Um homem de 46 anos foi preso na tarde de quinta-feira (9) após ofender vizinhos praticantes de religiões de matriz africana no bairro Residencial Lagoa de Jacaraípe, na Serra. Vídeos gravados por moradores mostram José Pires da Rocha Anunciação fazendo ofensas aos vizinhos e à religião praticada por eles.
Em uma das gravações, ele diz: "Eu não tenho medo de macumbaria não. A macumbaria pra crente não mata. Deus edifica o crente". Em outro momento, afirma: "É a mesma coisa de morar em boca de fumo. Aleluia. Eu não tenho medo de boca de fumo, não".
De acordo com a conferente Ivania Bravin, as ofensas começaram na noite de terça-feira (7).
"Na terça-feira à noite o vizinho foi até minha porta me agredir com palavras me chamando de macumbeira, feiticeira, palavras de baixo calão, e quando chegou hoje (quinta), ele fez a mesma coisa. Nisso a gente acionou a polícia. Ele nem ia ser preso, mas foi preso porque falou mal da nossa religião na frente dos policiais", disse a conferente.
O pai de santo Alex Sandro de Jesus Silva, conhecido como Pai Brasinha, contou que já esperava ser chamado por causa da ocorrência registrada dias antes. "Assim que eu cheguei lá, ele começou a proferir ofensas a mim e eu acionei o Ciodes."
Ao ser abordado, o homem afirmou para agentes da Guarda Municipal que não tinha medo da polícia e disse ser segurança e ex-pastor. Ainda conforme o registro da ocorrência, ele apresentava sinais de embriaguez, desacatou os agentes e resistiu à prisão, sendo necessário o uso de algemas. A ocorrência contou com o apoio da Polícia Militar.
As vítimas foram levadas à Delegacia Regional da Serra para registrar boletim de ocorrência. Elas estavam acompanhadas por representantes do Conselho de Igualdade Racial da Serra e do Departamento de Promoção da Igualdade Racial da prefeitura.
Ivania relatou o impacto das agressões.
"Eu acho que cada um tem que seguir aquele caminho que vai te levar para uma coisa boa, tirar de lugares ruins. Só que as pessoas não entendem que cada um tem um jeito de servir. Hoje está muito difícil ser de matriz africana. Me sinto até mal de estar acontecendo isso com ele, porque é uma pessoa que precisa de ajuda", afirmou Ivania Bravin.
Racismo religioso
Para o presidente do Conselho de Igualdade Racial da Serra, Ivo Lopes, o caso reforça a necessidade de combater o racismo religioso.
"Não tem uma religião ou fé acima de todas. A gente tem que pregar o respeito por todos. Já pegamos casos de gente que colocou fogo em terreiro na Serra. A gente conseguiu intervir antes de chegar nesse nível. Mas temos que compreender que é crime, não é um achismo, é tipificado no código penal."