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Luto no ES

Geovani teve passagem curta e polêmica pela política após deixar o futebol

Eleito deputado estadual em 2002, ex-jogador foi escolhido em 2003 para presidir a Assembleia Legislativa, mas votação foi anulada pela Justiça; relembre a história

Publicado em 18 de Maio de 2026 às 14:27

Tiago Alencar

Publicado em 

18 mai 2026 às 14:27

Ao longo de mais de 20 anos de carreira no futebol, Geovani Silva colecionou vitórias e títulos, dentro e fora do Brasil. Morto nesta segunda-feira (18), aos 62 anos, o "Pequeno Príncipe" foi ídolo do Vasco, de clubes capixabas e até mesmo da Itália, onde jogou pelo Bologna, além de ter comemorado conquistas pela Seleção Brasileira. Porém, após deixar os gramados no começo dos anos 2000, o ex-jogador teve uma passagem curta e polêmica pela política, em um período marcado por denúncias, disputas judiciais, operações policiais e crise institucional na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales).


Geovani foi eleito deputado estadual pelo PTB em 2002, com 19.572 votos. Logo no primeiro dia de mandato, em fevereiro de 2003, o ex-jogador protagonizou um dos episódios mais emblemáticos da história recente da Assembleia: a eleição para a presidência do Legislativo estadual que acabaria anulada pela Justiça.


Naquele momento, a Assembleia era alvo de investigações envolvendo parlamentares ligados ao então deputado estadual José Carlos Gratz, apontado como figura central de uma série de denúncias de corrupção e citado no relatório final da CPI do Narcotráfico como um dos líderes do crime organizado no Estado.

A primeira eleição para a Mesa Diretora para o biênio 2003-2005 demorou cerca de duas horas e foi marcada por intensas negociações
Deputados comemoram eleição de Geovani Silva (ao microfone) como presidente da Assembleia, em fevereiro de 2003 Tonico/ Acervo do Centro de Memória da Ales

Conforme registrou reportagem de A Gazeta de 4 fevereiro de 2003, recém-chegado ao cargo, Geovani recebeu o apoio do grupo político ligado a Gratz e foi eleito para presidir a Ales. Em votação secreta, o ex-jogador venceu Claudio Vereza (PT) por 19 votos a 11. A sessão, no entanto, virou caso de polícia, com direito a confusão no plenário da Casa de Leis.


A confusão ocorreu porque cinco deputados afastados judicialmente participaram da votação após uma disputa de liminares ao longo do dia. Segundo relatos da época, oficiais de Justiça e integrantes do Ministério Público teriam sido impedidos de entrar no plenário para comunicar a decisão que barrava os parlamentares de votar na eleição para a presidência da Ales. 


Houve bate-boca entre a oficial, os promotores de Justiça que a acompanhavam e a segurança da Casa. Os promotores acusaram os seguranças de agressão. 


Dias depois, o Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) anulou a eleição da Mesa Diretora. A crise se aprofundou com a prisão preventiva de seguranças da Assembleia acusados de obstrução da Justiça, desacato e agressão contra servidores que tentavam cumprir ordens judiciais. 


Na ocasião, em meio ao caos institucional, Geovani divulgou nota em defesa da eleição e criticou o que classificou como interferência externa no Legislativo. Não adiantou. Uma nova eleição foi organizada, dessa vez com chapa única, e Vereza foi eleito.

Edição de A Gazeta sobre a polêmica na eleição da Mesa Diretora da Ales.
Acervo A Gazeta

Em 13 de fevereiro de 2003, 10 dias após a polêmica eleição na Assembleia, Geovani deu entrevista a A Gazeta, na qual afirmou ter sido "usado" no processo de escolha da Mesa Diretora.


"Hoje me sinto aliviado, mas sei que fui usado e só fiquei sabendo disso depois que vi as notícias na televisão e no jornal. Acredito que Vereza será o melhor presidente. Eu fui enganado por manobras de pessoas. Fui usado pelo mal e jamais serei do mal", disse o então deputado, na ocasião, sem citar nomes.


A passagem de Geovani pela política acabou sendo curta. O ex-jogador exerceu mandato entre 2003 e 2007, tendo ocupado o cargo de segundo vice-presidente da Assembleia no biênio 2005-2006.

Ídolo do Vasco da Gama e da Desportiva Ferroviária teve passagem pela política capixaba
Entrevista de Geovani para A Gazeta após eleição na Assembleia, em 2003. Acervo A Gazeta

Insegurança política e institucional no ES

Na eleição da qual o ex-jogador participou, em 2002, apenas 10 deputados conseguiram se reeleger. Sete deles foram impedidos de exercer os mandatos nas primeiras sessões da nova Legislatura (2003-2005) por ordem da Justiça, sob a suspeita de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e ocultação de bens. 

Contra esses parlamentares havia pedido de prisão preventiva feito pela Missão Especial de Combate ao Crime Organizado, criada pelo Ministério da Justiça em julho de 2002 e comandada pela Polícia Federal no Estado.

Problemas de saúde ao longo da vida

O ex-atleta teve diversos problemas de saúde ao longo da vida. Em 2006 foi diagnosticado com polineuropatia, um distúrbio neurológico que ocorre quando simultaneamente muitos nervos periféricos por todo o corpo começam a não funcionar corretamente. Ele chegou a andar de cadeira de rodas por um tempo e depois de muletas, mas conseguiu vencer a doença.


Em 2015, foi diagnosticado com um câncer na coluna vertebral. Já em 2022 foi internado após inchaços pelo corpo e problemas cardíacos. Em 2024, houve nova internação, dessa vez em virtude de uma desidratação causada por inflamação e infecção no intestino. Em junho de 2025, foi novamente internado, após sofrer paradas cardiorrespiratórias, e passou um período na UTI em Vitória em estado grave, recebendo alta hospilar em agosto do mesmo ano.


Nascido em Vitória, em 1964, Geovani morreu em casa, no fim da madrugada desta segunda-feira (18), após sofrer uma parada cardíaca. O governo do Estado e a Assembleia Legislativa decretaram luto oficial pela morte do ex-jogador.

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