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Morte de idosos por Covid-19 impacta finanças das famílias
Morte de idosos por Covid-19 impacta finanças das famílias. Crédito: Pixabay

Morte de idosos na pandemia empurra famílias para a pobreza no ES

Além do drama humano e sanitário, a morte de pessoas com mais de 60 provoca um rombo nas contas das famílias, principalmente das mais pobres

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 08/06/2021 às 02h00

Os idosos são as principais vítimas do coronavírus desde o início da pandemia. Contudo, muitas vezes, a perda de um pai ou avô, além do impacto emocional, é devastador para as finanças das famílias. Segundo especialistas, além do drama humano, essas mortes geram danos econômicos e contribuem para colocar mais lares em situação de vulnerabilidade.

No Espírito Santo, até 24 de maio, quase oito mil pessoas com mais de 60 anos perderam a vida para a Covid-19, segundo dados da Secretaria de Saúde do Espírito Santo (Sesa). Esse número representa 1,3% de todos os idosos vivendo no Estado.

Considerando a média para o Estado, um em cada quatro estava na força de trabalho, 75% recebia aposentadoria, mais de 83% não morava sozinho e cerca de 16,6% viviam com crianças em idade escolar.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), a média de renda dos idosos (60+ anos) no Estado é de R$ 2,5 mil. A segunda maior entre todas as faixas de idade. Por isso, quando essas pessoas morrem, muitas vezes essa renda simplesmente para de chegar e reflete fortemente no orçamento doméstico.

"Principalmente em arranjos familiares que têm como principal responsável pessoas na terceira idade e não podem mais contar com essas pessoas, há redução da renda dessas famílias. Em alguns casos, dependendo do nível da renda, se o idosos era a única fonte de renda, ela pode passar a ter necessidades básicas”, aponta o diretor de Integração e Projetos Especiais do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Pablo Lira.

Ele lembra que por mais que o idoso tenha algum tipo de pensão ou seguro que que possa ser eventualmente transferido, ainda que de forma parcial para seus descendentes, leva tempo até que eles consigam alcançar esses benefícios.

EM 60% DOS LARES, RENDA DO IDOSO É MAIS DA METADE DA RENDA FAMILIAR

Segundo estudo da pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Ana América Camarano, em 60,8% dos domicílios com idosos ou em 20,6% do total dos domicílios brasileiros, a renda do idoso é responsável por mais de 50% da renda familiar.

Mais da metade dessa contribuição vem da seguridade social, ou seja, uma renda relativamente segura e fixa, em relação àquela que vem do salário, principalmente em um momento como o atual, com alto grau de desemprego.

“Grande parte dos trabalhadores vive de trabalhos informais, que muitas vezes não rendem um salário mínimo. O idoso, como tem renda de pelo menos um salário, eleva a renda dessa família como um todo. Por isso essas mortes são muito preocupantes. O impacto na renda das famílias mais pobres é drástico. Certamente contribui com aumento da pobreza e da fome que observamos nas pesquisas”, avalia o geógrafo e demógrafo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Ednelson Dota.

Ele afirma ainda que essa situação evidencia a importância da população idosa, que muitas vezes é negligenciada. Constantemente, pessoas de mais idade são vistas pela população e até por alguns gestores públicos como um “peso”, uma despesa a mais, mas essa noção não se confirma quando analisadas as estatísticas.

É consenso entre pesquisadores que a universalização da Seguridade Social no Brasil, introduzida pela Constituição de 1988, diminuiu a pobreza entre idosos e beneficiou indiretamente os não-idosos.

“Quando olhamos dados da Pnad (Pesquisa Nacional dos Domicílios, do IBGE) ou do Censo, o que se percebe é o contrário. Há um grande número de famílias que têm a renda do idoso como parte importante da renda daquela casa e por isso a alta mortalidade por conta da Covid deve estar tendo impactos importantes no rendimento desses lares”, diz.

Lira afirma que esse impacto também é importante para famílias de classe média, principalmente em um momento de grave crise econômica, que gera desemprego, e de alta inflação, que aumenta os custos dos insumos mais básicos, como alimentos.

“É um grupo que já vinha com perda de potencial de consumo e, quando perde parte da fonte de renda, os outros membros terão que buscar um reposicionamento no mercado, fontes de renda complementar, e sabemos que muitas não conseguem repor aquela renda do idoso que faleceu num curto espaço de tempo. Por isso, famílias consideradas de classe média podem ir para uma situação de pobreza em que não se encontravam antes”, analisa.

QUASE R$ 110 MILHÕES A MENOS NA ECONOMIA DO ES

A perda de idosos na pandemia e o consequente empobrecimento das famílias leva a uma reação em cadeia que afeta toda a economia visto que esse dinheiro para de circular.

Considerando a renda média dessa população, segundo a Pnad, e o número de pessoas acima de 60 anos mortos nos 13 meses de pandemia, houve perda potencial de R$ 109,6 milhões para a economia do Espírito Santo.

“Sob o ponto de vista macroeconômico, essa quantidade de vítimas da Covid-19 no Brasil - 450 mil pessoas até o momento - além do luto das famílias, do sofrimento, você tem perda de produção, de geração de renda e de consumo no país. Há um encadeamento de efeitos negativos na economia”, afirma o diretor do IJSN.

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