Repórter / [email protected]
Publicado em 30 de março de 2026 às 09:58
Desde o início do conflito de Estados Unidos e Israel contra o Irã, o preço do petróleo tem flutuado de acordo com o andamento da guerra. Logo após o bombardeio, iniciado em 28 de fevereiro, a cotação do tipo brent subiu entre 10% e 15% em um único dia, ultrapassando US$ 100 pela primeira vez em quatro anos. Nesta segunda-feira (30), 32 dias depois, o valor da commodity atingiu um novo ápice: US$ 115.>
O cenário foi provocado pelo agravamento da guerra no Oriente Médio, com cortes de produção por grandes países do Golfo Pérsico e restrições no Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa 20% da produção mundial de petróleo. >
Mas como essa alta do petróleo está relacionada ao dia a dia do morador do Espírito Santo? Segundo economistas, a manutenção desse fenômeno pode gerar um efeito cascata na economia do país, impactando o custo de vida das famílias capixabas e brasileiras em geral. Além da gasolina e do diesel, esses ajustes nos preços têm impacto indireto nos gastos com alimentação e até energia elétrica.>
A economista Érika Leal lembra que a matriz brasileira é dependente do petróleo. "Não apenas diretamente nos postos de combustíveis perceberemos os aumentos da gasolina, mas o aumento do preço do petróleo perpassa toda a economia. Os custos de produção crescem, as despesas com fretes se elevam e os custos e as despesas são repassados aos consumidores. Por esse motivo, os choques externos, como aumento nos preços de petróleo, podem acelerar a inflação", explica.>
>
O economista Eduardo Araújo destaca que os bloqueios no Estreito de Ormuz têm provocado uma reação do mercado global. Ele lembra que esse problema significa redução da oferta global de petróleo e aumento dos custos de transporte.>
"O impacto no bolso aparece por alguns canais bem claros. O primeiro é o mais visível: combustíveis e passagens tendem a subir de preço rapidamente. O segundo é indireto e costuma ser mais importante. Diesel mais caro encarece o frete e se espalha para alimentos, produtos industriais e compras do dia a dia", detalha.>
Há outro setor impactado: o agronegócio. Araújo lembra que o Brasil depende fortemente de fertilizantes importados. Em 2025, cerca de 41% da ureia comprada pelo país passou pelo Estreito de Ormuz. "Choques nessa rota, portanto, também podem pressionar custos da produção agrícola", ressalta.>
O economista Ricardo Paixão, presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES), explica que o impacto mais imediato tende a aparecer nos combustíveis, como gasolina, diesel e gás de cozinha. Ele lembra que o Brasil, mesmo sendo grande produtor de petróleo, ainda sofre influência direta das cotações internacionais, visto que os preços domésticos acompanham o mercado global.>
"Se o petróleo se mantém elevado por um período prolongado, aumenta a pressão para reajuste nos combustíveis. Isso afeta o custo de mobilidade das famílias e também o custo de operação das empresas, especialmente o transporte de carga, o que pode afetar o preço dos alimentos, porque vêm em transporte rodoviário. Então, o diesel subindo impacta diretamente no preço dos alimentos e de outros produtos", pontua.>
Outro ponto destacado por Paixão é que, como o petróleo é matéria-prima para uma série de produtos da indústria química e petroquímica, a alta do tipo brent pode pressionar o preço do plástico, de fertilizantes, embalagens, produtos de limpeza, cosméticos e até medicamentos.>
Sobre o tempo que essa escalada nos preços pode demorar para chegar ao consumidor, Paixão estima que, no máximo, em uma semana os reajustes podem começar a ser sentidos na ponta final.>
"Por enquanto, os estoques atuais foram comprados com preços anteriores. Agora, com essa alta, e isso permanecendo, no máximo em uma semana devemos estar com o preço se alterando. A situação é muito difícil e a gente espera que esse conflito se atenue porque brevemente vamos ver as altas chegando ao consumidor final", destaca. >
O que é mais impactado
► Combustíveis: o impacto imediato é nas bombas. No Brasil, cada 1% de alta no petróleo pode elevar a inflação oficial calculada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 0,02 ponto percentual.
► Alimentos: o custo para produzir (tratores e fertilizantes derivados de petróleo) e transportar comida aumenta, repassando a alta para o supermercado.
► Aviação: o combustível (QAV) responde por cerca de 40% dos custos das aéreas. Passagens tendem a ficar mais caras.
► Indústria petroquímica: plásticos e resinas dependem da nafta (derivada do petróleo). Se o barril subir muito, esses produtos podem encarecer entre 15% e 25%.
► Fretes e Logística: como o diesel move 65% das mercadorias no país e representa até 40% dos custos operacionais das transportadoras, o frete sobe quase instantaneamente.
► Energia elétrica: em períodos de seca, o uso de termoelétricas movidas a combustíveis fósseis torna a conta de luz mais cara.
► Energia industrial: muitas fábricas ainda utilizam caldeiras movidas a óleo combustível ou dependem de energia térmica para processos de alta temperatura. A alta do petróleo encarece diretamente a conta de energia do parque fabril.
► Insumos químicos: produtos de limpeza, tintas, cosméticos e tecidos sintéticos (como o poliéster) são derivados diretos ou indiretos do refino. Isso gera um reajuste de preços que chega ao consumidor final meses após a alta do barril.
► Fertilizantes e defensivos: a produção de fertilizantes nitrogenados (como a ureia) é intensiva em gás natural e derivados de petróleo. Uma alta no setor fóssil encarece o insumo antes mesmo da semente ir para o chão.
► Maquinário e operação: o diesel é o maior custo variável de uma fazenda. Plantio, colheita e pulverização dependem de tratores e colheitadeiras que consomem grandes volumes de combustível.
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta