No Centro de Vitória, cultura não é apenas passado. Ela está nas fachadas antigas, nos museus, nas galerias, nos teatros, nos bares, nos ateliês e, principalmente, nas pessoas que insistem em criar e ocupar a região. O bairro reúne construções que atravessam séculos e preserva um dos principais conjuntos de patrimônio histórico do Espírito Santo, com edificações que vão do século XVI ao XX.
A pesquisa Cultura nas Capitais, realizada pela JLeiva Cultura & Esporte com análise dos dados coletados pelo Datafolha, ouviu 19,5 mil pessoas nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal. Em Vitória, 35% dos entrevistados disseram ter frequentado bibliotecas nos 12 meses anteriores à pesquisa, contra 25% na média das capitais. A capital também aparece com 47% de frequência a shows de música e 56% de visitação a locais históricos.
Mas existe uma contradição no coração da capital capixaba: enquanto os números mostram uma população com forte relação com a cultura, espaços independentes que ajudam a manter essa cena viva enfrentam dificuldades para continuar funcionando.
Um dos exemplos mais recentes é a Casa Caipora, na Rua Nestor Gomes. Depois de quase três anos movimentando a cena cultural do Centro, o espaço encerra as atividades no dia 2 de outubro.
Desde 2024, a casa se tornou um ponto de encontro para exposições, música e novos artistas. A proposta, segundo Marcus Vinícius Pansera, um dos responsáveis pelo espaço, era justamente criar uma porta de entrada para quem ainda não tinha familiaridade com galerias e equipamentos culturais mais tradicionais.
A Casa Caipora foi fundada com o objetivo de dar voz à cultura capixaba e incentivar a ocupação artística de novos lugares, fugindo da tradicionalidade de um museu. Para quem está começando a consumir cultura, não é fácil visitar grandes galerias. A proposta da Caipora era criar um acolhimento aos novos artistas e ao público geral, com exposições e música
Marcus Vinícius Pansera
O problema, porém, não estava na falta de vontade de fazer. Estava na conta.
“Mexer com arte e cultura já sai da lógica de mercado. Requer muito da assistência pública ou privada, mas, se a gente pensar dessa forma, teríamos que nos moldar a um gosto já estabelecido de um certo público. Isso bloqueia a inovação cultural”, analisa Pansera.
É justamente aí que aparece uma das questões centrais para quem trabalha com cultura: como manter espaços que nem sempre foram criados para dar lucro, mas que cumprem uma função social, artística e de formação de público?
Quase 20 anos de resistência
A pergunta também ronda a Casa da Stael, outro endereço conhecido do Centro de Vitória.
De fachada rosa e identidade impossível de passar despercebida, o espaço foi criado em 2007 pela artista e produtora cultural Stael Magesck. Durante quase duas décadas, a casa ajudou a transformar a Rua Sete de Setembro em um dos endereços da cena cultural independente da capital.
Quando abriu as portas, conta Stael, a proposta de um espaço multicultural ainda causava estranhamento.
Em 2007, não existiam outros lugares com esse conceito multicultural. Apesar do apoio que tive, parte da comunidade via o movimento com muita estranheza naquela época. Hoje não faltam casas culturais pelo Centro de Vitória, já que esses espaços criam novos comportamentos nos moradores e nos visitantes, que abraçam os projetos
Apesar da casa rosa ser o palco de Stael, o imóvel não a pertence. O aluguel de duas décadas não será prorrogado e a artista busca um plano B urgentemente.
“Se eu tivesse que fazer um desenho meu, seria segurando uma parede para tentar resistir a tudo que vem acontecendo. Eu espero que não, mas eu acharia muito injusto dar adeus a esse bairro. Será que eu remei tanto para morrer na praia?”, desabafou a artista, que se emocionou durante o relato.
Arte e economia criativa
A resistência não acontece apenas por meio de exposições e apresentações. Ela também passa pela criação de redes.
No Espaço Thelema, fundado em 2018 na Rua Graciano Neves, a estratégia para manter a casa funcionando envolve reunir diferentes atividades ligadas à cultura e à economia criativa.
O espaço trabalha com música, literatura, artes visuais e cinema, além de abrigar iniciativas e pequenos negócios. Atualmente, reúne sete frentes: Maicon 7cordas, estúdio de música; Yagotatto, estúdio de tatuagem; AfroJapa D’Dreads, de dreadlocks; Achados e Garimparia, brechó; Miolo, cafeteria; Cineclube Avesso; e Sarau da Barão.
Para Ruth Rangel, produtora cultural responsável pelo espaço, a ideia é ampliar as possibilidades de acesso e circulação da produção capixaba.
Nós trabalhamos principalmente com fomento da cultura produzida no Espírito Santo. Trabalhamos com música, literatura, artes, cinema, praticamente tudo. Nós também vamos inaugurar um espaço positivo, dando ainda mais visibilidade às artes visuais. Também trabalhamos a linguagem do cinema, através do Cineclube, em parceria com o Sarau da Barão
A lógica é simples na teoria e complexa na prática: quanto mais atividades e parceiros dividem o mesmo endereço, maior a possibilidade de o espaço se sustentar. Mas isso também revela o tamanho do desafio para quem produz cultura de forma independente.
Os relatos dos espaços do Centro mostram que existe público interessado em cultura e uma produção artística ativa na cidade. Mas, entre a existência desse público e a permanência de quem produz, há uma questão que nem sempre aparece no debate: a cultura também movimenta um mercado.
Shows, exposições, oficinas, gastronomia, cinema, artes visuais e outros eventos envolvem artistas, produtores, técnicos, comerciantes e espaços que precisam encontrar formas de se manter funcionando. O consumo cultural, portanto, não termina na experiência de quem visita uma exposição ou assiste a um show. Ele também sustenta uma cadeia de trabalho.
No Centro de Vitória, essa dinâmica acontece em diferentes formatos e em espaços que, apesar de suas particularidades, têm em comum a tentativa de fazer da cultura uma atividade possível de ser mantida ao longo do tempo. A questão passa, então, não apenas por quantas pessoas consomem cultura, mas também por como esse mercado consegue se sustentar.