Repórter do HZ / [email protected]
Publicado em 8 de junho de 2023 às 09:00
Vitória recebe neste sábado (10) e domingo (11), no Parque Pedra da Cebola, a segunda edição do "Musin - Festival Música na Infância", evento que conta com programação gratuita prometendo encantar crianças (e por que não também papais?) com uma programação voltada para o lúdico e o educativo.>
Em pauta, música (claro!), circo, performances teatrais, bloquinhos de carnaval e muitas brincadeiras. Um dos destaques da festa será Toquinho, ícone da MPB reconhecido pela dedicação à música infantil, tendo no currículo trabalhos que se tornaram marcos, como os discos “Arca de Noé” 1 e 2, em parceria com Vinícius de Moraes, e o LP "Casa de Brinquedos", que, mais tarde, se tornou peça de teatro e especial exibido pela Rede Globo nos anos 1980 (vejo um trecho no vídeo abaixo). >
São do artista clássicos que marcaram nossa infância, como "O Pato", "O Avião", "O Caderno", "A Casa" e "Aquarela". A última virou hino de várias gerações. Quem nunca se emocionou ou mesmo não se viu cantando sensíveis estrofes, como /"O futuro é uma astronave/ Que tentamos pilotar/ Não tem tempo, nem piedade/ Nem tem hora de chegar/ Sem pedir licença/ Muda nossa vida/ E depois, convida/ A rir ou chorar"/... poesia pura, que tem como "bênção" o talento de Vinícius de Moraes.>
No show de Vix, Toquinho intercalará sucessos de seu repertório infantil, como as faixas citadas no início do texto, com clássicos de sua carreira, que já ultrapassou meio século. A apresentação também conta com participação da cantora Camilla Faustino, do baixista Ivâni Sabino e do baterista Pepa D'Elia. >
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Em bate-papo com "HZ", Toquinho falou sobre sua relação de proximidade com o público infantil. "Foi muito intensa. Foram quatro CDs, quatro especiais de televisão e quatro peças infantis, então foi algo que teve um retorno emocional muito grande, né? E criativo também", apontou o paulista.>
Durante a conversa, o cantor também abordou sua parceria com Vinícius de Moraes, a "receita"- se existe uma - para criar faixas que conseguem cair na memória afetiva dos pequenos, como também sua relação com a nova geração, envolta em um emaranhado de tablets, celulares e cada vez mais imersa em um mundo digital. Vem com a gente!>
Minha relação (com o público infantil) sempre foi muito intensa. Foram quatro CDs, quatro especiais de televisão e quatro peças infantis, então foi algo que teve um retorno emocional muito grande, né? E criativo também. Foi muito especial na minha vida ter feito esse trabalho infantil e eu estou com uma ideia, ainda, de fazer um novo, que é uma coisa que pode ajudar muitas crianças como tem ajudado, né? Então tem sido muito gratificante tudo isso.
Bom, para começar, (a receita) é não subestimar as crianças. Fazer uma canção bem feita, com letra trabalhada e não só um refrãozinho blábláblá achando que ela vai gostar daquilo e acabou. Realmente é tratar as canções com o mesmo critério de cuidado com o qual se trata uma canção para o público adulto. Não as subestimar é uma coisa. A outra é ter muito humor, brincar com a canção e criar uma faixa que faça você rir. O compositor tem que rir, tem que se divertir com aquilo. Definitivamente, sem humor você não faz música para essa vertente. Elas sentem todo esse cuidado, sabem, e notam quando ouvem. O mesmo sentimento é compartilhado com pais e mães. Acho que isso é super importante.
É claro que Vinícius foi muito importante para mim nessa trajetória infantil. Ele que fez os primeiros poeminhas do livro "Arca de Noé" para os filhos e foi esse livrinho que gerou os primeiros dois discos infantis que foram "Arca de Noé I" e "Arca de Noé II", com participação de todos os artistas, dos importantes artistas da música brasileira. Então todos vinham cantar, Elis Regina, Chico Buarque, Milton Nascimento e Ney Mato Grosso. Todos vinham com o maior prazer, cada um cantar uma canção infantil e todos viravam criança no estúdio (risos).
"Casa de Brinquedos" é um disco que gosto muito mesmo. Foi uma concepção de Fernando Faro e fiz várias canções com Mutinho, meu parceiro. Tudo é como se fosse uma casa de brinquedos mesmo, com alguns tomando vida, falando e cantando. Eles próprios falam, são os protagonistas. Não é um terceiro falando deles não, são eles na primeira pessoa. Então foi uma ideia interessante. O caderno (um dos personagens destaques da obra) é um brinquedo que não é brinquedo, né? Mas que faz parte da educação da criança, principalmente, nesse caso, de uma menina. Então foi uma coisa muito importante no meu trabalho infantil e acho que se essas canções fossem lançadas agora teriam o mesmo sucesso, não vejo diferença. Acho que a internet não atrapalhou o bom gosto, não atrapalhou uma coisa bem feita, pelo contrário, ela só dá asas e abre portas para que isso seja mostrado.
Não, não tem diferença. Eles ouvem até hoje as músicas. As gerações estão passando e as canções estão na internet. Os clipes estão lá também, continua tudo igual. Acho que essas composições, felizmente, estão ficando na memória das crianças. No final de cada ano, as músicas estão sendo executadas nas escolas, sendo lembradas. "O Caderno", por exemplo, tem um clipe lindo nas redes. Então, não tenho nada contra a internet e acho que elas (as músicas) estão vivas em cada tablet de cada menininho ou em cada celularzinho dado para eles.
Bom, como está dito na pergunta, ela é lúdica, realmente, e flerta também com o universo educativo. Ao mesmo tempo, é uma canção ajudada muito por uma publicidade da Faber-Castell, acho que foram mais de trinta anos de propaganda que continua até hoje. Claro que isso ajudou, mas também não foi o único motivo de sucesso. A música já estava estourando quando a empresa me convidou para cedê-la, então, foi um resultado do sucesso a escolha da publicidade. Acho que essa faixa tem tudo: uma forma meio fatalista de contar uma história, mas, ao mesmo tempo, doce, amena, infantil e lúdica. É uma coisa quase inexplicável essa empatia que "Aquarela" tem com o público de todas as idades.
Realmente não teve. As canções dos dez direitos da criança, que é uma coisa séria, gravamos de uma forma incrível. Elifas Andreato e eu fizemos uma canção de cada um desses direitos. Foi especial da Rede Globo e com artistas como Chico Anísio, Marieta Severo e Armando Bogus... esses eram os artistas do especial, imagine você, foi uma produção realmente linda. Acontece que a gravadora era dirigida, na época, por uma pessoa realmente sem o menor critério. São esses diretores que acham que sabem das coisas e são horrorosos na escolha. Então, me lembro quando nós mostramos o disco, que foi inclusive caro, para gravadora e eles falaram "não, nós vamos dar mais atenção para Os Trapalhões do que para esse disco". Nada contra Os Trapalhões, mas era um disco relacionado aos direitos da criança reconhecido pela ONU. Então, não foi dada, realmente, a atenção merecida. Então é isso, infelizmente minha queixa é essa, só não cito nomes para não deixar uma coisa mais clara, é melhor deixar um pouco obscura (risos).
Claro que são capazes! Tudo dado para criança, ofertado em um bom nível, vai ser proveitoso. Então, é importante até para um possível interesse em embarcar no mundo da música. Se a criança não tem contato com a cultura, talvez não vai despertar nela essa vontade de fazer uma canção, um livro, um desenho, enfim. Um festival como esse vai ficar na memória deles e, quem sabe, essa semente vai produzir uma árvore frutífera. Isso só o tempo dirá.
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