Em um cenário ideal, quando a população de um local cresce, a produção de riquezas na região também aumenta. Mas o Espírito Santo tem ido na contramão dessa lógica nos últimos anos. Em uma década, o PIB (Produto Interno Bruto) por morador do Estado foi o que mais encolheu no país, acumulando uma queda de 21% entre 2010 e 2020.
Os dados são do Ipea Data, que aponta, aliás, que sem a correção pela inflação e tendo como base os valores de 2010, o Espírito Santo produzia em 2020 R$ 14.940 por habitante. Dez anos antes, a soma equivalia a R$ 18.880. O ápice da década foi 2012, quando a cifra atingiu R$ 22.940. Apesar das oscilações, segue uma trajetória de queda desde então.
Das 27 unidades da federação, 13 Estados apresentam recuo no PIB per capita no período, entretanto, é em território capixaba que a perda é mais perceptível. Uma das explicações para isso, segundo economistas, está no peso que atividades ligadas a petróleo e gás, bem como à mineração, têm na economia local.
O economista Eduardo Araújo pontua que o Estado lidou com vários “cisnes negros” durante o período em questão. É um termo utilizado por especialistas da área para tratar de acontecimentos imprevisíveis e raros, que acabam afetando a economia.
“A economia capixaba caiu 21%, quando, mesmo no pior cenário previsto para o período, imaginava-se que, ainda assim, teríamos algum crescimento. Ninguém previa esses eventos, esses cisnes negros. Tivemos, por exemplo, a questão do rompimento de barragens em Minas Gerais, primeiro em Mariana, depois Brumadinho, que afetou fortemente nossa economia. Além disso, tivemos nesse período uma mudança nas regras do Fundap, que resultou em perdas para a economia capixaba, pois a atividade logística foi afetada. E tivemos a pandemia, que não afetou só o Estado, mas todo o mundo.”
Araújo observa que, quando acontecimentos com desdobramentos na economia global acontecem, o Espírito Santo acaba sendo um pouco mais impactado do que outros locais por conta da forte conexão com o comércio internacional.
“Também tivemos, aliado a isso, um menor dinamismo da indústria do petróleo, principalmente a partir de 2015. Tivemos queda no preço, que foi acompanhada por queda em novas explorações. Perdemos a segunda posição como maior produtor e passamos ao terceiro lugar, e isso tudo tem um impacto. A produção de riquezas não acompanhou o crescimento da população nem o crescimento dos preços”, avalia.
O economista Ricardo Paixão destaca que o avanço populacional também é um fator importante a ser considerado. Se o PIB fica estagnado, ou apresenta queda, mas a população continua crescendo, o PIB per capita, que é o recorte por habitante, diminui.
“Estamos vendo um PIB bem abaixo do previsto para os últimos anos e, ao mesmo tempo, tivemos crescimento da população. Não é que estamos vivendo um boom populacional, é um crescimento estável, mas passamos por um período longo de encolhimento do PIB, então há um desequilíbrio.”
Ele frisa ainda que o crescimento populacional não está necessariamente ligado à taxa de fecundidade, mas também ao fluxo habitacional, isto é, de pessoas que viviam em outros Estados, mas acabaram migrando para o Espírito Santo, para estudar ou trabalhar.
“É um Estado que se destaca por alguns motivos, como as contas organizadas, a qualidade de vida, as cidades litorâneas e diversos outros pontos. É um polo atrativo para que as pessoas saiam dos seus Estados e venham para cá para poder morar, trabalhar. Isso também faz com que a gente tenha um crescimento vegetativo da taxa populacional, e como o PIB não tem apresentado uma trajetória ascendente, esses aspectos populacionais têm muito a explicar em relação ao encolhimento do PIB per capita.”