O desvio de fentanil de unidades hospitalares no Espírito Santo deixou a Polícia Civil em estado de alerta diante do risco de uso pelo narcotráfico. Em países da América do Norte, por exemplo, o uso indevido da substância causou uma espécie de epidemia de overdoses nos últimos anos.
Embora, no Brasil, a utilização do anestésico esteja restrita a hospitais e outros estabelecimentos de saúde, o medicamento acabou chegando às mãos de traficantes por meio de furtos supostamente cometidos por uma técnica de enfermagem de 31 anos, presa em Cariacica no dia 20 de julho. A Polícia Civil investiga de quais unidades de saúde os produtos foram retirados e se outras pessoas participaram do esquema.
Dois homens apontados como envolvidos na distribuição dos medicamentos também foram presos. Um deles, que seria o intermediário do esquema, foi detido em novembro do ano passado. O outro foi preso na semana passada, em Vila Velha. Além do fentanil, a investigação envolve outros medicamentos como cetamina, morfina e adrenalina.
Conforme destaca Valdir Campos, especialista em dependência química e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), tanto o fentanil quanto a morfina são medicamentos da classe de opioides, utilizados para aliviar dores extremas.
O fentanil, particularmente, costuma ser utilizado em anestesias, no entanto, seu consumo ilícito vem se popularizando. O medicamento chega a ser 100 vezes mais potente do que a morfina e 50 vezes mais potente que a heroína. Poucos miligramas da substância já são suficientes para provocar a morte por overdose em minutos.
A cetamina também é um anestésico que pode ser utilizado de forma terapêutica, mas seu uso indevido pode levar a quadros de dependência. “É um grande risco, que já está acontecendo lá fora e está chegando aqui aos poucos.”
De acordo com o delegado-geral da PCES, Jordano Bruno, a utilização desses opióides por traficantes preocupa as forças de segurança e da área da saúde.
“No ano passado e também neste ano, recebemos visitas de autoridades norte-americanas justamente para alertar sobre o efeito catastrófico que essa substância causa à saúde. Por isso, esse tipo de situação é tratado pelo Denarc com prioridade. Nosso objetivo é impedir que o Espírito Santo enfrente o mesmo cenário observado em outros países em relação ao fentanil.”
O chefe do Departamento Especializado em Narcóticos (Denarc), delegado Ricardo Almeida, pontua que, de modo geral, os traficantes se aproveitam da potência do medicamento para misturá-lo a outras drogas, aumentando seus efeitos.
“Eles facilitam a dependência dos usuários. Com isso, conseguem ampliar o lucro obtido com o tráfico, que é o objetivo final dessa atividade criminosa. E a mistura do fentanil com a cocaína pode levar facilmente o usuário a uma overdose. Por isso, estamos monitorando, investigando e atuando para impedir a circulação dessa substância.”
Para que servem os medicamentos desviados de hospital
O fentanil é um medicamento potente, utilizado em anestesias. No entanto, recentemente, passou a ser consumido de forma ilícita. Por ser 100 vezes mais forte do que a morfina, apenas 2mg da substância já são capazes de provocar a morte por overdose em poucos minutos.
A cetamina também é utilizada como anestésico em procedimentos cirúrgicos ou com fins diagnósticos em humanos e animais, geralmente associada a outros fármacos. Se utilizada fora do ambiente hospitalar e sem supervisão médica, pode causar depressão respiratória e até matar.
Já a morfina é um analgésico opióide, formalmente indicado para o controle de dores intensas e incapacitantes, seja em ambiente hospitalar ou em tratamentos crônicos ou paliativos. O uso em excesso pode causar tontura, confusão mental e dependência, entre outros riscos.
Fonte: Médico Drauzio Varella