Quase um ano e meio após o início da pandemia da Covid-19, o coronavírus continua ganhando força graças a mutações. A mais recente, conhecida como variante delta, identificada inicialmente na Índia, tem levado o número de pessoas infectadas a disparar em diversos países, gerando incerteza em relação aos próximos meses e quanto aos possíveis impactos sobre a economia. No Brasil e no Espírito Santo, não é diferente.
Hoje, aproximadamente 16% da população brasileira está imunização completa, seja por ter recebido a vacina de reforço ou a de dose única, e quase 42% recebeu pelo menos uma dose da proteção. Ainda não se sabe quais serão as consequências da nova variante do vírus neste cenário.
Entretanto, nos Estados Unidos, onde cerca de metade da população adulta já está vacinada, aumentaram as notificações de pessoas infectadas, alcançando mais de 30 mil casos em um dia. No Reino Unido, esse número chegou a ultrapassar 50 mil casos. Embora esse recrudescimento não tenha impactado significativamente o número de óbitos, medidas de prevenção à transmissão do vírus, como o uso de máscaras, que chegaram a ser flexibilizadas, estão sendo revistas.
Essas manobras criaram o temor de que novos lockdowns sejam necessários e, com isso, a recuperação econômica demore a acontecer. Esse risco chegou a causar reação negativa nas bolsas de valores em todo o mundo, inclusive no Brasil, na semana passada.
Esta modificação do coronavírus já é encontrada em alguns Estados brasileiros, inclusive em áreas vizinhas ao Espírito Santo, como o Rio de Janeiro, que concentra o maior número de casos, e São Paulo. Neste contexto, especialistas observam que embora, até então, não haja registro desta modalidade do vírus em território capixaba, impedir sua chegada pode não ser possível.
Contudo, ponderam que os impactos tendem a ser menos significativos do que os observados em ondas anteriores da pandemia.
O diretor de integração do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Pablo Lira, observa que o maior risco para o Estado é um aumento da transmissão da doença, que preocupa e ao mesmo tempo enfatiza a importância de avançar na vacinação.
“O Espírito Santo hoje está entre os Estados que mais aplicam a primeira dose da vacina, o quarto Estado em imunização completa da população, chegando próximo a 18% da população total. A primeira dose já passa de 40% e, se olharmos somente a população adulta, cerca de 60% do total estão imunizados. Mas um percentual de segurança seria acima de 70%, 75% da população total, e ainda não chegamos lá. Por isso preocupa essa variante, por conta do potencial de transmissão dela.”
Lira destaca que o Estado tem feito a testagem em massa da população, e vem, inclusive, fazendo verificações em terminais e no aeroporto a fim de identificar mais rapidamente possíveis contaminações. Além disso, tem feito sequenciamento genético dos casos confirmados para identificação das variantes.
Ele reforça que, para que a vacinação ganhe maior ritmo, é necessária a disponibilização de mais doses do imunizante pelo Ministério da Saúde, mas pontua que a população não deve relaxar nos cuidados.
“Felizmente, o aumento de casos ao redor do mundo não tem implicado em aumento de óbitos ou de pressão sobre o sistema de saúde. E por conta do nível da vacinação no Estado, combinada às nossas tendências, que são de contínua redução de casos confirmados, caso ocorra uma quarta fase, tudo indica que será menos intensa, na perspectiva dos óbitos e de restrições, do que foram as outras três fases de expansão, em julho, final de dezembro, e abril deste ano.”
O ponto é reforçado pelo economista e sócio da Golden Investimentos, Thomas Giuberti, que observa que, mesmo na onda mais recente da pandemia, que levou o governo capixaba a implementar uma quarentena entre 19 de março e 4 de abril, os impactos não foram tão fortes quanto observados anteriormente e muitas das perdas já foram recuperadas.
“Não que a economia capixaba não possa ser afetada se houver aumento da transmissão. Primeiro as pessoas ficam menos confiantes, mais receosas. Os serviços, que demandam contato entre as pessoas, vão diminuir um pouco, talvez o comércio também. Mas como já temos uma parcela maior da população vacinada, diferente do que acontece nas ondas anteriores, acreditamos que se houver impacto, será mais fraco, mais passageiro.”
Ele observa que ainda que a confiança dos investidores seja abalada, recuperar eventuais prejuízos será uma tarefa mais simples. "Acredito que quaisquer perdas serão recuperadas até o final deste ano", pontuou.
O economista Felipe Storch Damasceno, que é professor da Fucape, observa, entretanto, que isto não significa que não há riscos e que o controle da situação depende efetivamente da aceleração da vacinação.
“Só será algo passageiro se vacinarmos. Se não vacinarmos, não é passageiro. Apesar de o Estado ter quase metade da população vacinada, é só com a primeira dose, e não a imunização completa, e quem não tomou a segunda dose ainda está muito exposto, o que pode levar a novas restrições.”
Ele considera ainda que os riscos para a economia capixaba estão mais ligados à capacidade de acelerar a imunização do que o avanço do vírus em outros países, a despeito da nossa ligação com o comércio internacional.
“Apesar de uma ou outra restrição pontual, a princípio não estão dando sinais de que vão fechar. Contudo, o mercado global se mostra inseguro, então não é algo desprezível. Existe sim algum potencial de impacto, mas qual a força dele, ainda não conseguimos prever.”
Caso haja aumento de restrições, a escassez global de componentes eletrônicos, como chips e semicondutores, por exemplo, que já afeta a realização de reparos e manutenção em elevadores e até veículos, pode piorar. A maioria dos equipamentos são importados, e com a possibilidade de novas ondas da Covid-19 no exterior, o problema tende a agravar.
Em pronunciamento realizado na segunda-feira (19), para atualização da situação da pandemia no Espírito Santo, o secretário de Estado da Saúde, Nésio Fernandes, pontuou que todas as variantes em circulação merecem atenção e vigilância constante por parte das autoridades sanitárias, assim como da população.
Ele observou que são outras as variantes que predominam no Estado, mas destacou que, até então, não há evidências de escape vacinal da variante delta, isto é, não há sinais de que as vacinas já existentes e disponíveis não sejam capazes de inibi-la. O desafio maior é ofertar a vacina em tempo hábil.
“Algumas abordagens têm sido inadequadas a respeito da diminuição do risco real que a variante delta possa apresentar para o território capixaba. Nós consideramos que a melhor estratégia para o Estado é a avançar na ampla cobertura com a D1, e sempre que possível, por questões operacionais, antecipar a D2 em contextos de ampla disponibilidade da vacina Astrazeneca ou da Pfizer.”
VARIANTE DELTA: ENTENDA A DIFERENÇA DESTA PARA OUTRAS CEPAS
De acordo com o estudo que teve participação de pesquisadores ligados à Organização Mundial de Saúde (OMS) e ao Imperial College, a variante delta tem transmissibilidade 97% maior do que a cepa original do coronavírus, que teve origem na China.
Os pesquisadores identificaram uma “clara vantagem competitiva” da cepa originária da Índia em comparação com as outras mutações da Covid-19. Todavia, até então, as vacinas já desenvolvidas contra Covid-19 são eficazes contra a variante indiana.
Além de mais transmissível, uma das preocupações das autoridades de saúde é que os novos sintomas da variante delta são muito semelhantes ao de um resfriado comum, como coriza e dor de garganta. Por conta disso, muitos sequer percebem que estão com Covid.