De um lado, um casal que há nove anos tentava engravidar do segundo filho. Do outro, um bebê que, após treze negativas de pretendentes, continuava no abrigo. Finalmente, em setembro de 2016, eles se encontraram.
Quando olhei para ele, ele olhou no fundo dos meus olhos. Não tem diferença nenhuma de quando acabei de ter a minha filha mais velha de parto normal
"É a mesma coisa. É como se ele tivesse acabado de nascer naquele momento. Foi uma coisa maravilhosa", lembra a mãe, emocionada.
A consultora Elizabete Pinheiro, 46 anos, é mãe do Davi, 4 anos, e da Alice, 19 anos, uma leoa quando se trata do irmão. "Os dois são um grude, ela é extremamente apaixonada por ele", conta.
Segundo Elizabete, a ideia de adotar foi nascendo aos poucos. "Ela se concretizou mesmo a partir da minha filha mais velha. Há uns cinco anos, ela me disse: 'Mãe, não quero mais que você tente engravidar. Quero que você adote o meu irmão'. Ali aflorou. A aceitação dela ajudou mais ainda a gente tomar a decisão", diz.
TENTATIVAS
A consultora e o marido, Cristóvão Pinheiro, 48 anos, que é operador de ponte rolante, tentaram por 9 anos a segunda gestação. "Nós descobrimos vários probleminhas de saúde tanto em mim quanto no meu esposo. Em 2015, já tinha decidido pela adoção, retirei o útero".
No decorrer desse tempo, o casal passou por vários processos. "Chegamos até ir em uma clínica de fertilização para saber como funcionava, mas eu não queria fazer. Pensava em ter filho só natural mesmo".
PERFIL
Na hora de preencher o cadastro para a adoção, Alice pediu aos pais para escolherem menino. O casal aceitou o pedido da filha e colocou no perfil meninos de 1 a 5 anos de idade.
"Como já temos uma filha biológica e a fila para bebês com menos de 1 ano era muito grande, deixamos para quem nunca tinha tido a experiência de ter um bebê. Ele chegou para a gente com 1 ano e 2 meses", fala a mãe.
"GRAVIDEZ DE SETE MESES"
Elizabete tirou o útero em outubro de 2015. Em janeiro de 2016, o casal entregou a documentação na Vara da Infância e Juventude de Vila Velha. Antes disso, ela achava que o processo de adoção era burocrático, hoje vê que o curso de habilitação é muito necessário, inclusive na hora de preencher a ficha corretamente.
Nós fizemos o curso de habilitação em agosto e, antes de terminar, ele surgiu para a gente, em setembro. O processo de adoção do Davi foi muito de Deus. Entendo o processo de adoção dele como uma gravidez de sete meses, porque ele nasceu prematuro para a gente
O casal já tinha conhecido o Davi em uma visita a um abrigo, que fazia parte do curso. Mas não fazia a menor ideia de que ele seria o filho deles.
AS RECUSAS
Na Vara, o pais souberam que Davi estava disponível desde que nasceu. "Ele já tinha passado por 13 famílias".
A 13º adotou ele, mas foi resgatado 15 dias depois, porque a família não estava cuidando, estava desnutrido, desidratado. Ele saiu dessa casa e foi direto para o hospital e ficou internado. Aí pegaram ele de volta
Cerca de um mês depois, eles foram a 14º família consultada para a adoção do menino.
Elizabete não sabe se Davi chegou conhecer todos os demais pretendentes ou se eles já recusavam o bebê quando iriam conhecê-lo, por conta da pequena deficiência que ele tem no olho. "Um olhinho dele é pouco mais fechado. Ele era muito doentinho".
MEDO
Quando soube o tanto de enfermidades que Davi tinha, como problemas respiratórios e dermatite atópica em boa parte das pernas, a mãe teve medo. "Pensei: 'Meu Deus, será que vou dar conta de cuidar dessa criança?' No meu coração de mãe, entendi que Deus me deu e eu iria dar conta".
ABRAÇO APERTADO
Outra insegurança de Elizabete era a criança ser um pouco maior. "Estava preparada para a criança chorar nos primeiros dias, não querer ir no meu colo. Mas quando peguei o Davi no colo lá na Vara, ele abraçou o meu pescoço, apertava tanto o meu pescoço que ele demorou muito para soltar."
RISCOS
"A gente conseguiu uma cópia do prontuário de antes dele chegar na gente, e levei para a neuropediatra. Ela me falou que, com o tanto de enfermidade que ele tinha, era tão doentinho que, provavelmente, se ele não tivesse sido adotado, teria morrido. No abrigo, eles não têm condições de dar tanto carinho e afeto, porque são muitas crianças."
FÉ
"Falo para todo mundo, se a pessoa acredita em Deus ou não, quando decidi adotar uma criança, foi a mesma coisa que eu tivesse decidido engravidar. Não quis escolher, deixei que Deus escolhesse essa criança."
AUTISMO
Neste ano, depois de Davi entrar na escola, Elizabete percebeu alguns atrasos de interação e linguagem no filho. Após conversar com a escola, o levou a um neurologista. "A gente descobriu que ele tem transtorno do espectro autista leve". O menino está sendo acompanhado.
ROTINA
"A rotina muda, porém, traz uma vida pra dentro de casa que é inexplicável. Nem lembro mais como era a nossa vida sem ele, porque ele é uma criança extremamente amorosa. Todo mundo que vê se apaixona por ele, mesmo falando pouco".
"Em casa, ele fala bastante coisa. Mas na escola ele não conversa, é muito apegado a gente. Ele é uma criança espetacular. A última vez que levei ele na Vara uma pessoa nem o reconheceu de tanto que mudou".
ALEGRIA
Às vezes, as pessoas nos dão parabéns por adotar uma criança. Fico com vontade de pedir a pessoa para dar parabéns para ele, porque o que a gente recebe é muito mais do que a gente dá
"A gente recebe um amor que é incondicional. Você vê que ele ama a gente de verdade. Ele adotou a gente desde o primeiro dia. Ele dormiu a noite inteira comigo na cama. Ela (assistente social) ligou às 14h pra buscar ele às 16h. Eu não tinha comprado nada. Por isso, ele dormiu comigo na minha cama. Acordei duas vezes com ele enfiando a carinha embaixo do meu pescoço", se derrete.
A consultora lembra que, uma semana depois, quando a psicóloga e a assistente social chegaram para visitá-lo, ele estava dormindo. "Quando acordou, me chamou de mãe. Elas se surpreenderam com a adaptação dele".
RECUPERAÇÃO
Daí que eu digo que acredito em milagres. Ele não tem mais alergia, não tem mais doença respiratória. Ele não tem mais convulsão. A dermatite atópica você só sabe que ele tem se eu falar. Só passo hidratante