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Surto em creche: contaminação por até 21 dias

Lavar e esfregar mãos ajuda a não alastrar bactéria

Publicado em 03/04/2019 às 09h51
Chafariz em creche interditada de Vila Velha. Crédito: Eduardo Dias
Chafariz em creche interditada de Vila Velha. Crédito: Eduardo Dias

Os pacientes sintomáticos podem continuar contaminando outras pessoas por até 21 dias. A informação é do infectologista Lauro Ferreira Pinto. Ele afirmou ainda, em reunião com técnicos das Vigilâncias Sanitária, Epidemiológica e Ambiental de Vila Velha, que as infecções mais graves ocorrem em crianças de 2 a 5 anos e podem demorar cerca de três dias até que os primeiros sintomas se iniciem.

Segundo a microbiologista da UVV Clarisse Arpini, em pessoas saudáveis um mesmo tipo de E.coli pode causar apenas uma diarreia que passa em alguns dias. “Pode ser que algumas pessoas nem percebam que foram infectadas”, afirma.

A bactéria E.coli foi encontrada na água que circulava em um playground molhado na creche – ainda não se sabe se é do mesmo tipo grave encontrado em duas crianças.

Ela explica que a transmissão da E.coli mais agressiva de pessoa para pessoa ocorre comumente dentro de casa. “Às vezes a pessoa até lava as mãos depois de ir ao banheiro, mas acaba esquecendo alguma parte, por exemplo. A contaminação pode ocorrer também no banheiro como um todo ou na hora de lavar a roupa de alguém infectado”, enumera.

A microbiologista alerta que a melhor maneira de evitar a contaminação dentro de casa é lavando com água e sabão. No entanto, é preciso fazer bem a higienização. “Não é necessariamente usar sabonetes antibactericidas. É o ato mecânico de esfregar as mãos que faz com que as bactérias se desprendam. Elas podem até não morrer, mas já são eliminadas das mãos”, diz.

Ela diz que a limpeza tem que ser feita sem esquecer nenhuma parte. “Muita gente se esquece de limpar entre os dedos, por exemplo”, afirma.

Mas Clarisse diz que não é necessário entrar em pânico com relação à higiene das crianças. “Não é para colocar a criança em ‘uma bolha’ porque ela precisa desenvolver sistema imunológico, mas é preciso ficar atento. Em caso de alguma diarreia que não está normal, tem que levar ao médico”, diz.

INVESTIGAÇÃO

A Prefeitura de Vila Velha informou que, diante da gravidade do surto na creche na Praia da Costa, o secretário municipal de Saúde, Jarbas de Assis, irá acionar por ofício o Ministério da Saúde para que ajudem na investigação e elucidação do caso.

A prefeitura informou ainda que aguarda novos resultados das amostras enviadas ao Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen) para tomar novas medidas.

PREVENÇÃO

Cuidados

- A principal ação preventiva é o cuidado com a higiene. Lavar bem as mãos, com água e sabão, após usar o banheiro e antes de preparar refeições é fundamental. O ato mecânico de esfregar é mais importante que o sabão em si para eliminação das bactérias.

- No caso de ambientes com crianças, a atenção deve ser redobrada. O cuidador da criança que troca uma fralda, por exemplo, não pode pegar na chupeta sem lavar as mãos. Os brinquedos que usam devem ser frequentemente higienizados, uma vez que as crianças costumam levá-los à boca.

- Frutas e hortaliças devem ser higienizados não apenas com água corrente. O uso do hipoclorito de sódio (uma colher de sopa para cada litro de água, por 15 minutos) é indicado para esses casos.

- Carnes e frangos devem ser bem cozidos e sua origem deve ser verificada.

- Crianças com sintomas de diarreia não devem ser levadas a ambientes públicos, como escola e praia, sob risco de contagiar outras pessoas.

Fontes: especialistas ouvidos pela reportagem

"CRIANÇAS SÃO MAIS SUSCETÍVEIS AO TIPO MAIS GRAVE"

Professora e pesquisadora do Departamento de Patologia da Ufes, Liliana Cruz Spano estuda há cerca de 20 anos agentes como vírus e bactérias que afetam o trato intestinal. Atualmente, ela atua no Laboratório de Virologia e Gastroenterite Infecciosa da Ufes, que está auxiliando a Secretaria de Estado da Saúde na identificação dos agentes causadores do surto em uma creche na Praia da Costa, em Vila Velha.

Qual bactéria foi encontrada nas amostras dos alunos da creche?

Foi um tipo de E.coli enterohemorrágico. Esse tipo produz duas toxinas e, nas amostras, foi identificado uma delas, o tipo 2, que produz a toxina Shiga. Várias bactérias podem produzir essa toxina. Mas essa, além de produzi-la, tem um outro gene, responsável por causar lesão intestinal.

Onde essa bactéria vive?

Quem serve de reservatório para ela são os animais, e não o homem. Por isso é considerada uma zoonose. O homem passa de um para o outro quando está infectado, durante a apresentação dos sintomas. Ele não se mantém portador depois disso. Entre os animais, na maior parte do mundo, os que carregam esse tipo de bactéria são os bovinos.

É comum infecções em humanos em outras partes do mundo?

Sim. No Brasil que não é. Seria o primeiro surto no país. Mas outros países lidam com isso há muito tempo, como Uruguai, Argentina, Estados Unidos e no Japão. Neste último, inclusive, já houve surto com 6 mil infectados.

Esse tipo de bactéria é muito diferente dos outros tipos de E.coli?

Existem mais de 700 tipos de E.coli, mas nem todos provocam doença. São bactérias normais no trato intestinal de animais de sangue quente. Todo mundo tem E.coli nas fezes. Mas uma característica dela é adquirir virulências (capacidade de provocar doenças) diferentes, com isso, surgiram variações que atacam o intestino. Outros podem atingir o trato urinário, por exemplo. Quando se isola uma E.coli no intestino de paciente com distúrbio intestinal, temos que diferenciar se é um tipo normal ou se tem potencial de causar doença.

Foi a partir daí que foi encontrado o tipo que infectou as crianças da creche?

O Lacen mandou a cepa (o tipo encontrado) para cá e fomos pesquisar os vários genes de virulência que existem. Pesquisamos nove diferentes e encontramos a bactéria que produz essa toxina (Shiga), que leva à Síndrome Hemolítico-uréica.

Esse tipo é muio grave?

É grave nas crianças porque elas são mais suscetíveis. De modo geral, 10% dos infectados vai evoluir para essa forma mais grave que é a síndrome. A toxina age se ligando em receptores nas células e as crianças têm mais receptores que os adultos. Isso leva à hemorragia intestinal.

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