Repórter de Política / [email protected]
Publicado em 29 de junho de 2021 às 16:41
- Atualizado há 5 anos
O Supremo Tribunal Federal (STF) recebeu na segunda-feira (28) uma notícia-crime contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por prevaricação. O documento – assinado pelos senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Jorge Kajuru (Podemos-GO) e Fabiano Contarato (Rede-ES) – pede para que a Corte intime a Procuradoria-Geral da República (PGR) a investigar o presidente, no caso Covaxin. >
Segundo a denúncia apresentada pelos parlamentares, Bolsonaro teria deixado de informar aos órgãos de controle possíveis irregularidades apresentadas pelo deputado Luis Miranda (DEM-DF) e seu irmão, o servidor Luis Ricardo Miranda, funcionário do Ministério da Saúde, na compra das vacinas da farmacêutica indiana Bharat Biotech. Nesta terça-feira (29), o ministro Marcelo Queiroga anunciou que vai suspender o contrato com a Covaxin. >
A ministra do STF Rosa Weber foi sorteada como relatora da notícia-crime e já encaminhou o pedido dos senadores à PGR. Cabe, agora, ao procurador-geral da República, Augusto Aras, analisar os indícios apontados pelos parlamentares e decidir se vai oferecer denúncia contra Bolsonaro ao STF ou arquivar o pedido. >
Caso ele opte por denunciar o presidente, o STF, antes de dar início à análise da denúncia, tem que remeter o processo para a análise da Câmara dos Deputados, que pode autorizar ou não que o Supremo julgue o presidente. Para que o processo seja levado adiante, seria necessária a aprovação de dois terços dos deputados, o que equivale 342 votos.>
>
A notícia-crime protocolada pelos senadores reproduz o depoimento de Luís Ricardo Miranda, servidor do Ministério da Saúde, que informou ao irmão, o deputado federal Luís Miranda, que sofria pressões para aprovar a aquisição da vacina indiana Covaxin, mesmo com irregularidades no processo. O parlamentar, de acordo com o que o próprio Miranda contou à CPI, levou o caso ao presidente Jair Bolsonaro em março. >
A compra das vacinas pelo laboratório indiano levanta, ainda, outras suspeitas, como a de superfaturamento, já que o valor estabelecido com o governo brasileiro é 1.000% maior do que o preço inicial anunciado seis meses antes pelo laboratório. A contratação foi feita em fevereiro, quando a Anvisa nem sequer havia aprovado a vacina da Covaxin, contrariando procedimento que vinha sendo anunciado pelo governo federal.>
Além disso, a Covaxin é o único imunizante contratado pelo país que possui uma empresa atuando como atravessadora na negociação. A Precisa Medicamentos, que representa a fabricante indiana no Brasil, tem como dono o empresário Francisco Emerson Maximiano, que é investigado pelo MPF, em uma ação de improbidade administrativa.>
Em 2018, a Global Gestão em Saúde, que tem Maximiano – dono da Precisa Medicamentos – como sócio, recebeu do governo federal pagamentos antecipados de R$ 20 milhões por medicamentos não entregues. Na época, o ministro da Saúde era Ricardo Barros (PP-PR), que atualmente deputado e líder do governo Bolsonaro na Câmara. >
Barros foi, segundo o depoimento do deputado federal Luis Miranda à CPI, apontado pelo presidente Jair Bolsonaro como responsável “por um rolo” na compra da Covaxin. >
Na notícia-crime, os senadores pedem que o STF cobre um posicionamento de Bolsonaro sobre a reunião em que os irmãos Miranda teriam levado a ele as denúncias e quais as providências que tomou ao ser informado delas. O pedido também quer que a Polícia Federal informe se houve a abertura de algum inquérito sobre o caso Covaxin. Para os senadores, é dever do presidente levar adiante as denúncias recebidas.>
O crime de prevaricação ocorre, segundo o Código Penal brasileiro, quando um funcionário público "retarda ou deixa de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal". >
Esse ato de ofício, no contexto do caso Covaxin, seria uma suposta não comunicação de uma eventual irregularidade por parte do presidente. A pena prevista é de três meses a um ano de prisão, além de multa.>
Além de ser passível de punição penal, o crime de prevaricação também pode ser considerado, na esfera cível, como um crime de responsabilidade, de acordo com o professor de Direito da FDV Américo Bedê Freire Júnior.>
Américo Bedê Freire Júnior
Professor de Direito da FDV e doutor em direitos fundamentais
A notícia-crime dos senadores está agora nas mãos da PGR, que vai analisar os fatos apontados e decidir se vai abrir uma investigação para apurá-los. O órgão pode requisitar o auxílio da Polícia Federal durante essa investigação. Caso sejam identificados indícios de que o presidente tenha cometido crime, que possam ser comprovados, a PGR pode encaminhar a denúncia ao STF.>
Foi o que aconteceu, por duas vezes, durante o governo do ex-presidente Michel Temer (MDB). As duas denúncias feitas pela PGR ao STF tiveram que passar pela Câmara dos Deputados. Somente com a votação de dois terços dos deputados federais é que o Supremo estaria autorizado a dar prosseguimento à denúncia. Caso contrário, como ocorreu, as denúncias são arquivadas.>
Carlos Magno Lima
Professor de Direito Penal da UVVCaso o procurador-geral da República, Augusto Aras, leve a denúncia até o STF, ele pode desagradar o presidente, o que afetaria os planos do PGR para ser reconduzido ao cargo. Além disso, Aras também é cotado para ser indicado à vaga do ministro do STF Marco Aurélio Mello, e concorre, nos bastidores, com o atual advogado-geral da União (AGU), André Mendonça. Cabe a Bolsonaro indicar quem vai ser o procurador-geral da República e também o novo ministro.>
Se a notícia-crime for arquivada pela PGR, caso o órgão considere que não há elementos suficientes para mover uma denúncia contra o presidente, o Supremo não pode, segundo o regimento da Corte, divergir da decisão do procurador-geral da República.>
Como a prevaricação está tipificada como um dos crimes de responsabilidade que podem levar ao impeachment de um presidente, o caminho da denúncia do caso Covaxin pode ser mais eficaz se tramitar no Senado. Como tanto o caminho pela Justiça comum quanto pelo Congresso Nacional a denúncia precisaria ser analisada pelos parlamentares, há maior chance de haver alguma punição ao presidente, caso seja comprovado algum ato ilegal, pelo poder Legislativo.>
A lei que trata dos tipos de crimes de responsabilidade prevê que um deles pode ser tipificado quando o presidente "não efetiva a responsabilidade dos seus subordinados, quando manifesta em delitos funcionais ou na prática de atos contrários à Constituição".>
"A CPI pode, por exemplo, chegar à conclusão que o presidente cometeu crime de responsabilidade e pedir ao Senado que abra um processo de impeachment. Como ambos os casos dependem de um fator político, a via pelo Legislativo pode ser, digamos, mais efetiva do que o caminho pelo Judiciário", analisa o professor da UVV Carlos Magno Lima.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta