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As diferentes facetas do governo Bolsonaro

Militares, olavistas e liberais disputam protagonismo na gestão

Publicado em 02/05/2019 às 23h19
Presidente Jair Bolsonaro na abertura oficial do 37º Encontro Internacional de Missões dos Gideões. Crédito: Alan Santos/PR
Presidente Jair Bolsonaro na abertura oficial do 37º Encontro Internacional de Missões dos Gideões. Crédito: Alan Santos/PR

As profundas divergências entre os principais grupos que ocupam cargos no governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) deixaram o campo teórico e passaram a interferir diretamente na gestão do Executivo. No cabo de guerra protagonizado, por exemplo, por olavistas e militares, importantes temas como Educação e Relações Exteriores ficam à deriva enquanto são alvos de disputas internas.

Em termos práticos, os militares estão à frente dos ministérios da Defesa, Segurança Institucional, Secretaria de Governo e Infraestrutura, além da Vice-Presidência. Do outro lado, o filósofo Olavo de Carvalho, conhecido como o mentor da nova direita, emplacou seguidores no Ministério das Relações Exteriores, na Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda e no Ministério da Educação, atualmente comandado por Abraham Weintraub, ex-aluno do filósofo.

A Educação, aliás, tornou-se um dos principais alvos de conflito entre os dois grupos. De acordo com o cientista político Fernando Pignaton, embora ambos representem a direita, Olavo de Carvalho sustenta um plano ideológico de governo, enquanto os militares são guiados pelo nacional desenvolvimentismo.

Já o sociológo da UVV Pablo Rosa analisa: "Olavo de Carvalho produziu uma narrativa em que os militares possibilitaram a construção de uma Constituição esquerdista. E ele propõe reconstruir a história, voltar ao passado, culpabilizando a esquerda, como um bloco único, por tudo. Já os militares têm receio dessa narrativa justamente porque ela também os responsabiliza. É uma disputa muito perigosa em nossa democracia tão fragilizada".

As divergências já se manifestaram publicamente. Antes de ser demitido do MEC, o então ministro Ricardo Vélez disse que mudaria a forma como o golpe de 1964 e a ditadura militar são retratados nos livros didáticos. Mas a decisão não foi aceita entre os militares, como mostrou o general Santos Cruz. "Se o ponto é 1964 ou não é, acho que estamos perdendo tempo em discutir uma coisa de 55 anos atrás quando temos um monte de coisas mais importantes para discutir", declarou ele, na época. Enquanto isso, programas nacionais da pasta permanecem travados.

EXTERIOR

Nas relações exteriores, a tensão permanece. Também indicado por Olavo de Carvalho, o chefe da pasta, Ernesto Araújo, tem defendido um alinhamento do Brasil com os Estados Unidos de Donald Trump, em contrapartida a um distanciamento da China. Da mesma forma, defende a aliança com Israel, e uma maior interferênciado Brasil na crise política que atinge a Venezuela.

Segundo Pignaton, os militares, em contrapartida, são defensores do equilíbrio. "Eles não querem esse ideologismo a ponto de fazer guerra com a Venezuela. O governo tem uma política antiga de manter a autonomia dos países latino-americanos. O ativismo ideológico do olavismo leva a atititudes práticas desastrosas. Fez uma crítica ideológica à China, que pode atrapalhar as nossas relações comerciais."

Nas palavras do cientista político Ricardo Ismael, "os militares não querem participar de qualquer guerra e muito menos ideologizar a política externa". Para o professor, a solução para tais divergências está nas mãos do próprio Bolsonaro. "Uma saída é colocar alguém (nos ministérios) que seja mais gestor. Alguém que não perca tempo com forças políticas. A população quer resultado, quer mais empregos, quer saúde e educação melhores", pontua.

No caldeirão de pensamentos que se colidem, o liberalismo de Paulo Guedes também não é unânime. Segundo Pignaton, os militares, defensores de um maior controle estatal, representam o avesso das ideias do ministro da Economia.

"Há uma queda de braço em torno do programa de privatizações, como a dos Correios. Paulo Guedes defende uma redução radical do tamanho do Estado. Há então um choque entre o liberalismo e o nacional desenvolimentismo. Foi fácil encampar isso na campanha mediante as críticas à esquerda, mas na hora de governar é muito diferente."

DIVERGÊNCIAS

Educação

Um dos principais pontos de conflito entre a ala militar e os seguidores de Olavo de Carvalho no governo Bolsonaro é a Educação. O embate teve início ainda na gestão do ex-ministro Ricardo Vélez Rodríguez, quando os olavistas acusavam coronéis e generais da pasta de isolar o ministro.

Ideologia

Para o sociólogo Pablo Rosa, os olavistas tentam emplacar uma redefinição da História a partir da Educação, criando uma narrativa de culpabilização da esquerda. Já os militares são contra a ideia.

Relações exteriores

Indicado por Olavo de Carvalho, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, defende ações como um alinhamento do Brasil com os Estados Unidos em contrapartida a um distanciamento da China. Da mesma forma, defende a aliança com Israel e uma maior interferência do Brasil na crise da Venezuela. Os militares, por outro lado, defendem que o Brasil adote uma postura de neutralidade em tais, mantendo boas relações em todos os países.

Economia

Enquanto o ministro da Economia Paulo Guedes é liberal, os militares defendem um maior controle do Estado, o que os torna uma força contra o projeto de privatizações.

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