Ao longo de mais de 20 anos de carreira no futebol, Geovani Silva colecionou vitórias e títulos, dentro e fora do Brasil. Morto nesta segunda-feira (18), aos 62 anos, o "Pequeno Príncipe" foi ídolo do Vasco, de clubes capixabas e até mesmo da Itália, onde jogou pelo Bologna, além de ter comemorado conquistas pela Seleção Brasileira. Porém, após deixar os gramados no começo dos anos 2000, o ex-jogador teve uma passagem curta e polêmica pela política, em um período marcado por denúncias, disputas judiciais, operações policiais e crise institucional na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales).
Geovani foi eleito deputado estadual pelo PTB em 2002, com 19.572 votos. Logo no primeiro dia de mandato, em fevereiro de 2003, o ex-jogador protagonizou um dos episódios mais emblemáticos da história recente da Assembleia: a eleição para a presidência do Legislativo estadual que acabaria anulada pela Justiça.
Naquele momento, a Assembleia era alvo de investigações envolvendo parlamentares ligados ao então deputado estadual José Carlos Gratz, apontado como figura central de uma série de denúncias de corrupção e citado no relatório final da CPI do Narcotráfico como um dos líderes do crime organizado no Estado.
Conforme registrou reportagem de A Gazeta de 4 fevereiro de 2003, recém-chegado ao cargo, Geovani recebeu o apoio do grupo político ligado a Gratz e foi eleito para presidir a Ales. Em votação secreta, o ex-jogador venceu Claudio Vereza (PT) por 19 votos a 11. A sessão, no entanto, virou caso de polícia, com direito a confusão no plenário da Casa de Leis.
A confusão ocorreu porque cinco deputados afastados judicialmente participaram da votação após uma disputa de liminares ao longo do dia. Segundo relatos da época, oficiais de Justiça e integrantes do Ministério Público teriam sido impedidos de entrar no plenário para comunicar a decisão que barrava os parlamentares de votar na eleição para a presidência da Ales.
Houve bate-boca entre a oficial, os promotores de Justiça que a acompanhavam e a segurança da Casa. Os promotores acusaram os seguranças de agressão.
Dias depois, o Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) anulou a eleição da Mesa Diretora. A crise se aprofundou com a prisão preventiva de seguranças da Assembleia acusados de obstrução da Justiça, desacato e agressão contra servidores que tentavam cumprir ordens judiciais.
Na ocasião, em meio ao caos institucional, Geovani divulgou nota em defesa da eleição e criticou o que classificou como interferência externa no Legislativo. Não adiantou. Uma nova eleição foi organizada, dessa vez com chapa única, e Vereza foi eleito.
Acervo A Gazeta
Em 13 de fevereiro de 2003, 10 dias após a polêmica eleição na Assembleia, Geovani deu entrevista a A Gazeta, na qual afirmou ter sido "usado" no processo de escolha da Mesa Diretora.
"Hoje me sinto aliviado, mas sei que fui usado e só fiquei sabendo disso depois que vi as notícias na televisão e no jornal. Acredito que Vereza será o melhor presidente. Eu fui enganado por manobras de pessoas. Fui usado pelo mal e jamais serei do mal", disse o então deputado, na ocasião, sem citar nomes.
A passagem de Geovani pela política acabou sendo curta. O ex-jogador exerceu mandato entre 2003 e 2007, tendo ocupado o cargo de segundo vice-presidente da Assembleia no biênio 2005-2006.
Insegurança política e institucional no ES
Problemas de saúde ao longo da vida
O ex-atleta teve diversos problemas de saúde ao longo da vida. Em 2006 foi diagnosticado com polineuropatia, um distúrbio neurológico que ocorre quando simultaneamente muitos nervos periféricos por todo o corpo começam a não funcionar corretamente. Ele chegou a andar de cadeira de rodas por um tempo e depois de muletas, mas conseguiu vencer a doença.
Em 2015, foi diagnosticado com um câncer na coluna vertebral. Já em 2022 foi internado após inchaços pelo corpo e problemas cardíacos. Em 2024, houve nova internação, dessa vez em virtude de uma desidratação causada por inflamação e infecção no intestino. Em junho de 2025, foi novamente internado, após sofrer paradas cardiorrespiratórias, e passou um período na UTI em Vitória em estado grave, recebendo alta hospilar em agosto do mesmo ano.
Nascido em Vitória, em 1964, Geovani morreu em casa, no fim da madrugada desta segunda-feira (18), após sofrer uma parada cardíaca. O governo do Estado e a Assembleia Legislativa decretaram luto oficial pela morte do ex-jogador.