A costura de um palanque bolsonarista na disputa pelo governo do Espírito Santo em 2022 já começou. No páreo estão o ex-deputado federal Carlos Manato (sem partido), que concorreu ao Palácio Anchieta em 2018, e o deputado federal Evair de Melo (PP), um dos vice-líderes do governo federal na Câmara dos Deputados. Partidos de menor representatividade, como o PRTB, não descartam a possibilidade de buscar um nome conservador que seja competitivo e lançar pela legenda. O presidente Jair Bolsonaro, que deve ir em busca da reeleição, pode ter mais de um aliado no cenário local nas eleições do ano que vem.
Assim como do "lado Casagrande" da moeda o cenário de alianças ainda é turvo, do lado da oposição também há muito a ser observado no tabuleiro eleitoral. Manato, por exemplo, que teve 27,22% dos votos válidos em 2018 e perdeu ainda no primeiro turno, é visto como "extremista" por algumas lideranças de direita no Estado; e o PP, partido de Evair que apoia Bolsonaro no Congresso, está "casado" com o governador no âmbito estadual e não daria espaço para o parlamentar concorrer ao governo.
"Não sei como Evair e Manato vão resolver isso, mas uma coisa é o Bolsonaro e outra coisa é o bolsonarismo. O presidente pode chegar muito combalido, porque ele não expressou e honrou o movimento que liderou, mas o movimento de extrema-direita de corte evangélico existirá e terá uma quantidade boa de votos. Independentemente de Bolsonaro, acredito que a direita será reconstruída", avalia o cientista político João Gualberto Vasconcellos.
No centro de tudo está uma questão a ser decidida pelo próprio presidente. Ainda sem partido desde que deixou o PSL, a legenda escolhida por Bolsonaro para disputar o próximo pleito vai dizer muito sobre as alianças a serem formadas no Estado. O mandatário recebeu convites de diferentes siglas de direita e, segundo Manato, negocia de forma mais intensa com PRTB – com a condição de alterar o nome da legenda para Aliança 28 – e PP.
"Eu tenho conversado, mas estou preso até o presidente decidir para qual partido ele vai. Eu tenho conversado com alguns aliados, como PTB e com PL. A gente está conversando com as pessoas que têm um perfil mais 'bolsonariano'. Tive uma conversa com Evair e falei com ele que temos que ter o mesmo discurso e falar no que nos une. Agora, decidir quem vai, quem não vai é uma coisa mais para frente. O que existe é que o movimento conservador mesmo, raiz, o nome é Manato. E para Senado o nome Magno Malta", afirma Manato.
As duas lideranças bolsonaristas já haviam confirmado as conversas para uma possível aliança, mas sempre deixando em aberto a possibilidade de cada um correr por conta no primeiro turno e se juntar no segundo.
Oficialmente, Evair é visto como candidato à reeleição na Câmara. Tanto o PP quanto o parlamentar mantêm o discurso em entrevistas. Nos últimos meses, no entanto, Evair subiu o tom nas críticas ao governador, separando-se de uma vez por todas da imagem do socialista. Seu partido, no entanto, não abre mão da aliança com o chefe do Executivo estadual.
"Nosso compromisso no Estado continua sendo com a reeleição do governador. A gente não trabalha essa possibilidade (de Evair candidato ao governo), estou falando de uma conversa que eu tive pessoalmente com ele. Ele é candidato a deputado federal pelo PP", garante o presidente estadual da sigla, ex-deputado Marcus Vicente. Vicente é secretário de Desenvolvimento Urbano no governo Casagrande desde 2019.
Se quiser disputar o cargo de governador, portanto, ao que tudo indica, Evair vai ter que escolher outra sigla. "Não acho que Evair sairia do PP facilmente. O partido é um dos que mais recebe dinheiro para campanha do fundo partidário. Outra sigla que recebe bastante é o PSL, mas no Estado o PSL está com Casagrande, pelo menos com Quintino (Alexandre Quintino é o atual presidente do PSL no Estado). Não vão ser negociações fáceis", ressalta João Gualberto.
Evair foi procurado por telefone diversas vezes pela reportagem para se manifestar, mas não atendeu às ligações.
NANICOS NÃO SE POSICIONAM
Sem um posicionamento claro do presidente Bolsonaro, partidos conservadores nanicos, como PMB (que alterou o nome para Brasil 35 para atrair o presidente), PRTB e Patriota focam na preparação de chapas competitivas para o Legislativo, sem ingressar em negociações para candidaturas majoritárias (Senado e governo).
Tentando manter um discurso centrista, os líderes partidários PMB afirmam que o partido não é "de esquerda nem de direita" e que estão focados em se cacifar para eleger deputados no Estado e no Congresso. Mesmo foco do Patriota, legenda que abriga nomes bolsonaristas, como o deputado estadual Capitão Assumção. "Estamos trabalhando para manter nossos deputados na Assembleia Legislativa e eleger pelo menos um deputado federal", sustenta o presidente da legenda, o deputado estadual Rafael Favatto.
No PRTB, que tenta atrair o presidente para liderar a legenda após a morte de Levy Fidelix, existe uma movimentação para lançar candidatura própria ao governo. Não necessariamente seria Manato.
"Estamos sondando algumas lideranças, um prefeito, por exemplo, para tentar encontrar um nome competitivo para concorrer pelo PRTB. Não conheço Evair e nunca conversei com Manato. O presidente vindo ou não para o PRTB, temos o vice-presidente Hamilton Mourão e cacife para lançar candidatura própria tanto nacional quanto estadual", garante o presidente do PRTB no Espírito Santo, Antônio Bumgestab.
Os partidos têm como preocupação central aumentar o número de votos para ultrapassar a cláusula de barreira. A norma estabelece critérios para que as legendas tenham acesso ao dinheiro do fundo partidário e ao tempo de TV, baseado na quantidade de votos recebidos para o cargo de deputado federal ou tamanho das bancadas na Câmara.
As maiores bancadas, como PP, PT e PSL, por exemplo, recebem mais dinheiro e mais tempo de propaganda. Já nanicos sem representatividade, como é o caso de PRTB e PMB, ficam de fora na distribuição.