debug-template
Sair
Assine
Sair
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Crime em terminal

'Aqui não é lugar de gay', disse agressor a jovem espancado na Serra

Para a vítima, que conversou com a reportagem após ter alta do hospital, não há dúvidas: o crime foi praticado por homofobia

Elis Carvalho

Repórter de Cotidiano

Publicado em 14 de Fevereiro de 2019 às 21:47

Publicado em

14 fev 2019 às 21:47
"Aqui não é lugar de gay". Essa frase ficará marcada para sempre na memória de um auxiliar de serviços gerais, de 32 anos, após a noite da última terça-feira (12).  Isso porque ele foi brutalmente espancado dentro do banheiro do Terminal de Laranjeiras, na Serra, após voltar de uma visita na casa da irmã. Para a vítima, que conversou com a reportagem após ter alta do hospital, não há dúvidas: O crime foi praticado por homofobia.
O caso foi registrado nesta quinta-feira (14) na Divisão Especializada de Repressão aos Crimes Contra o Patrimônio (DRCCP). O agressor ainda roubou os pertences da vítima e ainda não foi localizado. A vítima não será identificada por questão de segurança.
Momento em que jovem espancado recebe alta e deixa hospital Crédito: Paulo Cordeiro | TV Gazeta
MEDO
Já temendo crimes de assédio e homofobia, o namorado do auxiliar de serviços gerais, um universitário de 19 anos, contou que os dois evitavam entrar em alguns banheiros públicos. O casal, inclusive, conversava constantemente sobre o medo de sofrer homofobia.
Esse é um medo constante de quem é homossexual. Infelizmente a gente sabe que não possui os mesmos direitos de ir e vir. Há casos de gays espancados ou mortos todos os dias simplesmente por serem quem são
Namorado do jovem espancado
No dia do crime, conta o parceiro da vítima, o jovem estava com muita vontade de urinar. "Eu não estava com ele na hora.Ele voltava da casa da irmã, em Jacaraípe, onde foi fazer uma visita após o trabalho. Já era mais de 23 horas, ele não aguentou até em casa e foi no banheiro do Terminal de Laranjeiras, o que não era um costume. Quando ele entrou, estávamos nos falando por mensagem no WhatsApp. O agressor já estava dentro do banheiro. Foi quando meu namorado parou de me responder. Achei estranho porque ele nunca demorava para dar respostas", lembrou.
INTOLERÂNCIA
Jovem agredido e o namorado falam sobre as dificuldades enfrentadas Crédito: Elis Carvalho
Com a cabeça e o rosto muito machucados e a voz fraca, o auxiliar de serviços gerais contou que o agressor já demonstrou intolerância só de olhar para a vítima. "Eu entrei e ele logo perguntou: 'Tá olhando o quê? Eu respondi que não estava olhando nada. Mas ele insistiu. Ele disse que aquilo ali não era lugar de gay. Fiquei com medo. Pedi desculpas mesmo sem ter feito nada e disse que só queria sair dali para ir pra casa. Foi quando ele levantou a camisa insinuando que estava armado e disse que ia me matar. A todo momento ele me xingava, usando termos como 'viadinho' entre os xingamentos", lembra a vítima.
VIOLÊNCIA
A vítima contou que chegou a pedir para o agressor tirar aquela cisma da cabeça, pois só queria urinar e ir pra casa. Nesse momento, ele teria recebido a resposta: "Vou te mostrar a cisma". As agressões tiveram início. "Eu não consegui ver com nitidez e minha memória está prejudicada depois do espancamento. Mas acredito que o criminoso usou a arma para me dar coronhadas porque estou com vários cortes na cabeça. Ele me xingou e me bateu muito. Eu não podia me defender porque ele dizia o tempo todo que estava armado e que iria me matar".
Tentei gritar, mas ele apertou meu pescoço com as duas mãos e me enforcou. Fiquei inconsciente e só lembro de alguns vultos. Só fui acordar de verdade no hospital
A vítima
ROUBO
Além da violência verbal e física, o auxiliar de serviços gerais conta que foi roubado. O agressor fugiu do local levando a carteira da vítima, contendo documentos e uma quantidade em dinheiro, além do celular. 
Crédito: Fernando Madeira - GZ
Ninguém sabe quanto tempo o auxiliar de serviços gerais ficou no banheiro aguardando por socorro, nem quem chamou os seguranças do terminal até o local do crime. Foram os seguranças que acionaram uma ambulância do Samu para que a vítima fosse levada ao Hospital Jayme dos Santos Neves. Um vídeo gravado no momento que o auxiliar de serviços gerais foi localizado o mostra muito ferido e ensanguentado no chão do banheiro, visivelmente desorientado.
APOIO
Natural de Minas Gerais, a vítima vive no Espírito Santo há cerca de cinco anos, onde recebe apoio de uma amiga que o considera filho. Ela contou que chegou a fazer um registro de ocorrência de tentativa de latrocínio, mas que, após conversar com o filho, descobriu que a motivação do crime era outra. 
"Por causa do roubo, inicialmente nós achamos que era apenas uma tentativa de latrocínio. Meu filho ficou desacordado e o hospital só entrou em contato pela manhã de ontem (13) afirmando que ele estava internado. Quando explicaram que ele foi agredido e roubado eu pensei: 'Não pode ter sido por ele ser gay. Foram lá roubar e aproveitaram pra bater'. Só quando ele acordou nos contou que foi homofobia. Um preconceito brutal. Ele tá muito abatido e ainda fica tonto quando começa a falar. Mas contou que o agressor disse que ele não podia entrar em banheiro de homem. Que ele estava ali pra olhar. E depois disso já partiu pra agressão", lamentou, sem se identificar.  
Ele bateu muito. É triste demais saber que a gente vive no mesmo lugar que esses bandidos ignorantes. Não tenho palavras. Só o sentimento de indignação
Mãe do jovem agredido
JULGAMENTOS
Além de toda a violência verbal e física, agora a vítima ainda enfrenta a violência na internet. Uma amiga dele, que preferiu não se identificar, contou que muitas pessoas estão fazendo julgamentos preconceituosos e pejorativos contra o auxiliar de serviços gerais.
"Ontem (13) eu fui a primeira pessoa a chegar no hospital, Ele estava desnorteado e falou: 'Me bateram muito irmã, me bateram muito'. Foi aí que ele contou tudo que passou no banheiro. Que foi acusado de estar olhando para o acusado e mesmo dizendo que não, foi xingado, ameaçado e agredido. Ele levou coronhadas na cabeça, no rosto, na orelha. Foi tão forte que ele desmaiou e só lembra de vultos. O pior de tudo é que ele sofreu tudo isso por homofobia e ainda está sendo julgado nas redes sociais. Eu o conheço, o tenho como irmão. Sei que ele é responsável, íntegro e não merece isso. Queremos respostas. Quem fez isso com ele? Ninguém ouviu a discussão? Por que não chamaram a polícia quando ele foi encontrado? Por que não chamaram a família? Só fomos saber na manhã do dia seguinte quando o hospital entrou em contato", indaga.
Dói até agora. Não desejo nem pra um inimigo passar por isso. Nunca tinha entrado em uma delegacia antes. Agora eu tenho medo de esbarrar com ele (agressor). Por isso eu não quero mais andar sozinho. Agora é esperar a justiça de Deus e dos homens
Jovem agredido
INVESTIGAÇÃO
Após receber alta do hospital, a vítima foi à Divisão Especializada de Repressão aos Crimes Contra o Patrimônio (DRCCP) prestar depoimento. De acordo com ele, a Polícia Civil informou que irá solicitar as imagens do Terminal de Laranjeiras para tentar identificar o criminoso. 
"Eu apanhei muito na cabeça e estou lembrando das coisas aos poucos. Lembro apenas que ele era branco. Eu desmaiei e só acordei no hospital. Eu nunca vi esse homem. Nunca sofri nenhum tipo de ameaça. Eu nem gosto de entrar em banheiro de terminal, justamente por medo dessas coisas. Mas acabou acontecendo comigo. Dói até agora. Não desejo nem pra um inimigo passar por isso. Nunca tinha entrado em uma delegacia antes. Agora eu tenho medo de esbarrar com ele (agressor). Por isso eu não quero mais andar sozinho. Agora é esperar a justiça de Deus e dos homens", lamentou. 
A Ceturb-ES informa que todos os terminais, além de segurança patrimonial, são equipados com câmeras de videomonitoramento. A Companhia já está apurando os fatos para verificar o que ocorreu e tomar as medidas cabíveis
 

A Gazeta integra o

Saiba mais
Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados