Para a estudante Sophia Nascimento Knack, de 14 anos, a paisagem de Porto de Santana, em Cariacica, ganhou novos significados. Moradora da região e aluna do 9º ano da EEEFM João Crisóstomo Belesa, ela participou de uma oficina de fotografia que a incentivou a observar com mais atenção lugares e situações que antes passavam despercebidos.
“Meu olhar mudou bastante sobre Porto de Santana porque tive mais acesso à história do bairro. Muitas pessoas não conhecem a história de onde elas moram, e a oficina me ajudou a mudar esse olhar”, conta.
A atividade fez parte do Projeto Viagem Capixaba, iniciativa da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Em 2026, o projeto já realizou 65 oficinas formativas com estudantes de escolas públicas localizadas próximas à Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM).
As atividades trabalham quatro linguagens criativas: podcast, composição musical, fotografia e roteiro e criação de personagens para histórias em quadrinhos. Cada oficina tem 20 horas de duração, distribuídas ao longo de cinco dias, com atividades práticas e produções coletivas relacionadas à memória, à comunidade e à segurança ferroviária.
Na EEEFM João Crisóstomo Belesa, cerca de 150 estudantes participaram das atividades de fotografia conduzidas pela fotógrafa Vikki Dessaune. Para muitos deles, foi o primeiro contato com uma câmera fotográfica.
Durante uma atividade externa, os alunos saíram pela região para registrar elementos do cotidiano a partir de seus próprios olhares. Sophia, por exemplo, fotografou o contraste entre uma poça d’água e elementos da natureza. A experiência despertou ainda o interesse da adolescente por uma possível carreira na área de comunicação.
Gosto bastante de fotografar e de escrever, então são duas áreas que me interessam bastante
Afirma Sophia, que já pensa em cursar cinema ou jornalismo
A estudante Yasmin Siqueira de Mello, também de 14 anos, escolheu fotografar as árvores da região. Para ela, a atividade ajudou a desacelerar e perceber detalhes do lugar onde vive.
“A oficina me ajudou nesse exercício de olhar com mais cuidado e mais calma para o lugar onde moro. Gostei das fotos que produzi”, relata.
Além das fotografias, os estudantes também produziram histórias em quadrinhos. Na oficina de Roteiro e Criação de Personagens para HQ, orientada pelo artista gráfico, escritor, roteirista e ilustrador Arabson de Assis, os participantes foram estimulados a criar histórias curtas, de até três páginas, ou tiras em quadrinhos.
As produções tiveram como inspiração a memória ferroviária, a segurança e as experiências pessoais dos próprios estudantes. Uma das histórias criadas pela turma foi sobre gatos que se tornam super-heróis e precisam resgatar dois filhotes presos em um trem.
Aluno do 9º ano, Samuel Gomes Cardoso, de 14 anos, participou da construção do roteiro. “Buscamos inspiração no que cada um gosta: alguns alunos gostam de gatos, outros de anime e, a partir dessas ideias, criamos uma história de gatos heróis que têm a missão de salvar dois gatinhos que ficaram presos no trem”, explica.
Além de estimular a produção artística e a valorização da memória local, o projeto aborda a convivência segura com a ferrovia. Segundo a coordenadora Carolina Castilholi, a proposta é promover o diálogo sobre os riscos e as responsabilidades relacionados às áreas próximas aos trilhos.
“A iniciativa visa ampliar o diálogo sobre segurança ferroviária, estimulando práticas de cuidado coletivo e também de preservação individual, de modo que moradores, estudantes e usuários do território possam compreender melhor os riscos e as responsabilidades envolvidas na convivência com a ferrovia”, explica.
Ao fim de cada ciclo de oficinas, os participantes são convidados a realizar uma viagem cultural de trem. A experiência permite que os estudantes observem o território onde vivem a partir de outro ponto de vista.
Até setembro de 2026, o Viagem Capixaba contabilizou mais de 1.800 participantes e 13 viagens de trem realizadas a partir da Estação Pedro Nolasco. Até o fim do ano, estão previstas outras 17 viagens culturais no trecho entre Cariacica e Serra.
O projeto tem duração prevista de quatro anos, em ciclos anuais, e prevê a formação de um acervo imaterial vivo ao longo do período, com potencial de alcançar até 10.200 participantes.