Há uma boa notícia no mercado editorial brasileiro: novas livrarias estão surgindo. Segundo o Anuário Nacional de Livrarias, cerca de cem abriram desde o segundo semestre de 2021. Ainda assim, o país tem apenas 2.972 estabelecimentos, aproximadamente um para cada 72 mil habitantes, concentrados sobretudo no Sudeste.
Para dimensionar essa escassez, basta comparar: o Brasil tem quase cem mil farmácias, cerca de cinco para cada dez mil habitantes. Enquanto a OMS recomenda uma farmácia para cada 10 mil pessoas, a Unesco indica a mesma proporção para livrarias. Estamos muito longe disso.
É ótimo celebrar novas portas abertas. Mas talvez seja justamente agora que devamos fazer uma pergunta menos romântica: o que estamos construindo para que elas continuem abertas daqui a cinco ou dez anos?
Uma livraria é um negócio difícil de enquadrar. É varejo: paga aluguel, funcionários, impostos e precisa gerar resultado. Mas também faz curadoria, promove debates, recebe escritores, organiza clubes de leitura e forma leitores. É uma empresa privada que, para ser relevante, desempenha também uma função cultural.
Os números comprovam o valor dessa experiência. Embora 55% dos compradores de livros prefiram hoje os canais online, quando o preço é equivalente, 49% escolheriam comprar em uma loja física, contra 44% no online. O problema está justamente nessa condição: preço e promoções são a principal razão para comprar livros pela internet, e a Amazon concentrou 61,7% das últimas compras online de livros impressos registradas pela pesquisa.
Existe público para as livrarias. O desafio é dar a elas condições para competir. E talvez seja aí que exista um espaço ainda pouco ocupado. O pequeno empreendedor encontra no Sebrae instrumentos de gestão, capacitação e desenvolvimento. A cultura conta com instituições e políticas próprias. Mas a livraria habita os dois mundos: é comércio e, ao mesmo tempo, agente cultural.
A Associação Nacional de Livrarias representa institucionalmente o setor, atua na defesa de políticas públicas, promove encontros e desenvolve ferramentas para os livreiros. Mas os desafios contemporâneos talvez exijam avançar ainda mais na construção de uma estrutura permanente de fortalecimento desses negócios.
Quem está à frente desse pequeno negócio, principalmente se estiver longe dos centros urbanos, enfrenta dificuldades com logística, tecnologia, formação de equipes, comunicação, negociação com fornecedores, acesso a políticas públicas e, sobretudo, concorrência das grandes plataformas digitais. Em pesquisa da própria ANL, realizada em 2026, 85,2% dos livreiros apontaram a concorrência desigual com gigantes do e-commerce como seu principal desafio.
Por que, então, enfrentá-los predominantemente de forma individual? Redes regionais, cooperativas de serviços, capacitação permanente, compras e logística compartilhadas, campanhas conjuntas e maior intercâmbio entre livreiros poderiam transformar fragilidades individuais em poder coletivo.
Há um movimento de retomada que merece ser celebrado. Inclusive fora dos grandes centros, novas livrarias mostram que ainda desejamos espaços onde livros sejam encontrados, recomendados, discutidos e compartilhados. Mas inaugurar não basta. Abrir uma livraria precisa deixar de ser um ato individual e se tornar um projeto coletivo defendido por entidades, por políticas públicas e pela sociedade. Isso, claro, se quisermos nos equiparar às farmácias em quantidade de lojas abertas.