Se a primeira imagem que aparece na sua cabeça é a de uma mulher com uma varinha mágica, pode ser hora de rever o roteiro. Para Luzi Silveira, a bruxaria está muito mais ligada à transformação do que a qualquer espetáculo sobrenatural.
Arteterapeuta e sacerdotisa do coven Anahata, grupo dedicado ao estudo e à prática da magia, ela conta que seu contato com a bruxaria começou por volta de 1995, quando tinha entre 20 anos. Na época, conheceu uma mulher que costumava jogar cartas em uma área de convivência da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). A figura, que chamava atenção por uma longa trança branca, apresentou a Luzi um universo que mudaria sua trajetória.
Ao recordar o ensinamento que recebeu naquela época, Luzi resume sua visão de magia em uma frase: “Magia é a arte do amor que tudo transforma.”
Para ela, a prática não se resume a rituais ou objetos misteriosos. Trata-se de canalizar forças para promover transformações, sempre com um propósito. E não basta ter uma intuição ou misturar algumas ervas para se considerar conhecedor da arte.
Não dá para chegar e falar: ‘Ah, tive uma intuição! Vou pegar a erva tal e misturar com a erva tal’. Essas ervas podem não combinar. É necessário conhecimento para praticar magia
“Então não é pozinho de pirlimpimpim, é aprender a canalizar a energia pessoal em conjunto com a energia da natureza”.
A sacerdotisa se define como uma bruxa natural e oraculista. Em seus trabalhos, utiliza recursos como tarô e runas para ajudar pessoas a refletirem sobre questões da própria vida. Ela também faz questão de esclarecer que bruxaria não é sinônimo de uma religião específica.
“Eu costumo dizer que eu sou da misturinha”, conta. Embora seja do Candomblé, Luzi diz que gosta de conhecer diferentes tradições e não se fecha em uma única forma de espiritualidade. A prática da magia, segundo ela, é o que permanece constante.
E há outro detalhe importante: bruxas também são gente como qualquer outra pessoa. Elas enfrentam dificuldades, adoecem e passam por momentos complicados. A espiritualidade, na visão de Luzi, não transforma ninguém em alguém invulnerável nem oferece uma solução mágica para todos os problemas.
Para ela, a ideia é justamente outra: “Não é se tornar meninas superpoderosas, é sobre sermos pessoas, seres humanos alinhados com as forças da natureza, porque somos natureza”.
Se Luzi encontra na magia uma forma de transformação e conexão espiritual, Lorena Souza tem nas ervas uma parte central de seu trabalho. Terapeuta integrativa, com formação em ginecologia natural e graduanda em terapia integrativa, ela atende principalmente mulheres e utiliza diferentes práticas de cuidado.
Entre os recursos que fazem parte de sua rotina estão escalda-pés, chás, tinturas, banhos, aromaterapia, entre outros. Para ela, a bruxaria é isso: conexão com a natureza, conexão com o próprio corpo e a busca da cura por meio de ervas.
O interesse pelas plantas também se conecta à memória familiar. Lorena destaca o conhecimento transmitido entre gerações, especialmente pelas avós e bisavós, que recorriam às ervas em práticas tradicionais de cuidado.
Quando a gente fala de ancestralidade, a gente fala desse resgate, principalmente do que aprendemos com as nossas avós, bisavós, as bruxas do passado
A relação com essa herança é tão forte que Lorena encontrou uma maneira própria de explicar sua identidade: “Eu sempre falo que sou a neta das bruxas que não conseguiram queimar.”
Mulher negra e periférica, ela relaciona sua história à trajetória das mulheres de sua família, incluindo uma avó baiana que veio do interior e outra que também viveu essa realidade. Para ela, o conhecimento sobre as ervas e suas formas tradicionais de uso é parte desse legado.
“Antigamente as mulheres que detinham esses conhecimentos eram queimadas vivas. Até hoje percebemos um pouco disso na sociedade. Não indo para a fogueira, mas sendo suprimidas de outras formas quando temos algum conhecimento. É muito triste que até hoje muitas pessoas demonizem nossas práticas”, avalia.
Ela conta que sua aproximação com a ginecologia natural também nasceu de uma experiência pessoal. Pouco antes da pandemia, começou a estudar o tema em busca de alternativas para lidar com a síndrome dos ovários policísticos (SOP), hoje conhecida como Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). Segundo seu relato, a experiência e o sucesso do tratamento integrativo e natural foi decisiva para que se aprofundasse no assunto e passasse a compartilhar esse conhecimento com outras mulheres.
A vivência pessoal, no entanto, não elimina a necessidade de estudo. Lorena ressalta que o trabalho com ervas e terapias integrativas exige conhecimento e atenção às particularidades de cada pessoa.
E claro, não é só tomar um chazinho, é um tratamento. A saúde integrativa é corpo, alma e espírito; é olhar a mulher como um todo e entender o estilo de vida dela
E se alguém ainda imagina que o trabalho de uma bruxa se resume a preparar uma poção e esperar que tudo se resolva, ela tem uma resposta bem direta: “Infelizmente não é possível fazer tudo isso só com um varinha mágica”.
Morgana Velini, educadora socioambiental e terapeuta, conta que a descoberta de sua identidade como bruxa aconteceu de maneira natural. Desde cedo, seu nome já despertava associações com esse universo, e o apelido “bruxinha” acabou fazendo parte de sua história.
Em vez de se incomodar com os comentários, ela decidiu abraçar a palavra. “Eu amo ser chamada de bruxa. Você está achando que está me oprimindo e eu estou ali amando a sua crítica”, conta, bem-humorada.
A autoconfiança também veio acompanhada da vontade de estudar mais sobre aquilo com que se identificava. Morgana passou a buscar conhecimento para compreender melhor suas práticas e aprofundar sua relação com a espiritualidade.
Para ela, assumir-se bruxa tem a ver com autonomia e com a recusa de aceitar os limites impostos pela sociedade, especialmente aqueles direcionados às mulheres.
“Essa nomenclatura, esse título, se dá quando você se empodera, quando você não aceita o limite que a sociedade te impõe”, afirma.
Morgana relaciona a perseguição histórica às mulheres acusadas de bruxaria ao machismo e à desvalorização do conhecimento feminino. Ela observa que práticas de cuidado podem ser vistas de maneiras diferentes dependendo de quem as realiza.
Quando um homem te receita um chá, um remédio, um emplastro, uma tintura, nossa, ele é sábio! Mas quando é uma mulher que te receita, que descobriu e tem a mesma sapiência do outro, ela é bruxa
Hoje, ela atende principalmente mulheres e crianças, utilizando recursos como aromaterapia, cromoterapia, infusões e escalda-pés. Também oferece acolhimento a pessoas que procuram ajuda em momentos difíceis.
“Às vezes a pessoa só precisa de uma conversa, só precisa desabafar”, diz.
Ela conta que acolhe quem a procura sem fazer distinção de crença. “Eu tento encaminhar da melhor forma possível, sem deixar ninguém de fora, independente da crença”, afirma.
Na espiritualidade, Morgana se identifica como espiritualista e participa de uma casa de Umbanda, mas, para ela, a bruxaria é um estilo de vida que permite reunir aprendizados de diferentes experiências.
“A bruxaria é livre, você pode trazer de todo mundo um pouquinho. Eu sou um mix de tudo um pouquinho.”
E, quando o assunto são os chás, ela prefere transformar o preparo em um momento de pausa. Seu favorito é a combinação de anis-estrelado com erva-doce, que serve sem açúcar para que as pessoas percebam melhor os aromas.
“Eu nunca indico tomar infusão com pressa: relaxe, tire o momento do seu chá”, aconselha.
A associação entre bruxaria e maldade não surgiu por acaso. Ao longo da história, mulheres foram perseguidas e acusadas de práticas consideradas ameaçadoras por autoridades e comunidades. O imaginário popular também foi alimentado por histórias, representações religiosas, contos e produções culturais que transformaram a bruxa em uma figura de medo.
Para Morgana, a perseguição também precisa ser entendida a partir das relações de poder e do machismo. Já Lorena destaca o peso do julgamento social e da intolerância religiosa, que ainda atingem práticas espirituais diferentes das crenças dominantes.
Socialmente, desde a infância, fomos ensinadas que ser bruxa era algo ruim e pejorativo
Lorena Souza
Ela também chama atenção para a demonização de tradições ligadas à natureza e às religiões de matriz africana. Segundo a terapeuta, a rejeição a essas práticas revela a dificuldade de aceitar diferentes formas de espiritualidade.
Morgana compartilha uma percepção semelhante. Para ela, a ideia de que tudo o que foge de determinada crença é maligno contribui para alimentar o preconceito. Mas sua experiência de acolhimento é justamente o oposto da imagem de uma mulher que deseja fazer mal aos outros.
“Muito pelo contrário: a gente trabalha com a caridade”, afirma.
Isso não significa que todas as bruxas tenham as mesmas crenças ou façam as mesmas coisas. Como mostram as histórias das três capixabas, a bruxaria reúne experiências diversas, que podem envolver práticas espirituais, estudo de tradições, uso de ervas, oráculos e formas de acolhimento.
Também não é preciso transformá-las em personagens mágicas para reconhecer a importância de suas histórias. Elas têm profissões, rotinas, famílias, dúvidas e desafios. A espiritualidade faz parte de suas vidas, mas não apaga sua humanidade.
E talvez essa seja a parte mais interessante da história: por trás da fantasia de Halloween, existem pessoas reais, com trajetórias que não cabem em um caldeirão de estereótipos. Afinal, como lembra Luzi, “Magia é a arte do amor que tudo transforma.”