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Sete a cada dez capixabas inscritos no CadÚnico estão sem emprego

Sete a cada dez capixabas inscritos no CadÚnico estão sem emprego

Levantamento do Instituto Jones revela que apenas 30,5% da população em idade ativa mais pobre do Espírito Santo está ocupada, com forte presença de informalidade e baixa escolaridade

Pedro Paulo Rocha

Residente em Jornalismo / [email protected]

Publicado em 19 de setembro de 2025 às 14:05

Divulgação IJSN
Divulgação IJSN Crédito: IJSN

No Espírito Santo, o desemprego é uma das causas mais visíveis da pobreza. O estudo “Perfil da Pobreza no Espírito Santo: Famílias inscritas no CadÚnico", elaborado pelo Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), publicado em agosto de 2025, revela que 69,5% da população em idade ativa inscrita no CadÚnico está desocupada. Na prática, isso significa que 7 em cada 10 pessoas em situação de vulnerabilidade não têm trabalho. Mas quais são as causas que dificultam o acesso dos mais vulneráveis aos empregos?

A pesquisa aponta que entre os fatores que dificultam o acesso dos mais pobres ao mercado de trabalho estão a baixa escolaridade, a sobrecarga feminina na chefia das famílias, o predomínio da informalidade e as desigualdades regionais na oferta de empregos.

Sobrecarga feminina limita acesso ao trabalho

Segundo o diretor de Integração e Projetos Especiais do IJSN, Antônio Rocha, o resultado reflete um problema estrutural da sociedade brasileira. “Mais de 80% dos responsáveis por famílias inscritas no CadÚnico são mulheres. Elas acumulam funções: cuidar dos filhos, da casa e, quando possível, buscar uma ocupação. Essa sobrecarga limita o acesso ao mercado de trabalho e ajuda a explicar a baixa taxa de ocupação”, afirma.

Aplicativo CadÚnico
Aplicativo CadÚnico Crédito: Foto: Leonardo Bosisio/g1

Afinal, o que é o CadÚnico?

O Cadastro Único para Programas Sociais do governo federal (CadÚnico) é a principal ferramenta de identificação das famílias brasileiras em situação de pobreza e extrema pobreza. Nele, são registradas informações sobre renda, escolaridade, condições de moradia, trabalho e composição familiar. Esses dados servem de base para a seleção e a inclusão em políticas sociais, como o Bolsa Família, a Tarifa Social de Energia Elétrica e o Benefício de Prestação Continuada (BPC). O cadastro é feito pelas prefeituras, por meio dos Centros de Referência de Assistência Social (Cras), e precisa ser atualizado a cada dois anos ou sempre que houver mudanças na realidade da família.

Diferenças regionais

As disparidades regionais aparecem nos resultados do levantamento. No Noroeste capixaba, municípios como Mantenópolis (82,6%) e Água Doce do Norte (82,0%) concentram as maiores taxas de informalidade do Estado, enquanto a ocupação entre inscritos no CadÚnico permanece baixa, em 39,6% e 44,0%, respectivamente. Já no Norte, cidades como Ponto Belo registraram a menor taxa de ocupação do Espírito Santo, com 19,2%.Em contrapartida, as regiões Central e Sul apresentam índices mais favoráveis. Em Itarana, por exemplo, 45,4% da população em idade ativa do CadÚnico está ocupada, o maior percentual do estado.

De acordo com Rocha, “As regiões do norte do estado demonstram menor dinamismo econômico, com maior prevalência de ocupações informais e menor desenvolvimento. Já as regiões central e sul, com maior oferta de empregos nos setores de serviços e comércio, apresentam taxas de ocupação mais elevadas.”

Falta de estudo fecha portas

A baixa escolaridade também pesa. De acordo com o levantamento feito pelo IJSN, entre a população inscrita no CadÚnico, as pessoas com 25 anos ou mais têm em média apenas 6,7 anos de estudo, ou seja, não chegam a concluir nem o ensino fundamental. Para o diretor, isso reduz as chances de conseguir uma vaga formal e, quando conseguem, a maioria fica restrita a trabalhos de baixa remuneração.

Entre os trabalhadores ocupados, 35,3% concluíram no máximo essa etapa escolar. O dado reforça a dificuldade de competir por vagas qualificadas, geralmente voltadas a quem tem ensino médio ou superior:

Menor escolaridade significa menor chance de inserção no mercado, e quando ela ocorre, costuma ser em atividades mais precárias

Antonio Rocha

Diretor de Integração e Projetos Especiais do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN)

Ocupação precária e desigualdade

A realidade ainda é marcada pela precariedade. O estudo aponta que 46% da população ocupada no CadÚnico está na informalidade. Segundo ele, essa diferença reflete a ausência de empregos formais em áreas menos desenvolvidas e o peso de atividades sazonais e agrícolas, que concentram a maior parte das vagas disponíveis para a população vulnerável.

Além das questões relacionadas ao mercado de trabalho, o estudo também analisa as condições de infraestrutura das famílias inscritas no CadÚnico. Entre os domicílios dessa população, 26,2% não têm acesso a esgotamento sanitário adequado, 15,7% não contam com abastecimento de água adequado e 8,8% não possuem coleta de lixo regular.

Consequências sociais

Para Antonio, a soma de fatores, como baixa ocupação, informalidade e pouca escolaridade, revela uma pobreza multifacetada, que não se limita à renda. O impacto é profundo: maior dependência de programas sociais, pressão sobre os serviços públicos e a manutenção de um ciclo que se passa de pais para filhos.

A longo prazo, a falta de oportunidades e a baixa qualificação profissional perpetuam um ciclo de pobreza intergeracional. Se nada for feito, essa realidade tende a se repetir nas próximas gerações

Antonio Rocha

Diretor de Integração e Projetos Especiais do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN)

Caminhos possíveis

O estudo do IJSN reforça que a combinação entre baixa escolaridade, predomínio da informalidade e carência de infraestrutura básica cria barreiras que impedem a mobilidade social da população inscrita no CadÚnico.

Antonio ainda destaca que a reversão do quadro exige políticas públicas que combinem formação e oportunidades. “O acesso à educação de qualidade desde a infância e a abertura de caminhos para o emprego formal são fundamentais para quebrar o ciclo da pobreza e permitir que essas pessoas alcancem uma vida mais digna.”

Este conteúdo é uma produção do 28º Curso de Residência em Jornalismo. A matéria teve edição de Mikaella Campos, editora do Núcleo de Reportagens de A Gazeta; e Fernanda Dalmacio, editora-adjunta

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