Três anos da lama da Samarco: barcos na foz do Rio Doce em Regência
Três anos da lama da Samarco: barcos na foz do Rio Doce em Regência . Crédito: Carlos Alberto Silva

Tragédia no Rio Doce: três anos à espera de respostas

Nesta segunda (5) completa três anos do rompimento da barragem e, desde então, os atingidos esperam por respostas por parte do poder público e por parte das empresas responsáveis pelo desastre

Publicado em 03/11/2018 às 16h56

Na manhã do último 24 de outubro, oito pescadores de Colatina, no Noroeste do Estado, acordaram às 6 horas para ir à peixaria. Por lá, eles tiraram telhas, janelas, portas, tudo o que poderia ser reaproveitado. O barulho dos objetos que iam desfazendo um espaço por eles ocupado há 32 anos era ouvido também em suas almas.

A peixaria sempre foi um ponto de referência na cidade, um lugar tradicional localizado às margens do Rio Doce. Mas as vendas diminuíram e ela praticamente foi abandonada após a barragem de Fundão, em Mariana, se romper, levando rejeitos de minério para o Rio Doce, em 5 de novembro de 2015. Sem conseguir vender os peixes retirados do rio, muitos pescadores saíram dali ou buscaram outras alternativas para sobreviver.

Os três que ficaram trabalhavam com dificuldade, vendendo peixes de água salgada. A Prefeitura Municipal de Colatina entendeu que a finalidade de comercialização de peixe não ocorria mais e pediu o imóvel municipal. Mas, ao mesmo tempo que o desmanche ia ocorrendo, mais um símbolo dos pescadores chegava ao fim.

“Doeu muito ter que sair de lá, a lama influenciou em tudo, a peixaria foi perdendo o número de pescadores e clientes. Foi tirado nosso ponto de trabalho e lazer, pois nos reuníamos para conversar também”, lamenta Valdomiro Jesus da Rocha, de 56 anos, sendo 30 deles dedicados à pesca no rio.

A vida de milhares de pessoas mudou após a tragédia no Rio Doce. Amanhã a tragédia do rompimento da barragem completa três anos e, desde então, os atingidos esperam por respostas por parte do poder público e das empresas responsáveis pelo desastre: Samarco, dona da barragem, e suas controladoras Vale e BHP Billiton. O peixe está contaminado? A água consumida traz riscos à saúde? O mar está contaminado? E o mangue? As folhagens irrigadas pela água do rio sofrem algum tipo de contaminação? São dúvidas que perduram.

Algumas somente começarão a aparecer nos próximos seis meses já que as pesquisas começaram apenas em setembro deste ano. São 25 universidades que fazem parte de um estudo multidisciplinar para avaliar a extensão dos danos provocados. Desse trabalho em conjunto, virão conclusões sobre o consumo de pescado na alimentação humana e a liberação da pesca de espécies nativas sem ameaça à continuidade da fauna local, entre outras diretrizes para preservação do ecossistema ao longo da bacia do Rio Doce. A Renova, fundação criada para reparar os danos do desastre ambiental, repassou R$ 120 milhões para as pesquisas.

 

A pescadora Joselita Maria de Jesus Correia e o marido foram atingidos pelos rejeitos de lama da Samarco . Crédito: Carlos Alberto
A pescadora Joselita Maria de Jesus Correia e o marido foram atingidos pelos rejeitos de lama da Samarco . Crédito: Carlos Alberto

“A gente precisa saber como está a qualidade dos peixes e se vamos poder voltar a pescar. Eu perdi meu ganho, a renda da família diminuiu. Eu espero que Deus nos abençoe e o rio volte a ser como era antes para pescar junto com o meu marido”, desabafa a pescadora Joselita Maria de Jesus Correia, de 44 anos.

Poucos resultados

O bispo da Diocese de Colatina, dom Joaquim Wladimir Lopes Dias, relata que nesses três anos foram vistos poucos resultados. Somente com as respostas é que a população terá segurança, tranquilidade e qualidade de vida.

“Em três anos, vimos que a Renova preparou uma estrutura muito grande, está muito bem estruturada, mas na prática as coisas não acontecem. Acho que o dinheiro deveria ser utilizado em primeiro lugar com os trabalhadores e atingidos para entender as necessidades básicas, evitando a perda da qualidade de vida. O povo está sofrendo”, conta.

O bispo acrescenta que há três problemas urgentes a serem resolvidos: de gênero, porque muitas mulheres não recebem o auxílio e isso fez com que a renda das famílias caíssem; a questão do produtor rural que perde vendas pela desconfiança das pessoas em consumir produtos irrigados pela água do rio; e, por último, a saúde dos atingidos, porque apesar de muitos receberem auxílio da Renova, estão desempregados e caíram na depressão e alcoolismo.

 

 

Viagem

Enquanto as respostas não chegam, pelo caminho da lama há dor, sofrimento e desesperança nos 800 quilômetros percorridos por A GAZETA em quatro dias de viagem pelo Espírito Santo. Bens, fontes de renda e sonhos ficaram para trás desde que a tragédia ambiental ocorreu.

A vida dos moradores e a paisagem ainda não voltaram à normalidade. É só mexer no fundo do rio que a lama de minério logo aparece e sua cor alaranjada ganha força. Algumas pessoas nem podem se afastar do rio para evitar lembranças porque moram bem próximos a ele, como a pescadora Ana Maria Rodrigues Seletes, de 47 anos. Em sua residência também há várias lembranças da época em que podia entrar no rio, a sala é cercada por quadros de peixes.

Ela vive em Mascarenhas, em Baixo Guandu, e dependia do rio tanto para fonte de renda quanto para lazer. Como não tem mais o peixe do Doce para cozinhar os petiscos e revender aos bares, passou a gastar R$ 1 mil com o produto por mês e reduziu seu lucro.

 

A pescadora Ana Maria Rodrigues Seletes é uma das atingidas pela lama de rejeitos da Samarco . Crédito: Carlos Alberto
A pescadora Ana Maria Rodrigues Seletes é uma das atingidas pela lama de rejeitos da Samarco . Crédito: Carlos Alberto

“Pescar além de ser uma profissão é uma terapia, pescaria me dava prazer. A vida mudou e muito, antes eu era mais alegre. Nossos dois filhos gostavam de estar no rio, o mais velho, de 24 anos, nem poderá seguir a profissão”, desabafa.

Desastre

No dia 5 de novembro de 2015 o “tsunami” de lama, com 32 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério (equivalente a 12.800 piscinas olímpicas), devastou os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, em Mariana, e tirou a vida de 19 pessoas. Os rejeitos seguiram por 500 quilômetros a dentro pelo Rio Doce, causando todo tipo de transtorno, caos e morte da biodiversidade aquática e ribeirinha pelas cidades que cortou. Atingiu a foz, em Regência, Linhares, no Espírito Santo, 17 dias após o início da catástrofe ambiental.

Inicialmente, no Estado, os municípios de Baixo Guandu, Linhares, Marilândia e Colatina faziam parte da lista de atingidos da Renova. Em abril de 2017, áreas de Aracruz, São Mateus, Serra, Conceição da Barra e Fundão também passaram a ser reconhecidas. Os pescadores de camarão foram reconhecidos em abril de 2018.

Isso foi possível após o pedido do grupo Interdefensorial do Rio Doce – composto por defensores públicos de Minas Gerais, do Espírito Santo e da União – ser aceito pelo Comitê Interfederativo (CIF), responsável por fiscalizar e validar as medidas de recuperação dos danos resultantes da tragédia executados pela Renova.

O CIF já aplicou quatro multas à Fundação Renova, que somam R$ 39,58 milhões. Entre elas, pelo descumprimento de obrigação relacionada ao cadastro de pessoas atingidas no Espírito Santo, no valor de R$ 3,3 milhões. Já o Ibama aplicou 25 autos de infração contra a Samarco, que totalizam R$ 350,7 milhões. Nada foi pago até o momento.

"Trabalhei a minha vida toda como pescador e aqui na peixaria. A lama mudou tudo. Até o ponto de lazer acabou. Sentávamos aqui para conversar", comentou o pescador Valdomiro Jesus da Rocha. Crédito: Carlos Alberto Silva
"Trabalhei a minha vida toda como pescador e aqui na peixaria. A lama mudou tudo. Até o ponto de lazer acabou. Sentávamos aqui para conversar", comentou o pescador Valdomiro Jesus da Rocha. Crédito: Carlos Alberto Silva

 

Indenização

Enquanto isso, pelo caminho da lama há pescadores, donos de pousadas, artesãos, marisqueiros na luta para conquistar os direitos desse reconhecimento. Muitos não receberam o auxílio mensal pago pela Renova por meio de um cartão. O valor é de um salário mínimo mais 20% para cada dependente. Outros estão sem a indenização por danos morais e materiais prevista no Termo de Transação e Ajustamento de Conduta (TTAC), firmado entre Samarco, Vale, BHP Billiton, governo federal e governos estaduais de Minas Gerais e Espírito Santo em 2016. Ele garante programas e ações de reparação e compensação socioeconômica e socioambiental.

Enquanto isso, precisam se virar como podem. Há pescador que virou dono de parquinho de diversão, outros passaram a cultivar verduras e legumes, e tem até quem precisou catar material reciclável para ter o que comer dentro de casa, como a pescadora Dermecília Moreira, de 72 anos. “A fome não espera, tenho que me virar”, desabafa a moradora de Colatina.

No município, as pessoas são abastecidas pela água captada no Rio Doce, mas muitas têm desconfiança e preferem ir em nascentes buscar o recurso para cozinhar e beber. Em Linhares, 56 famílias que vivem às margens do Rio Pequeno, que abastece o município, precisaram sair de casa em setembro deste ano, mas já voltaram. O motivo foi o risco de rompimento da barragem feita no rio, que liga o Doce à Lagoa Juparanã. Ela foi construída em 2015, por decisão da Justiça Estadual, para evitar a contaminação da lagoa pela lama. Moradores ainda temem alagamentos nas casas no período da chuva.

 

O pedreiro Macedo Almeida Santos busca água em nascente no município de Colatina . Crédito: Carlos Alberto
O pedreiro Macedo Almeida Santos busca água em nascente no município de Colatina . Crédito: Carlos Alberto

Para dom Wladimir, os afetados devem continuar unidos pela conquista dos direitos. No dia 10 de novembro, a Igreja Católica e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) irão realizar um ato em Colatina. “Sem mobilização não iremos conseguir. Infelizmente tudo acontece pela pressão”, afirmou.

Peixaria 

Sobre a peixaria que foi derrubada em Colatina, a prefeitura informou que a finalidade de comercialização de peixes há anos não ocorria no local. Por isso, solicitou a reintegração de posse da área. A administração municipal se comprometeu a estudar “um plano de cessão de um espaço próximo ao Rio Doce em área a ser cogitada para os que sobrevivem da pesca”, disse em nota. 

rio doce

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.