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Permanência difícil

Militares do governo tentam segurar Bebianno, mas é improvável

Não foi casual a participação de dois ministros que ostentam quatro estrelas de generais da reserva no ombro nas tratativas para tentar solucionar a crise em Brasília

Publicado em 14 de Fevereiro de 2019 às 21:23

Publicado em 

14 fev 2019 às 21:23
Gustavo Bebianno e Jair Bolsonaro Crédito: Reprodução/Instagram
A ala militar do governo Jair Bolsonaro (PSL) foi chamada para tentar apaziguar a crise entre o presidente e Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral). É uma vitória política do grupo, que desconfia da ingerência dos filhos do mandatário nos negócios do governo, mas a visão generalizada é de que será muito difícil manter o ministro no cargo.
Não foi casual a participação de dois ministros que ostentam quatro estrelas de generais da reserva no ombro nas tratativas para tentar solucionar a crise em Brasília. Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Fernando Azevedo (Defesa) conversaram com o presidente na tarde de quarta (13), quando a confusão já estava armada devido à acusação pública feita por Carlos Bolsonaro de que Bebianno havia mentido sobre ter discutido a situação em conversas com seu pai. Chefe da Secretaria de Governo, o general Carlos Alberto Santos Cruz também entrou na operação-abafa.
Vereador pelo PSC do Rio de Janeiro, Carlos é o mais influente filho de Bolsonaro, segundo relato de seus próprios irmãos. Ele comanda há anos a estratégia digital do pai, mas durante a campanha eleitoral acumulou discussões com Bebianno sobre rumos da comunicação do então candidato. Já na transição, o ministro fritou a indicação de Carlos para a Secretaria de Comunicação Social ao ventilar a possibilidade em entrevista. Os filhos não perdoaram, e o deputado federal Eduardo (PSL-SP) indicou um assessor para a função, que foi retirada do guarda-chuva da Secretaria-Geral que seria assumida por Bebianno.
Assim, o escândalo dos laranjas do PSL caiu como uma luva como álibi para o clã Bolsonaro voltar à carga. O problema foi a natureza da intervenção: aliados, tanto militares como civis, ficaram mal impressionados com o presidente da República repostando uma acusação grave contra um ministro feita em rede social pelo filho. A confusão no Congresso, onde deputados do PSL de Bolsonaro atacavam ora Bebianno, ora os filhos, também deixou claro a agentes de mercado que a tramitação da reforma da Previdência tende a ser bem mais difícil sem uma ordem unida na maior bancada da Câmara. Como mostrou a Folha de S. Paulo, isso colocou Rodrigo Maia, o presidente da Câmara, na operação para tentar segurar o ministro.
Ao longo desta quinta (14), generais no governo e na ativa trocavam impressões sobre a crise. O assunto dominava rodas de conversa na passagem de cargo do novo porta-voz da Presidência, general Otávio do Rêgo Barros, para o novo chefe de comunicação do Exército, general Richard Nunes.
O fato de Bebianno não aparecer em uma reunião na qual seria admoestado por Heleno, Azevedo e pelo chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, foi notado como uma insubordinação, o que cai mal nesse meio específico. A impressão que mais se ouve entre oficiais é de que o Planalto abriga muitos fios desencabados.
Os militares buscaram atuar com bombeiros. Os mais próximos de Bolsonaro sugeriram sangue frio ao presidente. A ala fardada não quer a queda de Bebianno por considerar que a demissão de um ministro dessa magnitude no começo do governo só serviria para firmar a imagem de fragilidade política no Planalto. E o secretário-geral tem dois generais, Floriano Peixoto e Maynard Santa Rosa, nominalmente sob seu comando. É corrente no governo atribuir aos dois oficiais da reserva o tom polido e o comedimento político do até então "pitbull" da campanha após ter assumido o ministério.
Só que isso não foi suficiente para conter o curto-circuito da quarta, que já vinha tomando forma desde que Bebianno teve uma ex-assessora implicada no caso dos laranjas em uma reportagem da Folha no domingo (10). Um general da ativa considerou o endosso de Bolsonaro à crítica do filho uma espécie de ponto de não retorno. Ao mesmo tempo, se expôs à acusação de fraqueza de comando por não ter demitido Bebianno.
Bolsonaro ganhou tempo ao reservar a tarde para fechar a polêmica alteração da idade mínima de aposentadoria de sua proposta de reforma da Previdência, além do tempo de transição para sua implantação. A previsível euforia nos mercados dá um alívio momentâneo ao governo, mas, com notas emergindo na imprensa trazendo supostas ameaças de Bebianno ao Planalto, o nó político ainda precisa ser desatado.
Olhando para frente, é na dinâmica da relação dos militares com o voluntarismo familiar dos Bolsonaro que reside a chave para o tratamento de futuras crises. Reservadamente, diversos oficiais no governo e na ativa admitem que a influência dos filhos sobre o presidente é algo incontornável. Família é família, lembram. Mas não escondem o desagrado com o modo caótico de comunicação, privilegiando torpedos lançados nas águas do Twitter a articulações políticas mais consistentes e ponderadas. E a confusão de figuras: como afirmou um almirante, ninguém mais sabe quem está falando o quê, os Bolsonaros são uma só persona pública na prática.
Quem pode falar, o indemissível general e vice-presidente Hamilton Mourão, já comprou sua briga particular contra a agenda conservadora de Bolsonaro ao se dizer favorável à liberação do aborto. E particularizou o combate à política externa, área de influência direta de Eduardo Bolsonaro, que avalizou a indicação do chanceler Ernesto Araújo pelo ideólogo da turma, o escritor Olavo de Carvalho. Mourão já desautorizou movimentos como a transferência da embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém e, mais importante, trocou altercações diretas com Olavo -que recrutou seu aliado americano, o ex-estrategista de Donald Trump Steve Bannon, para também criticar o vice-presidente.

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