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Walter Longo
Empresas precisam trocar monólogo por diálogo
Publicitário fará palestra no evento de lançamento do Marcas de Valor, na Rede Gazeta, na segunda-feira (14)

Vinícius Valfré

Publicado em 13 de Outubro de 2019 às 07:00

Publicado em

13 out 2019 às 07:00

Walter Longo é publicitário, administrador, consultor e tem feito publicações e conferências a partir da tese de que a Idade Média caminha para o fim. À primeira mirada, a ideia pode até parecer desconectada da realidade, mas o fato é que trata-se de conceito bastante consistente para abordar a maneira como as relações sociais, de consumo e tecnológicas se dão e ainda se darão no mundo.

O executivo, que tornou-se conhecido do público de massa como conselheiro de Roberto Justus no programa “O Aprendiz”, debate a transição da oferta de publicidade, produtos e serviços ditada por uma “média” do público alvo para experiências cada vez mais individualizadas. Daí a provocação sobre o fim da Idade Média e o início da Idade Mídia.

Considerado um dos maiores especialistas em comunicação do país, Walter Longo participa na próxima segunda-feira (14) do lançamento do Marcas de Valor, iniciativa da Rede Gazeta que calcula o valor das marcas mais admiradas no Espírito Santo. Este ano, na décima edição do projeto realizado desde 2009, haverá 24 segmentos pesquisados.

Como sócio da BBL, ele também tem se dedicado à indústria dos e-sports que define como um fenômeno por conta de envolver um público de esportes de massa e, ainda, possibilitar altíssimo engajamento dos consumidores. Confira a entrevista:

O senhor tem feito várias publicações e conferências trabalhando esses conceitos de Idade Média e Idade Mídia. Em que fase da transição de uma para outra estamos hoje?

Muita gente acredita que a Idade Média acabou em 1453, com a invasão de Constantinopla. Na verdade, está acabando só agora, na nossa geração. A razão de eu afirmar isso é que tudo na nossa sociedade até hoje é avaliado pela média da população. Na Medicina, o que é impera são os protocolos genéricos. Na área da educação, as aulas são dadas pela inteligência média dos alunos. Nos jornais, quando o jornalista faz um artigo, faz baseado no interesse médio dos leitores daquele jornal. Tudo o que fizemos foi sempre pela média. Agora, na Medicina, a genômica, já passou a ter protocolos individuais. A Educação à Distância já permite que cada um estude no seu ritmo individualmente. E na área do conteúdo, do jornalismo, se eu quiser saber qualquer coisa, vou tão fundo quanto quiser, individualmente. Só que algumas coisas ainda estão na Idade Média. O adimplente paga as contas do inadimplente. Eu, que pago as contas em dia, pago a conta de alguém que não paga. Quem se cuida na saúde paga a conta de quem enfia o pé na jaca. Se você pensar no seguro de automóvel, é a mesma coisa. Eu cuido do carro, deixo no estacionamento, ando devagar. E pago por quem não faz isso. O Cadastro Positivo é uma forma de cobrar juros de maneira diferenciada. Estamos no início do começo do princípio da Idade Mídia. Nessa nova era, todos nós estamos virando mídia.

Quando o senhor fala da personalização dos serviços comenta que ela acaba gerar um efeito de mimar a sociedade. Vê essa sociedade mimada como algo positivo?

Tudo na vida sempre tem um lado bom e um lado ruim. Para as empresas, por um lado, elas têm maior capacidade de falar individualmente com as pessoas, permitindo a sincronicidade, que é oferecer o que elas querem, no momento que querem. A desvantagem é que, em uma sociedade mimada, o consumidor está cada vez mais exigente. E as empresas têm que tomar cuidado ao se relacionar com as pessoas. Como exemplo: antes, todo mundo tomava o café no bule. Agora, toma o seu expresso, com 120 variedades. Antes, quem definia que o filme que eu ia assistir era a Globo. Agora, assisto o filme que eu quiser, quando quiser e onde quiser. Tudo está se individualizando cada vez mais. Antes, eu tinha que pegar uma bicicleta do Itaú na estação. Com a Yellow, pego onde quiser e deixo quando e onde quiser.

Elas se veem obrigadas a mudar a maneira como se comunicam e se relacionam?

O marketing estava sempre procurando a trabalhar com o sentimento, emocionar, atrair. Agora, tem que buscar o consentimento. E as pessoas vão consentir ou não. Essa é grande mudança exigida na forma como as empresas atuam em marketing. E como posiciona o mercado de mídia tradicional no meio de todas essas mudanças? Para essa indústria, varrida pela internet, é mais difícil do que para as demais? A mídia tradicional vai continuar sendo importante, só que vai ter que se integrar e mudar sua missão. Até hoje ela falava a mesma coisa para todo mundo. Uma propaganda do Ford Fusion, por exemplo. Ia para quem acabou de comprar um Hyundai, para quem não tem dinheiro para comprar um Fusion e para quem teve uma experiência ruim com Ford. Na idade mídia, temos que falar coisas diferentes para as pessoas. A mídia de massa continua importante para iniciar esse diálogo. Antes estávamos na área do monólogo, agora estamos na era do diálogo. E esse início do diálogo é feito pela mídia de massa. Depois de iniciado, outras ferramentas de marketing passam a atuar.

Isso não faz com que a publicidade fique mais cara e mais difícil?

O preço talvez fique mais alto, mas a capacidade de persuasão fica maior. É mais fácil vender quando sei o que você precisa do que quando não sei. E ferramentas digitais são baratas. Mandar um e-mail não custa nada. Pode ter muito mais resultado. Os custos da mídia de massa sobem pelo elevador e os resultados pela escada. Não estamos falando de forma sincrônica com as pessoas, com o consumidor.

Outra frente para a qual o senhor tem se dedicado é a de e-sports [esportes eletrônicos, jogos de computador e videogame que têm atraído milhões de jogadores e espectadores. Recentemente, Walter Longo tornou-se sócio e Chief Innovation Officer da holding de e-sports BBL]. O que outras indústrias podem aprender com essa?

E-sports são fenômeno per si. Tem crescimento explosivo. É uma nova onda no mundo. As pessoas jogavam vídeo game. De repente, passaram a assistir gamers, campeonatos. É um fenômeno que reunia milhares de pessoas e agora reúne milhões. No Brasil, tem 30 milhões que assistem regularmente e 84 milhões que jogam game. Na BBL, chegamos a ter mais de 1 milhão de pessoas assistindo a campeonatos. A diferença, ou a vantagem dos e-sports, é que permitem um volume de engajamento e que eu saiba individualmente quem está assistindo. Tenho informações exatas sobre quem é, o time que ele torce. E posso iniciar um diálogo. O game tem audiência de mídia de massa e capacidade interativa da mídia digital. Então, reúne o melhor dos dois mundos, o que é importante para as marcas que querem patrocinar esse mundo. E atinge os millenials, uma população mais arredia à mídia tradicional. Podemos atingi-los com muita capacidade e com custo baixo.

Há quem veja esse mercado com algum preconceito, talvez por pensar que ele é formado apenas por jovens com baixo poder aquisitivo. O que diria a quem pensa dessa forma?

É o contrário. Primeiro, o público é metade homem e metade mulher. Em segundo lugar, é possível atingir pessoas de 12 a 65 anos que jogam entre si. Nesse novo mundo mais globalizado, inclusivo, as pessoas não estão mais se unindo por idade, mas por identidade. Não temos mais a necessidade de continuar dividindo pessoas de geração Y, X ou Z. Temos que entender que surgem os perennials. São pessoas que têm enorme familiaridade com a tecnologia, gostam de ir fundo nos assuntos em que têm interesse, não entendem idade como forma de limitação do comportamento. Mulheres com 50 ou 20 anos se vestem com o mesmo tipo de roupa. Têm preocupação obsessiva por marcas que comem mais do que por marcas que vestem. Perennials são 17% da população, mas são 34% do potencial de consumo e o dobro disso na capacidade de influenciar a sociedade. Então, os e-sports atingem um público muito mais abrangente.

Quem é?

Walter é Publicitário e Administrador de Empresas com MBA na Universidade da Califórnia, é empreendedor digital, palestrante internacional e sócio-diretor da Unimark Comunicação. Ex-Presidente do Grupo Abril e Mentor de Estratégia e Inovação do Grupo Newcomm - holding de comunicação do Grupo WPP que inclui as agências Young & Rubicam, Wunderman, Grey Brasil, VML, entre outras. Sócio-fundador da primeira agência de Branded Content da América Latina, a Synapsys Marketing e Mídia, além de fundador e presidente da Abraforte.

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