O senador Marcos do Val (Podemos), único representante do Espírito Santo na CPI da Covid, fez 22 requisições para a convocação de pessoas para depor na comissão que fiscaliza o uso de recursos da União no enfrentamento à pandemia de Covid-19. Dos pedidos feitos pelo parlamentar capixaba, que é suplente na CPI, nenhuma é endereçada a prefeitos do Espírito Santo, muito menos ao governador do Estado, Renato Casagrande (PSB), de quem é aliado.
Entre os pedidos feitos pelo senador, está a convocação do ex-ministro de Relações Exteriores Ernesto Araújo, que pediu demissão no final de março após pressão de parlamentares. Apesar de Do Val ter se mostrado alinhado ao governo Bolsonaro e ter sintonia com pautas bolsonaristas, ele vem demonstrando, nas últimas semanas, alguns posicionamentos divergentes.
Na justificativa para a convocação de Araújo, por exemplo, Do Val argumentou que o ex-integrante do primeiro escalão do governo, "durante o período em que foi ministro de Relações Exteriores, executou na política externa o negacionismo de Bolsonaro na pandemia, o que teria feito o Brasil perder um tempo precioso nas negociações por vacinas e insumos para o combate à Covid-19". O pedido do senador foi contemplado com a aprovação da convocação de Ernesto Araújo.
Do Val poupa capixabas na CPI da Covid e convoca secretário do Amazonas
Ao mesmo tempo, Do Val, assim como o presidente, é um dos defensores do tratamento precoce com o uso de hidroxicloroquina, algo rechaçado pela comunidade científica e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Na sessão desta quarta-feira (5), o senador destacou que toma o medicamento todo final de semana, após receber prescrição médica.
Além da convocação de Araújo, outro, dos 22 requerimentos apresentados pelo senador também foi aprovado: o que pede a convocação do secretário de Saúde do Amazonas, Marcellus Campêllo. Na justificativa apresentada no pedido, Marcos do Val diz que "Manaus está em colapso com o avanço dos casos de Covid-19" e que "o depoimento do senhor Marcellus José Barroso Campêlo, secretário de Estado de Saúde do Amazonas, permitirá a elucidação de diversos aspectos relacionados ao objeto de investigação da presente comissão", escreveu.
Também foi solicitado pelo senador, na CPI da Covid, o convite para que a microbiologista Natalia Pasternak, uma divulgadora científica brasileira contrária ao uso da cloroquina no combate ao coronavírus, seja ouvida pelos membros da comissão. Outro profissional da saúde convidado pelo capixaba é o médico neurocirurgião Paulo Porto de Melo, que viralizou em mensagens na internet ao criticar, citando informações falsas, os efeitos colaterais da vacina Coronavac, durante uma entrevista em 2020.
Entre as outras requisições de Do Val na CPI, a maior parte dos pedidos é para a convocação de nove pessoas investigadas, citadas ou que participaram das investigações da operação “Falso Negativo”, deflagrada pelo Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) para investigar fraudes para a compra de testes para o novo coronavírus. A operação teve início em julho de 2020.
Representantes das fabricantes de vacinas contra a Covid-19 Janssen, Pfizer e União Química também constam entre os pedidos de convite feitos por Do Val. O parlamentar também pediu que o prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), fosse ouvidos pela comissão. Dos 22 requerimentos apresentados, dois foram aprovados e os outros 20 ainda aguardam para serem apreciados na CPI.
No último dia 5, ao ser questionado pela reportagem se alguma situação atípica no Estado é monitorada por ele e pode ser alvo da CPI, Do Val disse, por nota, que a comissão tem competência para conduzir as investigações e que todos os seus requerimentos estão motivados e justificados, "independentemente de ser esse ou aquele Estado da federação".
SENADOR CHAMOU CPI DE “GOVERNISTA”, MAS VOLTOU ATRÁS
Quando a CPI estava em fase de coleta de assinaturas, Marcos do Val foi o único dos três senadores capixabas a não assinar a lista de apoio à comissão. À época, ele pontuou que a CPI seria, via de regra, um “gasto de tempo, dinheiro e recursos desnecessários” e que apoiar a medida seria “ceder a um discurso populista, sem efetividade, que visa apenas interesses eleitorais”.
No entanto, ele mudou de ideia e foi escolhido como suplente. O senador justificou a mudança após a ampliação do escopo da investigação, antes focada no governo federal, mas que passou a apurar também ações de Estados e municípios que receberam recursos para ações de prevenção e combate à pandemia.