Símbolo da cultura capixaba, o congo também pode ser uma expressão de fé. Na comunidade de Roda d'Água, em Cariacica, a batida dos tambores e o toque da casaca ditam o ritmo de devoção a Nossa Senhora da Penha, no dia em que se celebra a padroeira do Espírito Santo.
A manifestação cultural que remete ao período colonial, cuja origem pode ser atribuída a negros e indígenas, tem uma trajetória de luta e resistência, mas a proximidade com a tradição católica revela o sincretismo que permeia essa celebração. Daí, os festejos não apenas reverenciam a santa, mas sustentam a história dos que ajudaram a construir a identidade do povo capixaba. Confira no vídeo acima.
Aos 76 anos, Itagiba Cardoso Ferreira, o mestre Tagibe, comanda uma banda na comunidade e fala com orgulho da missão que herdou do pai. Para ele, o congo é um instrumento de educação, respeito e, também, de fé em Nossa Senhora da Penha.
"Meu pai sempre falou para mim que a tradição do congo era a promessa que o pessoal pagava no carnaval de congo (de Roda d'Água), porque, na época, não podia ir ao Convento. Era difícil sair daqui, não tinha condições de ir. Meu pai falava comigo: 'olha, meu filho, muita gente saiu lá do Taquaruçu (zona rural de Cariacica) para vir pagar promessa aqui no carnaval de congo, nas caminhadas que a gente fazia'", lembra o mestre da banda Tagibe, fazendo referência às procissões na comunidade que começaram ainda no século passado para homenagear a padroeira do Estado.
Na festa deste ano, Tagibe tem a própria dívida com a santa — ele ficou 10 meses internado em 2025, passou por cirurgias, e agora está recuperado para comandar a banda. "Para mim, é um uma grande promessa que vou ter que pagar aqui mesmo no meu território e eu fico muito feliz por isso."
Para Delizete Cardoso da Silva, a Zezé, essa história de devoção é centenária. Ela preside a banda de congo Santa Isabel, criada pela família Cardoso em Roda d'Água, segundo ela, há cerca de 100 anos. Nos ritos atuais, uma imagem de Nossa Senhora é carregada até o campinho da comunidade para a realização da missa, enquanto os grupos tocam e dançam pelo caminho, incluindo mascarados e o personagem João Bananeira. "Somos todos devotos de Nossa Senhora da Penha, temos muita fé nela."
E não teria como ser diferente, como conta o mestre Tagibe. "A gente viu acontecer muita coisa boa. Onde Nossa Senhora da Penha estender a mão, as coisas acontecem. Houve uma época em que aqui em Roda d'Água teve uma seca danada, ficou quase um ano sem chover. Aí, o pessoal do carnaval de congo fez um pedido para que ela mandasse chuva para nós. Na hora em que estava começando o carnaval, deu um toró que alagou tudo. Pediu e foi ouvido. É uma coisa que tem que ter fé!"
Bandas de congo de Roda d'Água celebram Nossa Senhora da Penha
Filho de Tagibe, Alcemi Ferreira Cardoso, o mestre Cemir, seguiu a tradição familiar, comanda uma banda de crianças e vê o congo tanto como diversão quanto ferramenta para repassar um pouco da cultura e história. Dos contos que ouvia do avô, o mestre Gabiroba, ele diz que a manifestação surgiu entre os escravizados, que buscavam meios de esquecer da violência que sofriam.
"Era ali com os tambores do congo, com brincadeiras, jogando capoeira, que eles se divertiam, apesar de toda tortura e dor. Essa manifestação acabou gerando curiosidade entre os fazendeiros. Foi daí que surgiu a história do João Bananeira - pelo o que meu avô contou, ele era um patrão que queria saber o que estava acontecendo, o que era aquela diversão tão grande e contagiante", recorda-se Cemir, acrescentando que o uso de máscaras nas festas também surgiu nessa época.
Questionado sobre o momento em que a manifestação passou a ser também um ato de reverência a Nossa Senhora da Penha na comunidade, mestre Cemir não estabelece uma data precisa, mas reforça o que o mestre Tagibe já havia destacado: as pessoas que não podiam ir até o Convento passaram a fazer a celebração no próprio território. Hoje, o carnaval de congo de Roda d'Água reúne mais do que os moradores da região e recebe bandas e devotos de outras localidades, que participam da missa, dos momentos de devoção. Tem até barraca da santa para tirar fotos. Na edição deste ano, a imagem levada para o Sambão do Povo, durante o Carnaval de Vitória, também vai ser exibida na festa dos congueiros.
O mestre Tagibe supõe que a crença em Nossa Senhora da Penha surgiu ainda na época da escravização dos negros, mas, se não lhe falha a memória, foi apenas no final da década de 1980 que uma imagem da santa passou a ser usada nos cortejos.
"Logo quando ela começou a caminhar com as bandas, foi uma crítica danada, porque os mascarados saíam atrás. Na época, os mascarados eram muito esquisitos, era muito mascarado feio. O pessoal criticou um pouco porque a santa ia na frente e os mascarados, atrás, mas depois foram se acostumando e aí ficou. É uma tradição!", sustenta Mestre Tagibe, acrescentando que, com a festa, podem demonstrar sua fé e manter a cultura do congo, essencial para a comunidade.
Um pouco mais de história
O congo, segundo explica o historiador Marcus Vinícius Sant'ana, surgiu no período colonial e uma das narrativas sustenta que trata-se de uma manifestação de negros e indígenas, isto é, não há uma definição propriamente de que povo deu origem. É fruto da junção daqueles que sofreram o processo colonizador e é genuinamente capixaba.
Embora alguns avanços sejam percebidos em relação ao congo desde o seu surgimento, Marcus Vinícius diz que a manifestação e seus integrantes ainda sofrem preconceitos de grupos que já expuseram a intolerância religiosa até em ambiente escolar.
Marcus Vinícius aponta que a relação das bandas de congo com Nossa Senhora da Penha está descrita desde as primeiras narrativas históricas e defende que essa aproximação da cultura negra e indígena com tradições católicas aconteça de maneira natural e preservando os elementos que fazem parte da construção da identidade capixaba.
Por fim, Marcus Vinícius destaca a crença popular em Nossa Senhora da Penha, comparando as manifestações no Espírito Santo às dedicadas a Nossa Senhora de Nazaré, no Pará, e a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. "É importante salientar a importância de uma forma de devoção muito forte e igualmente de representação identitária. Faz parte da formação do povo capixaba."