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Entrevista

Elena Landau: "Só privatizar não resolve a questão da dívida pública"

Presidente do movimento Livres diz que medida é fundamental para o país, mas que a solução para o déficit depende da reforma da Previdência

Publicado em 09 de Dezembro de 2018 às 22:43

Natalia Devens

Publicado em 

09 dez 2018 às 22:43
A realização de privatizações estratégicas está entre os desafios da agenda liberal nos novos governos que se iniciam em janeiro, mas é um equívoco acreditar que elas serão a solução do problema das contas públicas e da dívida do país. A avaliação é da economista e advogada Elena Landau, presidente do movimento suprapartidário Livres e uma das expoentes das reformas econômicas liberalizantes ocorridas no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
Elena estará no Estado na noite de hoje para debater o cenário político e econômico do país, em evento promovido pelo Livres, no anfiteatro da UVV, em Vila Velha. Em defesa de uma compreensão ampla de liberalismo, a economista aponta que “não basta privatizar para ser liberal”, razão pela qual, inclusive, o movimento não apoiou Jair Bolsonaro (PSL) nas eleições deste ano.
Por que o movimento Livres foi criado?
O Livres ia ser um partido, era um movimento que estava crescendo dentro do PSL, como uma divisão interna. Quando o Bolsonaro entrou no início do ano, nós saímos, nos transformamos em um movimento suprapartidário, porque a pauta dele era totalmente incompatível, principalmente na área de costumes. Não podemos apoiar o Escola sem Partido, por exemplo, e o foco na educação, para nós, é falar em cultura, aprendizado, e não ficar nessa fixação com a identidade de gênero. Também vimos muito desrespeito com as pessoas LGBT, com as mulheres, com declarações de racismo, temos princípios diferentes.
Antes da eleição, a senhora afirmou que a eleição de Bolsonaro seria uma tragédia, e que tanto ele quanto Lula representavam populismo. Por que achava isso?
Populismo é não falar a verdade com seriedade e prometer soluções fáceis. Quando ele diz que vai resolver segurança armando o cidadão, está sendo populista. Isso não é política de segurança. Diz que é liberal na economia, mas não se posiciona de forma clara sobre a reforma da Previdência, fica preocupado em defender as corporações de onde ele vem. E consideramos que ele poderia representar um retrocesso, pois nossa posição é sempre guiada pelos nossos valores. O que trouxer mais liberdade vai ter nosso apoio, o que tirar liberdade vai ter nossa crítica.
Durante a campanha, Bolsonaro se afirmou liberal e o discurso convenceu muitos eleitores, mas também foi apontado como contraditório, por não ter apoiado privatizações. Isso prejudica a implementação de ideias liberais?
Esse é um problema sério. Ele é contra privatizar muitas coisas, porque tem essa ideia, da herança militar, de que há setores estratégicos na economia. Não concordo. Temos que respeitar a Constituição. Ela diz que a interferência do Estado tem que ser mínima. Caixa, Banco do Brasil, Petrobras e Eletrobras se encaixam na limitação constitucional, todas são passíveis de privatização. E também há um equívoco na visão da equipe econômica sobre a capacidade de a privatização solucionar, num passe de mágica, todo o problema da dívida do Brasil, pois não vai. Há uma confusão entre estoque e fluxo. Você tem um fluxo permanente de aumento de gastos, por conta da Previdência e de pessoal, que privatizar não vai resolver, você vai gastar os ativos e vai continuar o problema do déficit público. A privatização é fundamental para um Estado mais eficiente, para melhorar a qualidade da gestão dos serviços, mas não resolve a questão da dívida pública. A gente precisa da reforma da Previdência.
Esta e outras reformas dependem do Congresso para serem aprovadas. Essa dependência aumenta o risco de casos de corrupção no país?
O risco de corrupção, para mim, é mínimo. O recado que foi dado com Sérgio Moro no Ministério da Justiça está muito claro, e a independência com que Bolsonaro escolheu os nomes também. Vamos ver como o Congresso reage, porque outros presidentes tentaram governar sem o Congresso e não foram muito felizes, como Collor e Dilma. O Legislativo que entra é diferente, renovado, no sentido de ideologia, mas é inexperiente, essa é a preocupação maior. Bolsonaro entra com forte apoio, e as grandes reformas são em início de mandato. O que a gente espera é que nos seis meses iniciais a gente possa ver que tipo de coalizão ele vai organizar. Não tem mais coalizão partidária, é uma coalizão de bancada.
Qual será o papel do movimento Livres a partir do próximo ano?
Vamos estar atentos a todos os projetos que envolvam a liberdade, desde os costumes até a economia, um liberalismo de verdade. O Livres não é nem de esquerda, nem de direita. Nós somos o centro liberal. Qualquer medida parlamentar, jurídica ou política que for restritiva de liberdade, seja econômica, seja social, faremos oposição.
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