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Memórias

Renato Russo: 32 anos após último show no ES, irmã relembra cantor e legado da Legião Urbana

Em entrevista, a irmã do cantor relembra o homem por trás do ícone do rock nacional, enquanto fãs recordam a última passagem da Legião Urbana pelo Espírito Santo
Redação de A Gazeta

Publicado em 01 de Agosto de 2026 às 09:00

Carmen Teresa Manfredini, irmã de Renato Russo, relembra histórias do cantor
Carmen Teresa Manfredini, irmã de Renato Russo, relembra histórias do cantor Tay Braga/Ailton Lopes, Helô Sant'Ana

*Por Tay Braga e Kananda Natielly

É meu irmão, não é o Renato Russo. É o Júnior

Carmen Teresa Manfredini Irmã de Renato Russo

Para milhões de brasileiros, ele é o poeta que deu voz a uma geração. Para Carmen Teresa Manfredini, porém, Renato Russo continua sendo apenas o irmão mais velho. Trinta e dois anos após sua última apresentação no Espírito Santo e às vésperas de três décadas de sua morte, é essa lembrança íntima que ela prefere preservar.


Ao relembrar o cantor, Carmen também revive a última passagem de Renato pelo Espírito Santo. Há 32 anos, ele subia ao palco no Estado pela última vez. A apresentação marcou a despedida da Legião Urbana do público capixaba e ficou gravada na memória dos milhares de fãs que acompanharam uma das bandas mais importantes da história do rock brasileiro.


Naquele momento, o grupo vivia o auge da carreira e arrastava multidões por onde passava. Mais de três décadas depois, as canções continuam ecoando nas plataformas digitais, nas rodas de violão, nos fones de ouvido e, sobretudo, na vida de diferentes gerações que ainda encontram nas letras do compositor respostas para as inquietações da juventude e da vida adulta.


Renato Russo morreu em outubro de 1996, aos 36 anos, vítima de complicações causadas pela Aids. Quase três décadas depois, sua obra permanece atual. O que poderia ter ficado restrito à memória dos anos 1980 e 1990 transformou-se em um legado que atravessou o tempo e continua conquistando novos admiradores.


Para Carmen Teresa Manfredini, irmã caçula do cantor, no entanto, a lembrança vai muito além do artista que entrou para a história da música brasileira. Antes de se tornar Renato Russo, símbolo de uma geração, ele era apenas "Júnior", o irmão com quem dividia a rotina de casa.


A resposta resume a forma como Carmen prefere guardar sua memória: longe dos palcos, dos discos e dos holofotes.


Segundo ela, Renato era profundamente ligado à família. Gostava de passar horas lendo livros, assistindo a filmes e ouvindo música. Reservado e introspectivo em muitos momentos, também surpreendia quem convivia com ele pelo senso de humor.

Eu lembro dele compondo no quarto ao lado. Era muito brincalhão, gostava de imitar as pessoas e fazia todo mundo rir

Carmen Teresa Manfredini Irmã de Renato Russo

O cantor Renato Russo
O cantor Renato Russo Ailton Lopes, Helô Sant'Ana

Desde cedo, a família percebia que havia algo diferente naquele jovem apaixonado por literatura e música. O talento para a escrita chamava atenção, mas ninguém imaginava que aquelas letras atravessariam gerações.


"Sabíamos que ele tinha um dom, mas nunca pensamos que chegaria a reunir multidões. Foi uma surpresa muito boa."


Mesmo depois de se tornar um dos maiores compositores do país, Renato nunca deixou de conviver com dúvidas sobre o próprio legado. Segundo Carmen, ele frequentemente se perguntava se suas músicas sobreviveriam ao tempo.


"Às vezes ele acreditava que sim, outras vezes não. Ele perguntava: 'Será que as pessoas vão me ouvir por muito tempo?'".


A resposta veio naturalmente com o passar das décadas. Mais de 30 anos após sua última apresentação no Espírito Santo e quase 30 anos depois de sua morte, suas composições continuam sendo descobertas por jovens que sequer haviam nascido quando a Legião Urbana deixou os palcos.


Entre as músicas que mais emocionam Carmen estão "Clarisse", "Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto", "Meninos e Meninas", "Lobisomem", "Vento no Litoral", "Giz" e "Monte Castelo".

A RELAÇÃO COM O ESPÍRITO SANTO

Ao lembrar da passagem do irmão pelo Espírito Santo, Carmen volta ainda mais no tempo.


Muito antes do último show em solo capixaba, a família fez uma viagem de carro pelo Estado. Eles passaram por Vitória e Vila Velha, conheceram a fábrica da Chocolates Garoto e aproveitaram as praias capixabas.


"Foi uma viagem inesquecível. Ele adorou conhecer o Espírito Santo."


Anos depois, já consagrado nacionalmente, Renato retornou ao Estado para aquela que seria sua última apresentação diante do público capixaba.


Segundo Carmen, aquele período representava uma fase importante de sua vida pessoal.

Em 1994 ele estava bem. Era um momento em que estava se recuperando das drogas e dos vícios. Espero que tenha sido um grande show

Carmen Teresa Manfredini Irmã de Renato Russo

O cantor Renato Russo
O cantor Renato Russo Ailton Lopes, Helô Sant'Ana
UMA HOMENAGEM QUE PERCORRE O BRASIL

As lembranças da irmã hoje dividem espaço com uma homenagem que percorre o país.


O espetáculo nasceu da iniciativa de Nilson Júnior, cantor reconhecido pelo trabalho dedicado à obra de Renato Russo. Servidor público em Minas Gerais, ele transformou a admiração que carregava desde a infância em um projeto artístico que já passou por diversas cidades brasileiras.


A paixão começou ainda menino.


"Sempre digo que, quando estou no palco, lembro de quando era criança ouvindo os discos de vinil. Participei de coral, e a voz de barítono dele sempre me encantou."


O projeto surgiu ainda na adolescência e completa 13 anos. Apesar da semelhança vocal e da caracterização, Nilson faz questão de dizer que nunca pretendeu substituir Renato Russo.

Procuro transmitir a essência dele, sem querer ser o Renato. Sou apenas um fã prestando uma homenagem

Nilson Júnior Cantor

Ao longo dos anos, o espetáculo deixou de ser apenas um show musical e passou a reunir histórias sobre a vida do cantor, aproximando o público do homem por trás do ídolo.


No início, Carmen admite que recebeu o convite para participar do projeto com certo receio.


Mas bastaram as primeiras apresentações para que mudasse completamente de opinião.


"A ideia do Nilson foi genial. O público tem recebido o espetáculo com muito carinho e as apresentações têm lotado."


Ela acredita que a permanência da Legião Urbana no imaginário popular demonstra que a obra do irmão continua crescendo.


"Muita gente imaginava que a Legião não duraria muito tempo depois da morte dele. Aconteceu justamente o contrário. Parece que continua crescendo e conquistando novas gerações."


Questionada sobre como Renato enxergaria o mundo atual, dominado pelas redes sociais, Carmen acredita que ele faria um convite à reflexão.


"Talvez criticasse o excesso de tempo que as pessoas passam na internet. Diria para lerem mais, irem ao cinema."

O SHOW QUE VALEU UM TÊNIS

Entre os milhares de capixabas que assistiram à última apresentação da Legião Urbana no Espírito Santo está Paco Rodrigues. Passadas mais de três décadas, ele ainda se lembra dos detalhes daquela noite — e do que precisou fazer para garantir um ingresso.


Pouco antes do show, Paco havia ganhado da irmã, que morava nos Estados Unidos, um tênis da Nike. Era um presente especial e tinha sido usado por menos de um mês. Mas, quando surgiu a oportunidade de comprar a entrada para ver Renato Russo ao vivo, ele não hesitou.


"Não usei nem 30 dias. Um rapaz havia me oferecido um valor pelo tênis. Fui atrás dele e vendi para conseguir ir ao show."


O sacrifício, diz ele, valeu cada centavo.


Na época, Paco fazia parte de um grupo de amigos apaixonados por música. Sempre que um grande artista passava pelo Espírito Santo, eles encontravam um jeito de assistir às apresentações. Mas havia uma expectativa diferente quando o assunto era a Legião Urbana.

Eles estavam no auge da carreira. Era o show que a gente mais esperava.

Paco Rodrigues Fã capixaba de Renato Russo

Mais de 30 anos depois, a lembrança continua intacta. Paco recorda a energia do público, as músicas cantadas em coro e a sensação de estar diante de uma banda que já fazia parte da história da música brasileira.


Assim como ele, milhares de fãs ainda encontram nas canções de Renato Russo a trilha sonora de momentos importantes da própria vida. As letras seguem emocionando quem viveu os anos dourados da Legião Urbana e também jovens que descobriram o compositor décadas depois, pelas plataformas digitais, pelos discos herdados da família ou pelas apresentações em homenagem ao cantor.


Talvez seja essa a resposta para a pergunta que Renato tantas vezes fazia à irmã.


"Será que as pessoas vão me ouvir por muito tempo?".


A resposta parece estar nas plateias que continuam lotando espetáculos dedicados à sua obra, nos adolescentes que ainda aprendem seus acordes ao violão e nas novas gerações que decoram versos escritos antes mesmo de nascerem.


Também está nas lembranças de quem conviveu com o artista de perto.


Para Carmen Teresa Manfredini, Renato continua sendo, antes de tudo, o irmão "Júnior", o menino apaixonado por livros, cinema e música.


Para Nilson Júnior, ele permanece como a voz que inspirou uma vida inteira dedicada a manter sua obra em circulação.


E, para Paco Rodrigues, será sempre o artista que fez um tênis novo parecer um preço pequeno demais para viver uma noite inesquecível.


No fim, talvez Renato nunca tenha imaginado a dimensão do próprio legado. Mas o tempo respondeu à dúvida que o acompanhava.


Trinta e dois anos depois de sua última apresentação no Espírito Santo, sua voz continua atravessando gerações, encontrando novos ouvintes e reafirmando aquilo que poucos artistas conseguem alcançar: deixar de pertencer apenas ao seu tempo para se tornar parte da memória afetiva de um país.

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