Em um intervalo de meras horas, economias no mundo inteiro foram afetadas depois que a Rússia decidiu invadir e bombardear cidades na Ucrânia, após dias de tensão entre os dois países, e mais de quatro meses de crise com o Ocidente. Não é diferente para o Brasil, que, na manhã desta quinta-feira (24), já sente os primeiros efeitos do conflito. A Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira, a B3, abriu o pregão com queda de 2%.
Mesmo a um continente de distância, a guerra também pode afetar o Espírito Santo, que, no curto e médio prazo, pode sofrer com as oscilações do mercado e ter seu crescimento econômico freado diante das incertezas, que devem manter as taxas de juros elevadas e aumentar a pressão inflacionária. São esperados impactos nos preços de combustíveis, alimentos como derivados de trigo, milho e soja, bem como no preço das aves, cuja ração deve ficar mais cara. Custo de produção das indústrias também deve subir. O cenário pode impactar na produção, nos investimentos e também na geração de empregos.
É a maior crise militar na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, encerrada em meados da década de 1940. E embora as razões para o conflito ainda sejam incertas — a Rússia alega buscar "desmilitarizar e desnazificar" a Ucrânia, um ato que ocorre justamente no momento em que a rival tenta ingressar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) —, seus desdobramentos são os mais diversos.
Em entrevista à TV Gazeta, o economista Antônio Marcus Machado observou que são três impactos principais na economia. O primeiro deles, que já vem sendo observado, é a oscilação do dólar, que pode subir nos próximos dias, interrompendo a trajetória de queda observada recentemente. Com isso, são esperados aumentos de preços dos produtos dolarizados, e consequente elevação da inflação, e das taxas de juros. Como efeito secundário, é possível que haja uma desaceleração no ritmo de investimentos e também na geração de empregos.
'"Por causa da aversão ao risco, os investidores devem tirar dólar do país num momento que estava entrando. Além de outros efeitos, no caso do Espírito Santo, que é um importador e exportador, isso também pode causar um impacto. Outra campo afetado é o petróleo. A Rússia é a segunda maior produtora de petróleo do mundo, e isso impacta nos combustíveis de modo geral. E existe ainda um terceiro impacto, que é no preço dos alimentos. É uma situação muito grave do ponto de vista econômico."
PETRÓLEO E GÁS, ROYALTIES E PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS
A cotação do barril de petróleo no mercado internacional superou, nesta quinta (24), os US$ 100 pela primeira vez em mais de sete anos. A Rússia é um dos principais produtores de óleo no mundo, e o conflito afeta os preços, inclusive porque, em um esforço para isolar o país e tentar dissuadi-lo da invasão ao território ucraniano, Estados Unidos e países da União Europeia colocaram uma série de sanções aos produtos de origem russa.
É o mesmo caso do gás natural. Cerca de 44% do gás importado pela União Europeia vem da Rússia. Uma eventual interrupção do comércio euro-russo forçaria os países europeus a buscar energia em outra parte.
“A consequência mais imediata desse conflito para a economia do Espírito Santo acontece por conta disso, porque o Estado está muito exposto às oscilações das cotações de óleo e gás por conta das indústrias, que podem ter um aumento de custo de produção”, observa o economista Pedro Lang, da Valor Investimentos.
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O especialista observa que, um segundo efeito disso é que Estado e municípios podem ser beneficiados caso as commodities se mantenham em um patamar elevado, por conta das receitas advindas de royalties e participações especiais ligados a petróleo e gás. Mas a queda do poder de compra com a pressão inflacionária e a alta dos juros podem neutralizar esse efeito.
O ponto também é destacado pela economista Arilda Teixeira, que considera, porém, que essa elevação de receitas não contrabalanceia os efeitos negativos sobre a produção industrial.
“Esses insumos naturais são usados para produzir. As indústrias que os utilizam não vão recebê-los, ou vão recebê-los em pouca quantidade, e o preço vai subir. As receitas do Estado sobem, mas o custo de produzir sobe também, então não há vantagem nenhuma, em termos de impulsionamento da economia. Era melhor ter continuado mais baixo, com as atividades seguindo, do que no cenário instável atual.”
Já o economista Eduardo Araújo destaca que o consumidor comum também deve sentir os impactos desse conflito, por meio de elevações no preço dos combustíveis, que têm seu preço atrelado ao à cotação do barril de petróleo e ao preço do dólar, que vinha apresentando tendência de queda nas últimas semanas, mas deve oscilar diante dos embates.
“São várias questões ligadas a isso. Temos que lembrar também das receitas fiscais do Estado e dos municípios, mas a primeira coisa tem a ver com o preço de combustíveis, e estamos falando de consumidores pagando por uma gasolina provavelmente mais cara, e isso reflete também no frete dos produtos, que tende a encarecer.”
PREÇO DOS ALIMENTOS
Muito além dos combustíveis e da energia, a guerra também pode afetar o preço dos alimentos de origem agrícola e também da avicultura.
Juntas, Ucrânia e Rússia exportam cerca de 30% do trigo comprado por outras partes do planeta. Além disso, A Ucrânia é um dos maiores exportadores mundiais de grãos e óleos vegetais e um importante exportador de milho, conforme observou o sócio-fundador da Pedra Azul Investimentos, Lélio Monteiro.
“No caso do Estado, temos diversos setores econômicos do agronegócio que dependem do mundo para receber a soja, apesar de estarem espalhados. A grande commodity da Ucrânia é o trigo, mas em substituição, a soja e o milho acabam sendo impactadas com aumento de preços. E isso aumenta a inflação dos produtos derivados, mas também a cadeia produtiva de aves, ovos, etc., que é algo forte no Espírito Santo. Milho é essencial para a alimentação dos animais.”
O economista Eduardo Araújo lembra ainda que a Rússia é uma grande produtora de fertilizantes, e que isso também pode afetar a produção agrícola, que necessita dos insumos para produzir.
A economista Arilda Teixeira observa que queda na oferta de alimentos é um problema improvável, e dependeria de a situação ser muito mais grave que no momento. Entretanto, em termos de custo, o impacto é inevitável. Podem ser esperados impactos em alimentos como carne de aves, ovos, óleo de cozinha, trigo, pães, massas, entre outros.
“As commodities vão subir, e como são insumos para produzir, o custo de produção vai aumentar. Como consequência, a inflação também sobe e o consumidor paga mais caro.”
TAXAS DE JUROS E INFLAÇÃO
“O Federal Reserve (Fed), banco central americano, por exemplo, já avisou que os juros vão subir. No caso do Brasil, a gente já tem uma taxa de juros que acabou subindo antes dos juros do resto do mundo, então vamos ter que ver qual será o real o reflexo desse conflito na inflação para fazer qualquer previsão mais clara sobre os juros. Eu diria que ainda é muito cedo para fazer previsões.”
Já o economista Eduardo Araújo considera que as taxas não devem cair tão cedo, e que embora seja difícil precisar qual será o impacto final, qualquer elevação nas taxas de juros, combinada à alta da inflação, cria uma situação menos favorável ao crescimento econômico do país, e, também, do Espírito Santo, cuja economia vinha crescendo acima da nacional nos últimos trimestres.
A depender dos rumos do conflito, empresas podem reduzir o ritmo de investimentos, o que, consequentemente, desacelera a geração de empregos e pode afetar também a geração de riquezas pelo Estado.
“Os impactos podem ser desiguais, alguns setores sofrendo mais que outros. Investimentos na indústria podem ser adiados, mas a agricultura pode se beneficiar com os preços mais elevados. O comércio talvez sofra um pouco, se pensarmos na perspectiva de preços mais elevados com o consumidor sofrendo ainda com a renda.”