Com o maior prazo para a chegada de veículos zero km nas concessionárias, a busca por carros usados tem crescido e levado à falta de alguns modelos seminovos no Espírito Santo. O problema é decorrente da escassez global de chips e componentes eletrônicos, que desde o ano passado afeta a indústria automobilística.
Em algumas lojas no Estado, consumidores chegam a aguardar até 120 dias, isto é, quatro meses para receber um carro novo. Diante da demora, parte da demanda está migrando para veículos usados, conforme explica o diretor-executivo do Sindicato das Concessionárias e Distribuidoras de Veículos do Espírito Santo (Sincodives), José Francisco Costa.
“Temos tido aumento na procura por seminovos. No primeiro trimestre, principalmente, houve um pico de vendas muito alto, até por conta da demanda reprimida do ano passado. Agora a busca voltou a crescer, por causa da falta de alguns modelos novos, e já não há tantos seminovos disponíveis.”
Costa afirma que é comum que os consumidores, enquanto não encontram os veículos novos que desejam, levem para casa um modelo usado para utilizar enquanto o outro não chega. Mas como há grande procura carros zero km e a espera está mais longa, podendo chegar a vários meses, o desapego usual não tem acontecido.
Em função disto, há menos automóveis seminovos disponíveis para reposição nas concessionárias.
"Agora, a queda na oferta não é só de veículos novos, mas também de seminovos. Quando o consumidor chega para procurar, tem maior dificuldade de encontrar determinado modelo porque ninguém desapegou. Se a pessoa não passa de um carro para o outro, se não faz essa troca, acaba levando esse problema adiante"
Costa observa ainda que, desde o ano passado, houve um acréscimo de serviços de entrega, que fizeram com que veículos como motocicletas e semelhantes tivessem maior procura.
Já a demanda por carros ficou reprimida. A despeito das taxas de juros mais atrativas, os bens não foram adquiridos por conta da pandemia, que causou uma crise aguda e gerou incertezas não apenas quanto à saúde, com a diminuição da locomoção e também em relação à situação financeira da famílias nos meses seguintes.
Com a retomada gradual das atividades, impulsionada pela imunização da população contra a Covid-19, o setor chegou a projetar um aumento de 30% nas vendas de 2021, em comparação com 2020. Entretanto, diante da escassez de veículos, a margem de crescimento foi revista, e, agora, a previsão é de que o avanço chegue a 15%.
O problema se deve a um desequilíbrio entre oferta e demanda, provocado pela pandemia. Isso porque muitas partes de um automóvel dependem de componentes eletrônicos, como os chips e semicondutores.
Essas peças são feitas em sua maioria na Ásia e, no início da crise sanitária, montadoras suspenderam encomendas porque as fábricas foram fechadas. Paralelamente, o maior número de trabalhadores em home office e crianças fora da escola levou a um boom de vendas de eletroeletrônicos como laptops e celulares, e a produção de componentes foi direcionada a esses produtos.
Quando a situação se tornou mais amena, setores da economia, entre os quais a indústria automobilística, retomaram atividades num ritmo superior ao esperado e as fábricas de chips não deram conta da demanda, conforme mostrou A Gazeta em reportagem publicada em 15 de julho.
Sem essas partes eletrônicas, que permitem que os componentes do carro se comuniquem entre si, muitas montadoras foram paralisadas no país, o que refletiu na disponibilidade de veículos nas lojas.
A Volkswagen, por exemplo, anunciou que vai parar novamente algumas de suas linhas de montagem no Brasil. Movimento semelhante aconteceu em junho por 10 dias. Desta vez, todavia, a fabricante decidiu parar por mais tempo. Serão 20 dias, no mínimo, sem produzir carros novos por falta de chips.
Segundo relatório da Anfavea, entidade que representa as montadoras instaladas no país, entre 100 mil e 120 mil veículos deixaram de ser produzidos no Brasil no primeiro semestre de 2021 em função da falta de componentes eletrônicos.