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Mulheres ainda são minoria na política
Mulheres ainda são minoria na política. Crédito: Shutterstock

Para aumentar presença feminina, partidos têm que investir em capacitação

Mudanças na legislação favorecem a presença de mulheres nas legendas. Relegá-las apenas ao "setor de mulheres" das legendas, no entanto, não basta

Publicado em 24/08/2020 às 06h00
Atualizado em 24/08/2020 às 09h18

A Justiça Eleitoral tenta, por meio de alterações na legislação, diminuir a desigualdade entre homens e mulheres nos espaços políticos e partidários. Desde a década de 1990, quando a cota de gênero foi criada, as siglas são obrigadas a distribuir suas candidaturas para ocupar os Legislativos com um máximo de 70% de candidatos de um gênero. Na prática, a menor parte, os 30%, é destinada a candidaturas femininas, preteridas por muito partidos.

Levantamento realizado por A Gazeta mostra que nos últimos 48 anos, dos 771 vereadores eleitos nas Câmaras das principais cidades da Grande Vitória (Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica), apenas 29 eram mulheres. Isso representa 4% do Legislativo municipal desse período. Ou seja, 96% das cadeiras foram ocupadas por homens.

Na eleição municipal de 2020, pela primeira vez, os partidos terão que aplicar a mesma proporção da cota de gênero na divisão dos recursos do fundo eleitoral, para as campanhas, em uma tentativa de tornar as candidaturas femininas mais competitivas. Em maio, uma nova decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também aplicou a regra para a presença de mulheres em lideranças partidárias.

Para especialistas, as regras, sozinhas, podem não ter tanto impacto nas urnas, mas se tornam uma forma de lutar por mais espaço para as mulheres nos partidos. Com a obrigação de investir em candidatas e, agora, em líderes partidárias, as legendas terão que investir mais na capacitação de suas filiadas.

PDT, Republicanos, Cidadania, Podemos, MDB e PSDB são alguns dos partidos no Espírito Santo que dizem investir na capacitação de suas pré-candidatas, com cursos que ensinam desde conceitos básicos de política e oratória até planejamento de campanha eleitoral.

Quem toma a frente para promover e dirigir as iniciativas são as mulheres que encabeçam os "braços femininos" das legendas. As figuras que presidem esses movimentos são engajadas na busca por mais mulheres para compor chapas, mas admitem que ainda falta conquistar espaço dentro do próprio ambiente partidário.

Manoela Pedroso

Presidente do Podemos Mulher estadual

"Percebemos que as mulheres estão com um novo olhar para a política, entendendo que a participação feminina faz com que políticas públicas sejam estendidas para um papel mais transformador"

"Mas é um desafio o mandato e a participação feminina, porque é um ambiente com um percentual masculino ainda muito maior e mulheres precisam e buscam seguir o exemplo de outras mulheres", complementa Manoela.

A frente feminina dos partidos tem se fortalecido, mas a presença das mulheres ainda é tímida dentro da liderança "oficial" das siglas. A presidente do PSDB Mulher no Estado, Marli Fialho, diz que a representatividade tem crescido, mas ainda não é o que o movimento almeja.

"A participação precisa avançar muito. Esse trabalho que fazemos é justamente para isso. Convocamos as mulheres a participar, mas ainda tem muita resistência por parte delas mesmas. Temos uma representação que ainda não é o que almejamos, mas já temos conquistado mais espaço."

Para a cientista política e professora da UnB Danusa Marques, o fato de que os espaços de liderança partidária são ocupados, em sua maioria, por homens, acaba criando um ambiente de boicote de candidaturas e representação feminina.

A priorização se reflete, principalmente, na distribuição de recursos, explica a professora. “Vira um círculo vicioso em que os partidos priorizam as candidaturas mais competitivas, mas sem dinheiro não tem como construir uma candidatura competitiva”, diz.

SETORIZAÇÃO É UM RISCO

A criação de frentes específicas não é algo exclusivo para mulheres. É natural que as siglas tenham braços ligados a juventude, mulheres e outras minorias. Para especialistas, essas alas são importantes para pressionar a diretoria dos partidos e conseguir mais espaços. A setorização, contudo, pode dificultar o caminho para que mulheres tenham influência em assuntos gerais do partido.

Danusa Marques

Cientista política e professora da UnB

"Quando você vai fazer pesquisa sobre igualdade de gênero em partidos, eles te passam para a mulher que coordena a pasta de mulher. Mas discussão de gênero não é sobre mulheres. É sobre a desigualdade que existe e precisa ser vista e discutida pelos homens"

Para cientista política Dayane Santos, a divisão pode se tornar uma forma de criar "guetos" para as mulheres e impedi-las de ocupar espaços reais de decisão. "Se for para colocar mulheres na liderança, que seja na liderança do partido e não apenas do gueto destinado a elas", frisa, ressaltando que as iniciativas são um começo para o fortalecimento das mulheres nas legendas.

A vice-governadora do Estado, Jaqueline Moraes (PSB), a primeira a ocupar tal cargo no Espírito Santo, afirma que o caminho para mudar a realidade da baixa representatividade começa pelos partidos.

"O poder é masculino e a gente precisa começar mudando isso dentro dos partidos. Essa violência política de gênero tem que ser alterada nos núcleos partidários e eu tenho colocado o dedo na ferida do meu partido quanto a isso. As Executivas municipais precisam ser empoderadas por mulheres, o espaço de presidente do partido também é da mulher", alerta.

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