Uma realidade desconhecida por parte da população. Drogas vendidas e consumidas livremente - inclusive por crianças -, armamento pesado exposto no meio da rua, som no volume máximo até de manhã, músicas que não tocam nas rádios e retratam o mundo do crime com grande apelo sexual. Essas são características dos bailes funks clandestinos, conhecidos como Mandela, que são realizados na Grande Vitória e em algumas cidades do interior do Estado.
Até fevereiro deste ano, cerca de 50 festas desse tipo aconteciam a cada final de semana. Hoje, estima-se que o número seja menor, porque a fiscalização aumentou após o tiroteio que deixou dois mortos e mais de 10 pessoas feridas no mês de janeiro em um baile no bairro Primeiro de Maio, em Vila Velha.
Apesar da repressão, os realizadores usam as redes sociais para organizar os bailes, frequentados por pessoas das próprias comunidades e de bairros nobres, que vão para as festas em busca de drogas ou apenas de pura curtição, o que não é exclusividade de eventos de funk.
Os bailes são aprovados por quem mora perto e ganha dinheiro vendendo bebidas e alimentos nas barraquinhas. Por outro lado, os moradores que precisam trabalhar no outro dia ou simplesmente querem dormir, vivem um verdadeiro tormento.
O QUE É UM MANDELA
Quem está longe dessa situação, de maneira geral, associa os bailes do Mandela como baile funk que tem confusão, feitos em qualquer local: rua, sítio, terraço, galpão.
Mas a verdade é que cada baile tem o seu próprio nome e, geralmente, tem ligação com o local do evento ou com a facção que domina o tráfico. Por exemplo, no Bairro da Penha, em Vitória, o baile do Trem Bala é uma referência clara à facção criminosa que comanda a venda de drogas na região. A festa acontece em um terraço e reúne mais de 800 pessoas por noite.
Outro detalhe: muitos não gostam (detestam) de ter o seu baile chamado de Mandela. “No Twitter, os caras falam que esse nome está ultrapassado, é feio”, diz um frequentador, que não será identificado por motivo de segurança.
REGRAS
Alguns bailes têm regras próprias e os organizadores querem distância de confusão. Assim, eles evitam a presença da polícia, podem vender droga e se divertir sem interrupções. O Entupidão do Cobi (CDB), no bairro Cobi de Baixo, em Vila Velha, informa aos frequentadores a "etiqueta", com o que pode ser feito ou não no local. Em um podcast na internet, é possível ouvir a mensagem abaixo:
Ouça a mensagem
"É proibido tirar foto. É proibido gravar vídeo. Vamos respeitar a mulherada, cafanha (quem dá em cima da mulher dos outros) aqui não tem vez. Se achar algum objeto ou documento é só trazer aqui para estar sendo devolvido..."
"... Quando o pessoal estiver indo embora, sair no sapatinho. Tá ligado? Sem quebrar nada, porque senão o baile fica queimado. O pessoal vai lá e fica quebrando o Terminal de São Torquato, depois passa no noticiário que o pessoal que veio do baile sai do baile para quebrar o terminal. Isso não pode. Vamos respeitar a comunidade e vamo que vamo."
Ainda em uma rede social, o baile do CDB dá outro aviso (veja na foto).
O mesmo acontece em outras comunidades. “No Trem Bala, uma vez, um homem levantou o celular. Do palco, o cara parou o som e pediu o celular, colocou no bolso dele e falou para pegar com ele no final do baile. Eles não gostam de celular porque tem os caras armados”, conta um funkeiro.
No entanto, em alguns bailes, o celular é permitido e as pessoas ligam a lanterna do aparelho durante a festa, como é possível ver no vídeo abaixo, com imagens do baile do MDG, em Mucuri, Cariacica.
HOMENAGEM AOS ATLETAS DO FLAMENGO
DIVERSÃO PARA TRAFICANTES
A reportagem do Gazeta Online ouviu várias pessoas que têm ligação com os bailes. Elas não serão identificadas por questões de segurança. Uma delas explicou que essa festa é o lugar que traficante tem a liberdade de se divertir.
Para a fonte, os criminosos não querem ficar milionários. “Só querem aquilo ali. Gastar o dinheiro deles, ter as 'patricinhas' da Praia do Canto pra eles ostentar. Muitas dessas patricinhas ficam com esses caras. Pra elas, é tirar onda. A vida deles é essa. Ostentar o cordão de ouro. E isso influencia outros garotos, que também não querem trabalhar”.
JOVENS DE BAIRROS NOBRES
O ritmo animado do funk conquista moradores de bairros nobres da Grande Vitória. Parte deles vai para dançar, beber e curtir com os amigos, mas outra parcela vai em busca de droga.
“Vem gente da Praia da Canto. Hoje virou moda falar que é favelado. As meninas vão pra lá, porque é tudo liberado. Rola muita bebida, muita droga e músicas que você só ouve lá. Eles lançam no podcast (conteúdo em áudio disponibilizado em plataformas na web). Compartilham por um site e WhatsApp. Cara, bate 150 mil de visualizações em um podcast”, conta um frequentador, que completa: “O pessoal de fora é bem-vindo, mas tem que respeitar as meninas”.
DEPOIMENTO
O VERDADEIRO BAILE DO MANDELA
Como em outros momentos da história dos capixabas, a inspiração para o baile do Mandela veio do Rio de Janeiro. Em entrevista ao Gazeta Online, a antropóloga e professora do Museu Nacional/UFRJ, Adriana Facina, que estuda funk há 11 anos, explica como é esse baile na cidade carioca.
"Vários funks falam dele e muitas músicas são lançadas nele. É um baile que vem gente da cidade toda, as pessoas inventam novas danças e acaba de manhã. É um evento bem grande dentro de Manguinhos", completa Adriana.
Mandela vem de Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul. “O nome de Nelson Mandela foi dado aos conjuntos habitacionais da região. Em torno desses conjuntos, cresceu a favela”, diz Adriana.
Para a pesquisadora, os bailes funks são locais de lazer e criação cultural. “A forma do baile é original e só existe no Brasil. Começou no Rio e se espalhou para outros lugares. É um grande evento cultural, sobretudo, para a juventude de periferia, de favela, juventude negra do Rio de Janeiro”.
Um DJ ouvido pelo Gazeta Online disse que, atualmente, o baile do Mandela não está acontecendo no Rio.
INÍCIO DO MANDELA NO ES
A história do funk no Espírito Santo passa pelos bailes tradicionais de comunidade, realizados em clubes ou associações, como o Náutico Brasil, em Santo Antônio, na Capital. Mas, em determinado momento, esses bailes foram acabando e a cultura funk desceu do morro para bairros nobres, ficando caro para o morador da comunidade frequentar.
“A molecada começou a fazer o próprio baile, levando a própria bebida. Isso foi em 2012 para 2013. Nem todo baile do Mandela é droga, tem molecada que faz só pra divertir mesmo. Mas, infelizmente, a maioria tem traficante infiltrado, a galera que quer maldade”, relata um funkeiro antigo.
De acordo com ele, a vantagem do Mandela é não ter briga. “Os caras vão para curtir e não tem briga, diferente do Náutico Brasil, onde tinha o baile do corredor. Mas, infelizmente, tem o consumo de droga, que é muito grande”.
Em terras capixabas, o baile do Mandela começou no Alagoano, em Vitória. "O nome pegou tanto no Rio que a galera daqui, como gosta de copiar o Rio de Janeiro, decidiu fazer um".
"Nem onde começou eles chamam de Mandela. No baile do Alagoano eles chamam de baile do 182, em referência à linha de ônibus", diz. Por conta da guerra do tráfico no Alagoano, o "baile do 182 praticamente acabou", afirma a fonte.
LEGALIZAÇÃO
Segundo o funkeiro, é muito difícil conseguir legalizar um baile funk. “A galera acha que vai sair porradaria. Aí o MC de lá (Alagoano) explodiu e começaram a surgir outros bailes. Agora tem mais de 50 bailes e não tem como legalizar. Não tem como fazer um baile de meia-noite às 6h da manhã legalizado. Vamos continuar fazendo, a hora que der problema vão parar isso aí e ir para outro lugar”.
A reportagem teve acesso à divulgação de um dos maiores bailes funks do Estado, o baile do MDG, que é do Morro dos Gamas, em Cariacica. Ele é realizado em um sítio e chega a reunir duas mil pessoas. No flyer, onde tem um aviso proibindo postar no Facebook, mostra as fotos dos Djs e Mcs e o valor da entrada: um quilo de alimento para mulher e R$ 20 para homem.
A entrada é cobrada quando o evento é muito grande e tem atração de fora. Na internet, os frequentadores e a própria organização publicam imagens da festa, inclusive com as doações de alimentos (veja na foto acima).
MÚSICA
A música é feita pelos DJs de comunidade. “Um vai compartilhando o trabalho do outro, aí vai dando visualizações. 95% das músicas são proibidão e putaria pesada. Não tem sexo explícito na rua. Tem as danças que são bem sugestivas. Os caras não deixam ter sexo na rua”, diz a fonte.
Nos bailes maiores, Djs e Mcs de fora do Estado, com milhões de seguidores nas redes sociais, também participam da festa.
Ouça trecho de música editada
COMO FUNCIONA
"É um cara botando o som. Quem contrata o som é a galera da barraquinha e o tráfico também entra ganhando o dinheiro dele. A maioria é morador que está desempregado e vai trabalhar pra ganhar um dinheiro, só que o tráfico vai se infiltrando", afirma um morador de Vitória.
COMUNIDADE
“É diversão perto de casa, mais barata. O bom é que você pode levar a sua bebida ou comprar na barraquinha. Só acontece violência quando a polícia chega. Ou então quando entra um traficante de fora. A preferência é rua sem saída, para o carro não atrapalhar”, conta um participante.
Um dos problemas para quem mora perto e não participa da festa é o som. "É um barulho infernal até 7h, 8h da manhã”.
CRIANÇAS
Uma jovem de Vila Velha se espantou com o uso de drogas por menores de idade. “Menino de 10 anos com cigarro de maconha na mão, lança-perfume, cheirando. Fiquei abismada. Tenho filho. Onde estão os pais dessas crianças? Sem condição".
Outro frequentador alerta para o avanço do uso de armas pelos traficantes: “A polícia não tá fazendo nada. É muita arma. Nesses bailes maiores, o tráfico financia”. Veja o que a polícia diz sobre essas festas.
FESTA DIVIDE OPINIÕES
Os bailes funks clandestinos em bairros de periferia na Grande Vitória dividem a opinião dos moradores. Uns gostam, outros detestam. Uma moradora do bairro São Conrado, em Cariacica, que prefere não se identificar, reclama do barulho. "Final de semana rola uma festa funk no bairro onde moro, todas as vezes solicito a viatura e nenhuma das vezes fui atendida. Sempre liguei para o 190 e para o Disque-Silêncio e nunca foi encaminhada uma viatura. É música alta, com palavras inapropriadas, drogas e gente armada".
Segundo a mulher, o grupo começa a se reunir na parte da tarde na rua. Depois, as pessoas entram em um galpão, onde a festa acontece à noite.
Moradores de Vila Velha também já entraram em contato com o Gazeta Online para reclamar do barulho. Uma dessas pessoas disse que a mãe é uma idosa e não consegue dormir com o som alto do baile que acontece perto de Ataíde, no mesmo município.
"É A NOVELA DA BIBI"
Moradora de Vitória, uma mulher de 37 anos relatou a experiência que teve em um desses bailes. Veja o depoimento abaixo.
"Eu e minha amiga estávamos em uma festa em Vitória. Lá encontramos uma conhecida com o namorado dela. Em determinado momento da noite, ele nos convidou para ir em uma festa para os lados de Tabuazeiro.
A gente imaginava que seria em um clube. A gente quis pedir um carro no aplicativo, mas ele preferiu chamar um taxista amigo dele.
Chegando no local, passou do lugar que eu imaginei que fosse. Comecei a desconfiar que a gente estava indo em uma festa de morro e a gente nunca tinha ido em baile funk.
Quando fomos subindo a ladeira, comentei com a minha amiga que eles estavam levando a gente pra morro. Falei com a minha amiga no ouvido para ficar calma. 'A gente chega lá, fica de boa um tempo e depois a gente desce'. Chegamos no pé do morro, a recepção era todo mundo armado até os dentes.
Eu falei com a minha amiga 'não olha para cima agora', porque ela é traumatizada com tiro. Acalmei ela e fomos. Passamos por um beco, que era na entrada da subida da escada. Esses caras armados. Chamei a pessoa que me convidou e expliquei que a gente nunca tinha ido em lugar assim.
Passamos por um corredor que tinham várias adolescentes, acho que a mais velha era eu. A gente tava muito patricinha, com sandália alta, cílios postiços. Quando chegamos, a festa era em um terraço que dava vista para Maruípe.
Até então eu não sabia o nome do morro. Subimos para essa festa. Fiz logo um coque no cabelo para me misturar. Tinha muita arma, as pessoas com ponto, rádio comunicador. Arma tinha demais. Tentamos ficar numa boa.
Fomos ao banheiro para conversar se a gente ia embora ou não. Quando a gente saiu do banheiro, começou a tocar uma música, e eles começaram a levantar as armas. Até então, eu não sabia que ali era baile do Mandela. Aí perguntei para uma pessoa ao lado onde nós estávamos. Ela me disse que era o Morro do Macaco.
O pessoal começou a dançar com as armas para cima e minha amiga começou a entrar em pânico. Pedi calma para ela. Falei com o cara que nos levou que ela não estava bem. O dono da boca era uma pessoa bem vestida, não estava misturado com aqueles meninos.
Eu pedi pra gente descer. Na hora que a gente tava indo embora, eles pediram desculpa. O namorado da menina nos acompanhou até metade do caminho. Fomos para um lugar movimentado e conseguimos um carro para ir embora.
O cara que nos levou depois foi morto. Foi uma experiência que a gente nunca pensou em passar. Nós moramos em um bairro (periferia) que na 'língua' do povo é perigoso, mas eu nunca vi nada demais. Sempre que acontece alguma coisa é entre eles, quem mexe.
Eu fiquei impressionadíssima. Mas tinha que bancar a forte para dar força a minha amiga. Serviu como experiência para não acompanhar qualquer pessoa simplesmente por conhecer. Eles têm um armamento muito pesado. Era 12, 38, pistola.
Fiquei impressionada demais. É a novela da Bibi, é aquilo lá. Adolescentes, meninas novas. Não sei se os pais sabem que essas meninas frequentam esse tipo de lugar."
ARMAS DE GUERRA
Após a apreensão de fuzis, que podem perfurar carros blindados e são usados em guerras, no Morro do Macaco, em Vitória, a reportagem consultou fontes que foram a bailes clandestinos, inclusive nessa comunidade, para saber se já viram armas desse tipo nas festas. Duas delas já viram fuzis em bailes, mas não souberam precisar se são do mesmo tipo. Disseram ser parecidas com o fuzil 762 WASR-10 (ak-47). Já a arma maior, o fuzil 762 JT-10 (ar-10), nenhuma fonte viu nada parecido.
DIVULGAÇÃO DE BAILES NO ÚLTIMO FINAL DE SEMANA
GLOSSÁRIO DO CRIME
Ao ouvir os funks proibidões, algumas palavras são recorrentes. Veja o significado delas.
Meiota - arma
AK-47 - arma
Glock - arma
Cintura grossa – com pistola na cintura
Embrazado - drogado
Beat Fino – nome da batida que faz sucesso nas comunidades de Vitória
Brota – chega aê
Cria – da comunidade
Maria Fuzil – meninas que gostam de segurar fuzil
Base - casa
157 - ladrão
Braba/brava - boa
DETALHES DA DIVULGAÇÃO
Na imagem abaixo compartilhada no Twitter, os organizadores informam que é proibido a entrada de armas e bebidas, além de postar no Facebook.