Por anos, a comerciante Luciana Aparecida Vieira Trancoso conviveu com o medo dentro de casa, de denunciar e, mais recentemente, medo de morrer. Após 31 anos de casamento, ela decidiu colocar fim ao relacionamento e denunciar o ex-marido, Walmir Balestrero, dono de uma pizzaria no bairro Tabuazeiro, em Vitória. Preso desde maio deste ano por perseguir a ex-esposa, ele também já havia sido detido em agosto do ano passado após agredir a própria filha dentro do estabelecimento da família.
Pela primeira vez, mãe e filha falaram sobre o assunto em entrevista ao apresentador do Bom Dia ES, Aurélio de Freitas, da TV Gazeta. Luciana contou que decidiu romper o silêncio para encorajar outras mulheres.
“Foram muitos anos de medo, de dúvida. Hoje não tenho mais dúvida, mais medo. Eu falando, dou força para muitas mulheres que estão passando pelo mesmo que eu. De muitos anos de angústia, de querer sair, de querer tentar uma nova vida e não conseguir. Hoje tenho força para falar: 'eu quero uma nova vida. Não quero mais viver isso. E quero seguir em paz'”, disse.
Segundo Luciana, mesmo após a separação e a divisão dos bens, o ex-marido não aceitou o fim do relacionamento. Ela afirma que passou a ser perseguida pelo empresário.
Em maio deste ano, ele foi preso em Maruípe, na Capital. No dia do fato, Walmir teria visto a ex entrando no veículo, uma caminhonete, entrou em outro carro e começou a persegui-la no trânsito. A Polícia Militar foi acionada e o comerciante acabou detido.
A policiais militares que atenderam ocorrência, Walmir afirmou que não estava perseguindo a ex, que só estava seguindo para um atacado, com objetivo de fazer compras para o estabelecimento dele, e que só queria reaver seu veículo, que alegou estar em processo judicial.
“O fato dele me cercar, como ele me cercou na rua, eu não imaginava que ele faria. Depois da última audiência que tivemos, achei que a ficha para ele teria caído, que realmente tinha chegado ao fim do relacionamento, que não queria mais e que cada um seguisse seu caminho. Mas, diante disso, eu vi que ele é capaz de tudo. Hoje tenho medo de quando ele sair”, afirmou.
Enquanto tenta oficializar o divórcio e reconstruir a própria vida, Luciana diz carregar a sensação de ter visto tudo o que construiu ser destruído.
Filha também denunciou agressões
A filha do casal, Júlia Vieira Balestrero, também decidiu falar. Ela contou que denunciou o pai ainda na adolescência.
“Quando tinha 16 anos, fiz boletim de ocorrência por agressão e não tinha dado em nada. Acabei voltando a me relacionar com ele, trabalhar juntos. Ninguém acreditava”, relatou.
Em agosto do ano passado, ela voltou a ser agredida por Walmir. Uma câmera de segurança (veja acima) flagrou o crime. A vítima contou que a briga com o pai começou após uma desavença entre ela (que trabalha como caixa) e um dos motoboys da pizzaria. Segundo a jovem, o entregador teria costume de destratá-la, motivo pelo qual ela disse que não daria mais encomendas para ele — o que irritou o pai.
Após as agressões, Júlia saiu de casa. A decisão foi determinante para que Luciana também encerrasse o casamento e procurasse a polícia.
Descumprimento de medida protetiva
Luciana conseguiu uma medida protetiva, mas afirma que as perseguições continuaram. Segundo ela, o ex-marido a seguia pelas ruas, monitorava seus passos e até contratava terceiros para observá-la.
Você faz uma denúncia e parece que aquilo fica parado naquele papel. Um descumprimento, dois descumprimentos e nada era feito. Ele continuava impune e continuava fazendo a mesma coisa. Me seguindo, colocando motoboy para me seguir, rastreador no carro
Luciana Aparecida Vieira Trancoso Comerciante
Ela acrescentou que deseja apenas viver em paz. “Quero viver a minha vida em paz e que ele siga a vida dele como ele escolheu.”
Os relatos de Luciana e Júlia refletem uma realidade enfrentada por centenas de mulheres no Espírito Santo. Apenas nos quatro primeiros meses de 2026, foram registrados 1.346 descumprimentos de medidas protetivas no Estado, uma média de quase nove casos por dia.
Apesar do trauma, mãe e filha afirmam que hoje encontram força uma na outra.
“Ela é meu suporte. Nós duas juntas e unidas, está ótimo. É uma paz que a gente nunca teve na vida, então a família somos nós”, disse Júlia.
A reportagem tenta contato com a defesa de Walmir Balestrero e o espaço segue aberto para manifestações.
* Com informações do apresentador Aurélio de Freitas, da TV Gazeta.