Desavenças com um traficante, por causa de mulheres, colocaram um homem de 28 anos nas mãos do “tribunal do crime”, em Viana. A vítima foi rendida, imobilizada e amarrada com fitas adesivas enquanto aguardava a “sentença” do chefe do tráfico do bairro Bom Pastor.
Segundo a Polícia Civil, a vítima foi levada a um campo de futebol, onde integrantes do grupo fizeram uma chamada de vídeo com o chefe do tráfico da região, que teria determinado a punição: um "corretivo". Porém, a polícia chegou ao local e os envolvidos se evadiram.
O caso aconteceu em 13 de agosto, mas os detalhes da investigação foram divulgados apenas nesta quarta-feira (21). Segundo a tenente Milena, do 17º Batalhão da Policia Militar do Espírito Santo (PMES), naquela data, uma equipe foi acionada pelo Centro Integrado Operacional de Defesa Social (Ciodes) após denúncia de uma suposta tentativa de homicídio no campo de futebol do bairro.
“A guarnição se dirigiu até o local, onde foi possível identificar a aglomeração de algumas pessoas. Um indivíduo, ao avistar a guarnição, informou aos demais, que se evadiram do local, deixando a vítima, que estava amarrada com fita adesiva.”
Segundo o chefe da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Viana, delegado Cleudes Junior, a motivação chamou a atenção dos investigadores porque, diferentemente de outros episódios atribuídos a grupos criminosos, não envolvia diretamente disputas pelo controle do tráfico de drogas.
As investigações apontaram que um dos envolvidos, identificado como Júlio César Jordão Moté, conhecido como Julinho, de 26 anos, mantinha um relacionamento com a ex-companheira da vítima.
De acordo com o delegado, começaram a circular comentários de que a vítima estaria tentando se reaproximar da ex. Ao mesmo tempo, surgiram boatos de que Júlio César estaria mantendo contato com a atual companheira do homem, o que provocou desentendimentos entre os dois.
“Mas o que chegou ao nosso conhecimento durante as investigações é que um dos autores (identificado como Júlio César Jordão Moté, o Julinho, de 26 anos), atualmente se relaciona com a ex-companheira da vítima, e começaram a surgir boatos de que a vítima estaria fazendo algum tipo de flerte com essa ex. Paralelo a isso, começaram a surgir boatos de que Julinho também estaria mantendo contato com a atual companheira da vítima, e isso começou a gerar um desgaste entre ambos.”
Segundo a Polícia Civil, a vítima procurou Júlio César para tirar satisfações. Durante o encontro, o homem teria ficado exaltado e acabou imobilizado por integrantes do grupo, que o levaram até um campo de futebol.
No local, os suspeitos fizeram uma chamada de vídeo com Carlos Alberto dos Santos Gonçalves Júnior, conhecido como Beka ou Bequinha, de 38 anos, apontado pela polícia como chefe do tráfico de drogas no bairro Bom Pastor.
De acordo com a investigação, o traficante determinou que a vítima fosse mantida amarrada e submetida a um "corretivo", mas não autorizou que ela fosse morta.
“A própria vítima falou que eles tiveram uma chamada de vídeo com o traficante Bequinha, e que ele não permitiu que fosse executado, somente falou que deveria sofrer um corretivo e ficar amarrado”, contou Cleudes Junior.
A cena foi vista por outras pessoas, que acionaram o Ciodes. No momento em que a viatura da PM chegou ao local, o grupo – que, além de Julinho, era composto por Régis Rosário Silva, de 35 anos, e Marcos Antônio Alves de Oliveira, 27, e Manrik da Silva, 26 – se evadiu do local. Foi a própria vítima que identificou e nomeou os autores, que são vinculados à facção Primeiro Comando de Vitória (PCV).
Após a chegada de reforço policial, foram realizadas buscas na região, que resultaram na prisão em flagrante de Régis e Marcos Antônio. Já Júlio César e Manrik foram presos posteriormente por tráfico de drogas, também no bairro Bom Pastor.
Com a conclusão do inquérito, os cinco investigados foram indiciados por sequestro qualificado e associação criminosa. Segundo a Polícia Civil, a investigação não identificou intenção de matar a vítima.
A prisão preventiva dos cinco foi solicitada pela polícia e decretada pela Justiça. Carlos Alberto, conhecido como Bequinha, é o único que permanece foragido.
"O Carlos Alberto, vulgo Bekinha, é o único que ainda está foragido, e é um indivíduo de extrema periculosidade, envolvido há muitos anos nesse contexto de tráfico de drogas, e já tivemos a oportunidade de indiciá-lo por outros crimes, inclusive um duplo homicídio que ocorreu na praça do bairro. A última notícia que tivemos é de que estaria foragido no Estado do Rio de Janeiro, e, de lá, continua comandando as ações criminosas, principalmente no bairro Bom Pastor", afirmou o delegado.