Olhos fora do lugar, rostos fragmentados, formas que parecem mudar diante de quem observa. Mais de 50 anos depois da morte de Pablo Picasso, o universo inquieto de um dos artistas mais influentes do século XX desembarca em Vitória.
A partir desta quarta-feira (26), o Espaço Cultural do Palácio Anchieta recebe “Picasso, a construção de um gênio — A arte de nunca ser o mesmo”, exposição gratuita que reúne 80 obras do artista espanhol e fica em cartaz até 16 de outubro. Parte do acervo, vindo de coleções particulares italianas, é inédita no Brasil.
Ao todo, são 120 obras que ajudam a contar não apenas a história de Picasso, mas também do universo criativo que se formou ao redor dele. Fotografias, gravuras e cerâmicas dividem espaço com trabalhos de artistas que atravessaram sua vida e sua produção, como Dora Maar e Françoise Gilot.
É uma oportunidade de olhar para além das imagens que transformaram Picasso em um dos nomes mais reconhecidos da arte moderna e encontrar também as relações, influências e experimentações que ajudaram a construir sua trajetória.
Trazer ao Espírito Santo a exposição do artista Pablo Picasso representa um momento histórico para a cultura capixaba
Idalberto Moro, presidente do Sistema Fecomércio-ES – Sesc e Senac
Segundo ele, a abertura do circuito nacional no Estado também ajuda a projetar o Espírito Santo no cenário cultural brasileiro.
A viagem pela obra de Picasso atravessa diferentes momentos de uma carreira que durou mais de sete décadas. Entre os destaques está “Le Repas Frugal” (1904), considerada sua primeira grande gravura.
Picasso tinha apenas 22 anos e enfrentava dificuldades financeiras em Paris quando retratou um casal diante de uma mesa quase vazia, uma imagem marcada pela pobreza, pela solidão e pela sensibilidade de um artista que ainda estava longe de se tornar o fenômeno mundial que conhecemos hoje.
O percurso segue por gravuras da série Suite des Saltimbanques, inspirada nos artistas de circo com quem Picasso se identificava no início da carreira, passa pela coleção completa de Tauromaquia, dedicada às tradicionais touradas espanholas, e chega às gravuras de A Obra-Prima Ignorada, inspiradas no conto de Honoré de Balzac sobre a busca quase obsessiva pela obra perfeita.
A proposta é mostrar um pouco mais da história de Picasso, indo além das obras mais famosas. Temos trabalhos do início da carreira, quando ele ainda não tinha dinheiro nem reconhecimento, até obras de quando já era um artista consagrado. A exposição permite acompanhar justamente essa construção e as diferentes fases da trajetória dele
Richardson Schmittel, diretor regional do Sesc-ES e diretor de Gestão do Sistema Fecomércio-ES
Mas Picasso não experimentava apenas sobre telas e papéis. Doze cerâmicas produzidas entre 1948 e 1959 mostram como pratos, vasos e travessas também podiam se transformar em território para sua imaginação. As peças foram criadas no ateliê Madoura, em Vallauris, período em que o artista levou sua linguagem para objetos cotidianos.
É justamente quando o olhar se desloca do mito para as pessoas ao redor dele que a exposição ganha outra camada. Dora Maar está presente em 15 obras, entre pinturas, desenhos, aquarelas e fotografias. Dez delas pertencem à série Le Temps Déborde.
A artista também deixou um documento histórico: fotografou Picasso enquanto ele criava “Guernica”, permitindo que décadas depois o público pudesse acompanhar diferentes momentos do nascimento de uma das imagens mais poderosas contra a guerra já produzidas pela arte.
Françoise Gilot, por sua vez, aparece com 16 litografias da série Pages d'Amour, de 1951. Pintora e escritora reconhecida internacionalmente, construiu uma trajetória artística própria. A presença das duas mulheres ajuda a contar Picasso não como um artista isolado, mas como parte de uma rede de encontros, afetos e criações.
Há ainda um Picasso longe da solenidade dos museus. Pelas lentes do fotógrafo Robert Capa, o visitante encontra o artista em momentos descontraídos na França, quando ele já era mundialmente conhecido. São imagens que aproximam o homem do mito e revelam um pouco da pessoa que existia por trás da assinatura Picasso.
Mais do que encontrar obras de um nome consagrado da história da arte, o visitante poderá acompanhar as muitas versões de um artista que fez da transformação uma linguagem e que, como sugere o próprio título da mostra, construiu parte de sua genialidade na arte de nunca ser o mesmo.
Exposição: “Picasso, a construção de um gênio — A arte de nunca ser o mesmo”
Quando: de 26 de agosto a 16 de outubro de 2026
Onde: Espaço Cultural do Palácio Anchieta, Centro de Vitória
Entrada: gratuita
Agendamento de grupos: (27) 3636-1031 ou (27) 3636-1032