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Cristhine Samorini, presidente eleita da Findes
Cristhine Samorini, presidente eleita da Findes
Cristhine Samorini

"Faltam mulheres entre as lideranças empresariais"

Cristhine é a primeira mulher a comandar a Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e a terceira a representar o setor industrial no país

Cristhine Samorini, presidente eleita da Findes
Publicado em 11/07/2020 às 11h52
Atualizado em 11/07/2020 às 11h52

Após 60 anos de história, a Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) terá a primeira mulher na cadeira da presidência. O posto vai ser ocupado pela empresária Cristhine Samorini,  de 41 anos, que terá como desafio contribuir para a recuperação das empresas do setor afetadas pelo novo coronavírus.

Segundo ela, as indústrias nacional e capixaba vão precisar encontrar saídas para compensar o grande prejuízo causado pela Covid-19 e que o cenário pós-pandemia vai exigir das companhias redução de custos, aumento da eficiência, inovação e transformação digital. 

Para empresária, os desafios nacionais são gigantes e o que está em jogo é a sobrevivência de muitos negócios. "As indústrias do Brasil deveriam estar muito mais à frente do que estão. A gente aqui ainda está discutindo saneamento básico, enquanto na Alemanha se debate indústria 4.0, Big Data… Estamos com uma agenda do século XIX em pleno século XXI."

Inserida em um ambiente com predominância masculina, Cristhine diz que chama a atenção o pouco número de mulheres à frente das empresas. "Em cargos de gerência e de supervisão, a gente já superou bem, mas ainda faltam mulheres nas lideranças industriais, nas presidências e isso tem me incomodado mais porque nós, mulheres, temos muito a contribuir."

Cristhine é diretora comercial há mais de 20 anos da Grafitusa, empresa de sua família que completou 100 anos de existência em maio. Eleita em abril, tomará posse no dia 29 de julho – último dia da gestão do atual presidente, Léo de Castro.

Confira a entrevista:

Como está sendo este momento de transição, faltando poucos dias para assumir a presidência da Findes?

Nosso plano de construção da candidatura começou há um ano e em nenhum momento previ um cenário tão desafiador como o que estamos vivendo e vamos atravessar. A economia vinha num cenário de crescimento, com ajustes necessários sendo feito de forma positiva e a nossa conversa era sempre pensando no desenvolvimento para o futuro, não para combater uma interrupção como essa. Mas como me disse o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) [Robson Braga de Andrade] não devemos esperar que nada pior vá acontecer – nós já estamos no extremo de uma situação ruim.

E quais vão ser os principais desafios à frente da federação?

Acredito que o maior desafio vai ser reavaliar o cenário industrial pós-pandemia. A gente tem feito um acompanhamento bem de perto com as empresas e temos visto que vai ser necessário reduzir custos, aumentar a eficiência, inovar, fazer uma transformação digital. A indústria brasileira tem perdido competitividade.

Falando especificamente do momento que estamos vivendo, a cada 10 indústrias, 9 sofreram algum tipo de impacto com o coronavírus – seja queda de receita, mudança de modelo de negócio. Então vai ser preciso discutir a sobrevivência das indústrias e as indústrias do Brasil deveriam estar muito mais à frente do que estão. A gente aqui ainda está discutindo saneamento básico, enquanto na Alemanha se debate indústria 4.0, Big Data… Estamos com uma agenda do século XIX em pleno século XXI.

E quais devem ser a ações dos governos federal e estadual para auxiliar no desenvolvimento dessa agenda industrial?

Uma das prioridades deve ser a aprovação da PL do Gás [que altera o marco regulatório]. Isso tende a dar um reforço importante para que as empresas retomem a competitividade. Tem a questão da reforma tributária que o Paulo Guedes [ministro da Economia] prometeu que sai ainda este ano. A gente precisa trabalhar forte nas agendas de concessão e privatização.

A gente aqui no Estado tem uma grande chance de passar por essa pandemia e se tornar um piloto, assumindo vários protagonismos – tem previsão para a instalação de portos aqui no Espírito Santo e isso é muito importante. Temos a cabotagem para o transporte de produtos pela “BR do Mar” que o governo federal quer criar. Tudo isso ganhará uma atenção maior depois que a gente passar dessa parte mais intensa da pandemia.

Nós precisamos desenvolver a nossa infraestrutura. Tem muitos projetos para acontecer e só com eles vamos conseguir aumentar a nossa competitividade e aproveitar o que o Estado tem como grande potencial.

As indústrias estão se preparando para conviver mais tempo com o vírus?

Como aqui no Estado não tivemos nossas atividades interrompidas, nós fizemos um apoio importante enquanto sistema. Nós criamos, junto às indústrias, os protocolos para evitar o contágio e para que as atividades não fossem paralisadas. Isso foi muito bem aceito.

A gente acredita que esse momento não vai passar nos próximos seis meses, então os protocolos estão sendo tratados como algo que precisa ser implementado, mas que deverá ser utilizado de forma contínua. Após esse momento, mais que nunca, haverá um olhar diferenciado para a questão da saúde.

Como avalia as ações de isolamento adotadas pelo Estado e municípios?

Eu só entrei nessa agenda após a campanha [a eleição da Findes aconteceu no dia 30 de abril, já em meio à pandemia e medidas de isolamento social] e desde que comecei a participar dos debates vi a preocupação em se dialogar com os atores. Nada que foi feito pelo governo estadual foi feito sem diálogo. Acredito que tudo foi feito de forma coerente para mantermos o controle da saúde dentro do possível.

Cristhine, você é a primeira mulher à frente da Findes em 60 anos. O que isso significa?

Teve um momento, durante a campanha, que eu não quis dar muita importância para este tema. Sei que serei avaliada pela minha entrega e não por ser mulher ou homem. Mas as atribuições que a mulher carrega têm muito a contribuir neste momento – diálogo, construção, entender, ouvir… e tenho percebido que isso tem despertado uma atenção maior das pessoas.

Durante a campanha eu não queria que isso fosse utilizado de forma apelativa, como uma muleta, mas é importante que tenhamos novos personagens olhando por novas perspectivas.

Mas o ambiente industrial é majoritariamente masculino e durante eventos na própria Findes é possível ver como são poucas as que participam.

E você sabe que isso tem me incomodado bastante? Isso sempre fez parte da minha vida, sempre convivi num ambiente masculino e fui conquistando meu espaço e sei o quanto foi necessário eu ter capacidade técnica para debater os assuntos do meu setor – o gráfico. E esse ambiente masculino nunca me deixou inibida a participar dos eventos.

Agora eu vou nos eventos e olho ao redor e só tem uma mulher e ela não está sentada na mesa. Então percebo que há um distanciamento grande das lideranças. Em cargos de gerência de supervisão a gente já superou bem, mas ainda faltam mulheres nas lideranças industriais, nas presidências e isso tem me incomodado mais porque nós, mulheres, temos muito a contribuir.

Para você ter ideia, eu sou a única presidente mulher de Federação no Brasil. Na história, só duas passaram e não concluíram o mandato. Mas estou tendo uma ótima recepção, não posso deixar de falar isso.

Vão ser feitas mudanças na equipe?

Eu estou sucedendo uma gestão bem estabelecida, bem construída. Os ajustes são pequenos, mas passaremos a trabalhar com um Conselho e com um diretor-executivo. Nós vamos implementar o Conselho e contratamos um headhunter para ajudar na contratação do diretor-executivo. Chegamos a cinco finalistas, agora reduzimos para três e acredito que na terça-feira (14) já tenhamos esse nome.

Estamos revendo algumas diretrizes porque fizemos boas entregas na atual gestão, mas agora o cenário mundial é outro, o momento de consumo é outro. Vamos elaborar também um plano de 100 dias com entregas importantes para não perder o ritmo. Tenho falado aos executivos “Não é porque mudou a presidência que vamos perder o ritmo”.

Já foi filiada a algum partido? Já teve alguma pretensão política? O que pensa sobre reeleição na Findes?

Falei que essa campanha me deixou preocupada. Nunca tinha me candidatado a nada, nem pretendo me candidatar novamente. Nunca fui filiada a partido político e agora vou seguir mais apartidária que nunca.

E sobre reeleição, um dos fatores que eu considerei muito foi que existe tempo certo para cada coisa. Minha trajetória é como empresária, gosto do que faço e quero continuar sendo empresária. Não tenho como ficar tão ausente, tão dividida por mais que três anos. A gente começa a perder um pouco a temperatura do mercado. A gente tem um tempo para contribuir na presidência, acredito na renovação e reeleição não é a minha intenção.

Quando é a sua posse e como ela vai ser?

Vai ser no dia 29 de julho, que é o último dia da gestão do Léo de Castro. Vamos fazer uma posse virtual, comigo, com o Léo, com o governador, o presidente da CNI deve participar de forma remota e vamos fazer uma transmissão virtual. Vai ser uma posse de trabalho e vamos respeitar o momento. Não queremos que seja interpretado como algo festivo.

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