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Imagem com armas e o número 182, que faz referência ao Morro do Alagoano
Imagem com armas e o número 182, que faz referência ao Morro do Alagoano. Crédito: Gazeta Online

A guerra do tráfico nos morros de Vitória

Desde o último fim de semana, moradores do Morro do Alagoano têm o sono interrompido por tiroteios. Por trás da cena de violência há uma trama de vingança pessoal, disputa por poder e expansão do tráfico

Publicado em 16/08/2018 às 09h35
Atualizado em 20/02/2020 às 17h48

A disputa pelo tráfico nos morros de Vitória atingiu agora os moradores do Morro do Alagoano e de Caratoíra, que há cinco dias sofrem com trocas de tiros. Um conflito em que até os policiais foram desafiados em uma emboscada feita por traficantes no último final de semana. Por trás da guerra está o interesse em uma área estratégica, com boa visibilidade, acessos complicados e onde a polícia só sobe nos momentos de conflito, segundo relato de quem vive na região.

Os dois bairros são alvos do interesse de expansão dos negócios do tráfico, principalmente em Vitória, como explica Sérgio Alves, o promotor do Ministério Público do Estado que coordena a Central de Inquéritos da Grande Vitória e do Grupo de Trabalho Especial em Execução Penal. 

Sérgio Alves, promotor do MP

Cargo do Autor

"s traficantes estão em busca de novos espaços para atuar e de esconderijos para ocultar armas e droga"

Uma expansão que já não se restringe somente aos bairros da Grande Vitória, como relata o promotor, mas que já ganha contornos estaduais, com atuações migrando para outras cidades, como Linhares e Guarapari. Para isso, criminosos não medem esforços em mostrar seu poderio com ameaças e armas exibidas até nas redes sociais, anunciando sua chegada ou retomada de pontos perdidos.

No caso do Alagoano e de Caratoíra, a principal disputa parte das lideranças do Complexo da Penha (conjunto de bairros no entorno do Bairro da Penha). Eles também gerenciam o PCV (Primeiro Comando de Vitória), cuja gestão dos “negócios” está nas mãos de Fernando Moraes Pereira Pimenta, o Marujo. Por estar solto (em liberdade), cabe a ele executar as ordens que vem do Presídio de Segurança Máxima II, onde está detida a principal liderança de sua organização criminosa: Carlos Alberto Furtado da Silva, o Beto.

Os dois contam ainda com o apoio de outras lideranças que comandam o tráfico na Grande Vitória e que fazem parte do Conselho do PCV, como Frajola, de Terra Vermelha, Marcelinho, de Viana e Moderninho, de Alagoano e Piedade.

São os mesmos que também atuaram fortemente na disputa pela Piedade, dando apoio aos traficantes do Morro da Fonte Grande. Uma briga que acabou resultando, só este ano, na morte de quatro pessoas, inclusive de dois irmãos.

Beto e seus comparsas são ainda o braço na Grande Vitória do PCC (Primeiro Comando da Capital), uma das maiores organizações criminosas do Brasil, responsável por rebeliões, assaltos, sequestros, assassinatos e narcotráfico.

Além do interesse estratégico pelo Alagoano/Caratoíra para a expansão dos negócios, Beto e seus comparsas querem ainda vingar a morte de um amigo, morto sem autorização da facção. Trata-se de Antonio Campelo Sodré, o Tucano, traficante assassinado no mês passado em um ponto de ônibus em Viana. Ele era ligado ao PCV, e liderava o tráfico de Alagoano e tinha substituído outro comandante do tráfico local, o Gu, também assassinado.

Ocorre que Gu, antes de morrer, expulsou do Alagoano vários pequenos traficantes, que formaram um grupo de rejeitados. Eles se uniram ao traficantes vizinhos dos morros do Cabral, do Quadro e de Bela Vista. Juntos querem agora retomar comandar o tráfico de Alagono/Caratoíra, que está sem chefia.

Os rejeitados teriam ainda abraçado o desejo de vingança de um pequeno traficante local, João, morador de Caratoíra, que teve a família assassinada durante a greve dos policiais, em fevereiro de 2017, enquanto estava na prisão. Solto há algumas semanas, ele se uniu ao grupo que também vem prometendo uma limpeza geral, com a expulsão dos atuais traficantes.

Há uma suspeita até de que os rejeitados estejam por trás do assassinato de Tucano, o que estaria provocando ainda mais a raiva do grupo de Beto.

Para piorar a situação, Antonio Campelo, que teve várias passagens por presídios federais, era ainda o responsável por guardar a parte do dinheiro da organização criminosa destinada ao PCC. Valores que estavam com ele no dia em que foi assassinado e que acabaram desaparecendo. O sumiço gerou outro motivo de conflito entre os traficantes do Complexo da Penha e os rejeitados. Para o promotor Sérgio Alves, isto pode acabar gerando uma tensão maior.

A Polícia Militar diz que reforçou o policiamento na região, algo que é negado pelos moradores, cujo dia a dia foi alterado drasticamente. Projetos sociais estão com atividades suspensas, ônibus não estavam subindo até o ponto final e até as escolas públicas estão liberando as crianças mais cedo, embora a prefeitura negue. O clima é de medo.


“QUERO PAZ PARA DORMIR. SÓ ISSO”, DIZ MORADORA

“Quero paz para dormir. Só isso.” O pedido é de uma dona de casa, de 38 anos, moradora do Morro do Alagoano há 11 anos. Nas últimas cinco noites o barulho de tiros e o medo têm tirado o sono dela e de grande parte da vizinhança.

A disputa pelo domínio de bocas de fumo e, consequentemente, do poder sobre a comunidade tem deixado a população bem no meio do fogo cruzado dos tiroteios.

Moradores e Polícia Militar confirmam os confrontos armados, tanto entre facções rivais quanto entre criminosos e militares, que tiveram início na noite de sexta-feira.

Até uma emboscada foi armada contra policiais, que passaram a atuar em maior número no sábado. “No primeiro disparo o coração acelera, os olhos ficam arregalados e a adrenalina vai a mil. Nesse momento, sinto que a comunidade está em pânico total. Os moradores não sabem de onde vem tantos tiros e tanta gritaria. A vida em periferia não é fácil, não entendemos porque disso tudo, mas estamos no meio desse furacão”, descreve um morador em uma rede social.

As trocas de tiros trazem aflição e tiram o direito de ir e vir de quem mora na região. 

Uma babá, de 32 anos

Cargo do Autor

"ntem, duas igrejas encerraram os cultos mais cedo para que todos os fiéis estivessem em casa até 20 horas. Eu nem fui à igreja que frequento, pois tenho medo de ser atingida por bala perdid"

Na terça-feira, as igrejas sequer abriram e as linhas de ônibus municipais deixaram de circular no bairro. Pais e responsáveis por alunos do Centro Municipal de Educação Infantil (Cmei) Sinclair Phillips tiveram que tirar os filhos da escolinha, localizada ao lado do Beco Servidão Vitória Sant’ana, às pressas.

“Hoje (quarta-feira), só abriu porque a guarda municipal ficou na porta da creche no horário de entrada e saída dos alunos”, contou uma auxiliar de serviços gerais, de 42 anos.

EMBOSCADA

O tiroteio mais recente pelas ruas e becos do Morro do Alagoano aconteceu na madrugada de terça-feira. Um grupo composto por seis militares foi verificar a informação repassada ao Ciodes de que havia uma pessoa baleada na Escadaria Fama, no Alagoano, quando se depararam com sete bandidos com roupas pretas, coletes e exibindo armas, no alto da escadaria.

O bando criminoso atirou contra os PMs, que revidaram os disparos e fizeram a gangue recuar. Os policiais pediram reforço de efetivo via rádio.

Mas, antes mesmo da equipe de apoio chegar, uma quadrilha formada por cerca de 13 criminosos despontou na base da escadaria e abriu fogo contra os militares.

A chegada de novas equipes policiais fez com que o grupo se dividisse e fugisse pelos caminhos estreitos da região. Os PMs fizeram buscas e conseguiram localizar um dos suspeitos ferido. Ele tinha sido atingido por um tiro na perna esquerda. Nenhum PM foi ferido.

O suspeito foi levado por policiais para o Hospital São Lucas e depois conduzido para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), ambos em Vitória.

BANDIDOS OSTENTAM ARMAS NAS REDES SOCIAIS

Se de um lado os cidadãos do Alagoano se escondem dentro de casa com medo dos tiroteios, por outro os bandidos fazem questão de ostentar armas e ameaçar grupos rivais.

O colunista Leonel Ximenes denunciou, na quarta-feira, em A GAZETA, a ousadia dos criminosos que tentam tomar a região. Segundo a coluna, “na última (e apressada) tentativa de tomar o Morro do Alagoano, no sábado de madrugada, traficantes do Bairro da Penha deixaram para trás uma espingarda (escopeta) calibre 12. Os bandidos do Alagoano, irônicos, agradeceram o ‘presente’ dos rivais nas redes sociais”.

Segundo a coluna, há uma espécie de intercâmbio do crime. Traficantes do Bairro da Penha estão dando apoio humano e logístico aos morros que se dispuserem, em troca das armas, a tomar os pontos do tráfico no Alagoano.

Um morador da região, que pediu para não ser identificado, confirmou a participação de traficantes do Bairro da Penha na disputa pelo tráfico. “No sábado, foi um tiroteio intenso durante aproximadamente 10 minutos sem cessar, e as armas eram de diversos calibres”, contou.

Em páginas do Facebook e Instagram, a que o Gazeta Online teve acesso, é possível ver imagens de armas e publicações dizendo que os criminosos vão voltar para casa, o que indica que eles estão fora do morro.

Além disso, há perfis de criminosos que fazem referência ao número 182 na internet. “O número 182 faz menção ao bairro Alagoano, pois existe uma linha de ônibus municipal a qual a numeração é 182 – Alagoano x Bairro da Penha – e os próprios moradores apelidaram”, contou o morador.

PM REFORÇA POLICIAMENTO E PEDE DENÚNCIAS DA POPULAÇÃO

A Polícia Militar intensificou o policiamento no Morro do Alagoano desde ontem. A informação é do comandante do 1º Batalhão, tenente-coronel Geovanio Ribeiro.

“A Polícia Militar está presente e continuará presente. Pedimos que a população denuncie ao 181, que é o disque-denúncia anônimo, repassando informações para identificar esses indivíduos. A PM se organiza para colocar os recursos à disposição mediante com o que nos é informado e com o serviço de inteligência. Ocorrências com confronto e abordagens exigem saturação da área”, disse o comandante.

O tenente-coronel explicou que o relevo de morro é um ponto que faz com que o trabalho dos policiais precise ser diferenciado. “A patrulha nessas áreas elevadas é realizada por policiais a pé, pois não é possível ter acesso com viaturas em muitos pontos, em especial becos e vielas. Por isso, é feita por militares que receberam treinamento específico para trabalhar nessas condições. Tanto que há anos os índices de homicídios na região do Alagoano e adjacências vem caindo e este ano não há registro lá”, enfatizou.

Sobre o motivo dos enfrentamento entre bandidos, o comandante afirmou que só tem o que é dito pela população. “Seria uma competição pelo espaço, mas é a fala da população”, ponderou Geovanio.

Ao ser questionado sobre a polícia ter conhecimento sobre ligações de bandidos com o Primeiro Comando da Capital, ele disse que não tem informações “Nesses ocorrências acreditamos que tenha competição de espaço, conforme diz a população, e que não tem a participação dessas organização criminosas”, disse.

O comandante negou também que tenha acontecido uma emboscada contra os militares na madrugada de terça-feira, mas confirmou a troca de tiros entre os militares e grupos criminosos. Somente este ano, 110 pessoas foram detidas na área pela Polícia Militar e foram realizadas 85 apreensões de drogas.

Por meio de nota, a Prefeitura de Vitória informou que as aulas da creche aconteceram normalmente ontem e na terça-feira e que a Guarda Municipal reforçado o patrulhamento na área.

Sobre a circulação de ônibus, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Espírito Santo (Setpes) também negou qualquer situação de paralisação de coletivos, mas confirma que algumas viagens podem não ter sido concluídas por questão de segurança aos passageiros e profissionais dos coletivos.

ANÁLISE

Inicialmente, é importante destacar que estudos apontam a correlação entre os locais com intensas movimentações de tráfico de drogas ilícitas e os crimes violentos contra a pessoa, em especial, o homicídio.

Quando criminosos de determinada localidade, representando associações criminosas (conhecidas como quadrilhas, bondes e etc.) entram em confrontos armados, geralmente em espaços públicos pela disputa referente ao comando do tráfico, colocam em risco toda a coletividade, fazendo com que qualquer cidadão se torne uma potencial vítima de homicídio.

Ainda, verifica-se que esses criminosos estão fazendo uso de redes sociais enviando recados para grupos rivais e para população, geralmente com algumas finalidades: demonstrar poder de fogo, desafiar as autoridades e, ainda, inibir eventuais denúncias da população.

Thiago Andrade

Mestre em Segurança Pública e Professor universitário

A Gazeta integra o

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