilo que realmente faz sentido para o seu estilo”, conclui Leka Tavares.
Com a consolidação do luxo silencioso, tons como chocolate, marrom, bege e caramelo deixam de ser apenas opções neutras no guarda-roupa. Eles passam a representar um novo código de elegância: discreto, atemporal e cada vez mais associado à sofisticação.