A expressão "escama de peixe" é usada pelo tráfico de drogas para identificar uma cocaína de alta pureza, considerada mais valiosa por traficantes e comercializada como uma espécie de versão "premium" do entorpecente. Após ser prensada, ela costuma apresentar aspecto mais brilhante ou cristalino, o que deu origem ao apelido.
Apesar da fama, especialistas alertam que não existe uma composição padronizada para esse tipo de cocaína. A concentração da droga pode variar conforme a produção e, em muitos casos, o produto vendido com esse nome não corresponde à pureza anunciada.
Segundo Valdir Campos, especialista em dependência química e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), quando realmente apresenta elevado teor de cocaína, a substância provoca efeitos mais intensos e aumenta significativamente o risco de overdose, infarto, acidente vascular cerebral (AVC), arritmias cardíacas, convulsões e dependência.
“A pureza dela, geralmente, é algo em torno de 80%. Então tem um certo apelo do narcotráfico, que trata como um produto ‘premium’. E, por ser mais pura, com menos adulterantes, os efeitos como euforia, excitação e estado de alerta são mais intensos", destacou.
Uma única grama pode ser fatal
Campos observa que essa marca informal de qualidade, que permite aos traficantes cobrar mais caro pelo entorpecente, nem sempre corresponde ao produto que chega ao usuário.
Segundo o especialista, uma única grama da substância pode ser fatal. Mesmo quando não provoca a morte, ela aumenta significativamente o risco de overdose, infarto, acidente vascular cerebral (AVC), arritmias cardíacas, convulsões e dependência, além de favorecer quadros de paranoia e ansiedade.
Quando um usuário diz que cheirou tantos pinos de cocaína, sabemos que é misturada. Se fosse pura, não estaria nem vivo
Valdir Campos | Especialista da Ufes
Perito oficial criminal do Laboratório de Química Forense da Polícia Científica do Espírito Santo (PCIES), César Netto pondera que o que chega ao usuário, na grande maioria das vezes, já é uma versão diluída com substâncias como anestésicos, cafeína e até bicarbonato de sódio. Isso confirma que a pureza anunciada pelo tráfico nem sempre corresponde à realidade.
Análises laboratoriais de drogas apreendidas mostram, inclusive, que produtos vendidos sob o mesmo nome podem ter composições bastante diferentes.
Ela é famosa por ser mais pura, mas não quer dizer que toda 'escama de peixe' é assim. Estão sempre inventando novas formulações químicas
César Netto | Perito da PCIES
O perito ressalta que apreensões desse tipo de cocaína não são frequentes. Na avaliação dele, isso ocorre justamente porque, por ser mais concentrada, a droga costuma ser misturada a outras substâncias antes de chegar ao usuário, aumentando o rendimento e o lucro do tráfico.
"Essa concentração faz com que ela apresente um volume menor e seja muito mais fácil de transportar para, depois, o tráfico diluir com o que for necessário para distribuir. Acredito que essa facilidade seja um ponto interessante para eles", avaliou.
Apesar da fama de "cocaína premium", especialistas alertam que a chamada "escama de peixe" não tem composição padronizada. Enquanto o tráfico usa a suposta alta pureza para valorizar o produto, o usuário não tem como saber exatamente o que está comprando. E, quando a concentração de cocaína é elevada, os riscos de overdose e morte aumentam significativamente.