Menos de um ano antes de o motoboy Dyogenes Souza, de 25 anos, ser morto a tiros durante uma briga de trânsito em Guarapari, um caso semelhante ocorreu no município. Em agosto do ano passado, a engenheira Karen Keith Morais Ferreira, de 36 anos, foi presa após perseguir um casal de moto e jogar o carro que ela dirigia contra uma moto em que estava um casal. Franciene da Silva, 32, que estava na garupa, morreu no local, e o companheiro, Webster Lopes, de 19 anos, que pilotava o veículo, foi socorrido com ferimentos. Câmeras flagraram o crime (veja o vídeo abaixo).
A reportagem de A Gazeta demandou a Secretaria de Estado da Justiça (Sejus), e a pasta informou que Karen permanece presa no Centro Prisional Feminino de Cariacica. Na época do ocorrido, a condutora admitiu para a polícia ter atropelado intencionalmente o casal: “Fiz de propósito”.
A tragédia aconteceu no dia 26 de agosto de 2021. Após o crime, Webster Luiz Santos Lopes, de 19 anos, foi socorrido com ferimentos e levado para um hospital. Já a companheira Franciane Bueque da Silva, de 32 anos, que trabalhava como garçonete em um quiosque da cidade, morreu no local.
Quando ainda estava na Rua Jacinto de Almeida, onde tudo aconteceu, Karen contou aos policiais militares que a briga teve início no Centro da cidade porque, segundo ela, Webster teria feito uma ultrapassagem pela direita, o que não é permitido pelo Código de Trânsito Brasileiro. Ela e o casal teriam trocado ofensas e xingamentos, e, segundo a motorista, o motociclista teria chutado o retrovisor do carro dela.
Ainda em relato aos policiais, ela admitiu ter perseguido o casal com o intuito de filmar a placa e disse que, durante a perseguição, atingiu a moto e a arrastou por cerca de 800 metros, trafegando na contramão da via. Segundo consta no boletim de ocorrência da Polícia Militar, ela disse ter feito toda a ação com raiva e "de propósito".
Na ocasião, a engenheira ambiental realizou teste de bafômetro, que deu negativo para a ingestão de álcool. Vídeos feitos logo após a colisão mostram o carro dela estacionado, com a moto presa embaixo do para-choque dianteiro.
A motorista foi detida pela PM e encaminhada à Delegacia Regional de Guarapari. Em nota, a Polícia Civil informou, na ocasião, que ela foi autuada em flagrante por homicídio e um tentativa de homicídio, ambos por motivo fútil, e sem direito a fiança, tendo sido encaminhada ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Guarapari, de onde foi transferida para o presídio em Cariacica. À ocasião, o delegado Vitor Alano disse à TV Gazeta que Karen não quis falar nada em depoimento e demonstrou frieza, não aparentando arrependimento.
Ainda no dia do crime, dezenas de motociclistas se reuniram em frente à Delegacia Regional de Guarapari, onde fizeram um protesto contra a ação da motorista.
Webster estava na direção da moto na hora do acidente, mas constava no boletim de ocorrência da PM que ele não tinha Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para conduzir esse tipo de veículo.
Nesse caso de agosto de 2021, o advogado Lucas Francisco Neto é assistente de acusação, ou seja, atua em defesa dos interesses das vítimas e de suas famílias. Coincidentemente, o jurista também atua no caso registrado nesta semana, da morte do motoboy, mas atuando na defesa do empresário Ronny Almeida Baptista, suspeito de ter matado o Dyogenes nesta terça-feira (12). Em lados opostos nas duas situações, ele explica que as ocorrências são muito diferentes.
"O caso dela (Karen) é bem diferente. Ela cometeu o crime na discussão de trânsito, tendo perseguido as vítimas e atropelado. A situação atual não foi uma mera briga de trânsito"
O advogado também disse que, em relação ao processo envolvendo a Karen, há uma audiência de Instrução marcada para a próxima quarta-feira (20), quando serão ouvidas a acusada e testemunhas de defesa e de acusação. Até o momento, no entanto, ainda não foi decidido se o caso será ou não levado a júri popular. Atualmente, a engenheira ambiental está presa preventivamente.
A reportagem de A Gazeta tenta contato com familiares de Webster e Franciane. Assim que houver retorno, este texto será atualizado.
O QUE DIZ A DEFESA DA MOTORISTA
À reportagem de A Gazeta, a defesa de Karen Ferreira, representada pelo advogado Washington Luiz Gonçalves, afirmou que o crime de "homicídio qualificado", pelo qual a ré responde, vai muito além do que teria realmente acontecido no caso. "Foi uma medida draconiana, ultrapassou muito a realidade. Inclusive, foi veiculado um vídeo que mostra apenas partes do acidente, no qual houve imprudência de ambas partes. E o processo não é lugar para vingança, mas para a justiça. Vamos buscar a desclassificação desse crime, que deveria ter sido interpretado como homicídio culposo, quando não há intenção de matar", disse.
Questionado sobre a afirmação que teria sido feita pela própria Karen, de ter cometido o crime de forma intencional, o advogado diz que isso nunca aconteceu. "Houve, sim, morte. Mas se condenada for, seria por homicídio culposo no trânsito. Ela não falou, em momento algum, que foi de propósito, foram outras pessoas que disseram isso dela, no entanto, não houve chance à defesa. Ela estava em choque, desesperada em uma sala, com um número absurdo de pessoas de fora e dentro da delegacia. Em nenhum momento foi ouvida na delegacia", alegou.
EMPRESÁRIO MATOU MOTOBOY
Dyogenes Souza, de 25 anos, foi baleado no meio da Avenida Antônio Guimarães, entre os bairros Itapebussu e Muquiçaba, em Guarapari. Imagens registradas por câmera de segurança mostram o empresário Ronny Almeida Baptista, de 30 anos, saindo de um veículo e disparando várias vezes contra o jovem, que fica caída ao chão (veja abaixo o vídeo). O caso aconteceu à luz do dia, por volta das 16h40 de terça-feira (12).
Segundo apuração do repórter Caíque Verli, da TV Gazeta, o homicídio aconteceu em frente a um bar da região. Nas imagens, uma moto aparece estacionada no meio da rua e a vítima — ainda com o capacete na cabeça — parece discutir com o homem que está dentro de um carro branco, modelo sedã. O condutor do carro, então, sai do veículo e passa a atirar contra o homem. Em seguida, ele volta para o automóvel e foge, deixando a vítima caída no meio da rua.
Ronny Almeida Baptista se entregou à polícia na tarde desta quarta-feira (13). Ele chegou à delegacia do município acompanhado por dois advogados e prestou depoimento durante a tarde. O empresário está detido em uma cela da unidade policial, de onde será transferido à penitenciária. Na tarde desta quarta-feira, foi decretada a prisão temporária dele.
Na versão da defesa, feita pelo advogado Lucas Neto, Ronny vinha recebendo graves ameaças há cerca de um mês e meio atrás. Apesar disso, a versão sobre ameaças anteriores sofridas pelo empresário ainda é investigada pela polícia. À frente da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Guarapari, o delegado Franco Malini revelou que a arma usada no crime é irregular e teria sido comprada há cerca de 20 dias no mercado clandestino — o que reforçou a necessidade da prisão temporária do suspeito. "Ele detalhou que, na hora do crime, a vítima o teria ameaçado de morte, mas isso é o que ele alega. Nós ainda vamos ouvir as testemunhas para apurar o que realmente aconteceu", disse.