Pouco mais de uma semana depois de anunciado um rombo de R$ 20 milhões nas contas, a Americanas teve o pedido de recuperação judicial aceito pela Justiça nesta quinta-feira (19). Em todo o país, a empresa tem 40 mil funcionários e no ano passado faturou R$ 5,4 bilhões. Já o total da dívida listada nos documentos protocolados é de aproximadamente R$ 43 bilhões, envolvendo 16,3 mil credores.
Mas o que pode acontecer com a empresa no Espírito Santo, onde a gigante tem ampla atuação com lojas da marca e também outros negócios do conglomerado como o Hortifruti e o aplicativo Americanas Delivery? E os empregos, estão ameaçados?
São 27 lojas da Americanas no Espírito Santo, nos formatos convencional e express, com presença em todas as cidades da Grande Vitória e também em Cachoeiro, Linhares, Guarapari, Aracruz, Nova Venécia e São Mateus.
Crise na Americanas o futuro das lojas, empregados e negocios da gigante no Espirito Santo
Segundo especialistas ouvidos pela reportagem de A Gazeta, durante a recuperação judicial a tendência é que não haja fechamento de lojas ou demissões, visto que a empresa precisa capitalizar para pagar suas dívidas e evitar a falência.
Mas no caso das empresas recém-compradas, como o Hortifruti e a antiga Shipp, que virou Americanas Delivery, eles avaliam a venda como uma boa possibilidade, pois esses ativos não fazem parte do negócio principal. Só o Hortifruti, que faz parte do grupo Natural da Terra, tem valor de mercado de R$ 2 bilhões.
A Americanas comprou as duas empresas fundadas no Espírito Santo em 2021. A primeira a ser adquirida, em abril de 2021, foi a startup de delivery Shipp, que virou Americanas Delivery.
Já em agosto daquele ano a empresa anunciou a compra da rede Hortifruti Natural da Terra, com 73 lojas espalhadas em quatro estados. Em Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, as unidades usam a bandeira Hortifruti. Já em São Paulo é utilizada a marca Natural da Terra.
Para o advogado doutor em direito processual civil Thiago Ferreira Siqueira, no plano de recuperação a ser apresentado 60 dias após o pedido ser aceito pela Justiça, podem constar a venda de ativos, como as empresas do grupo.
Ele explica que durante 180 dias os processos e bloqueios judiciais ficam suspensos, assim a empresa ganha fôlego para tentar sair da dificuldade que está. “Em 60 dias ela apresenta um plano para sair da situação e como vai pagar as dívidas. Esse plano é apresentado a uma assembleia de credores que podem aprovar ou não”, detalha.
O especialista em governança corporativa Adriano Salvi avalia que pode ser que a empresa precise fechar algumas lojas próprias também, uma vez que, em momentos como esse, a empresa precisa proteger o caixa, então talvez precise racionalizar, revisando se há lojas deficitárias.
"Mas isso, realmente, só se for loja que dá prejuízo, pois, se gera caixa, não tem porquê. É diferente de negócios secundários, dos quais pode se desfazer para gerar caixa"
Como na recuperação judicial a empresa precisa montar um plano para honrar sua dívida, ele afirma ser possível que sejam vendidos alguns ativos e a probabilidade maior é que faça isso com ativos que não são o negócio principal, como é o caso do Hortifruti e da Americanas Delivery.
A respeito do risco de demissões, o advogado Felipe Finamore, que é sócio do escritório Finamore Simoni Advogados Associados e especialista em Direito Empresarial e recuperação Judicial, detalhou que via de regra, os pedidos de recuperação não implicam necessariamente na demissão de funcionários, porque a ideia da lei é justamente preservar os postos de trabalho.
“Mas há casos em que a empresa - e aqui não me refiro às Americanas especificamente, até porque desconheço as particularidades do seu processo - sofre uma queda brusca na sua receita e, aí sim, faz-se necessário demitir. É o caso, por exemplo, de uma empreiteira que perde um contrato, nesse caso os funcionários ficariam ociosos. No caso de rede de lojas, havendo necessidade de fechamento de unidades é possível que ocorra também demissões”, avalia.
Impactos do plano de recuperação
Segundo o advogado Felipe Finamore, um dos primeiros impactos na empresa após o pedido de recuperação judicial é a formação de uma rede de proteção para a empresa, na qual seus ativos e recursos são protegidos.
Dessa forma, todos os débitos existentes até a data do pedido somente serão pagos após a deliberação do plano de recuperação: se aprovado serão pagos na forma do plano de pagamento, se rejeitado o pagamento será na falência.
"Mas esse primeiro impacto geralmente é muito positivo para a empresa, pois permite sua reorganização. Retira da empresa e do empresário àquela pressão exercida pelos credores, os quais deverão aguardar a apresentação do plano de recuperação judicial e sua eventual deliberação em Assembleia Geral de Credores", detalha o advogado.
O que diz a Americanas
Em comunicado sobre o ajuizamento da recuperação judicial, a empresa informou que mantém seu compromisso de levar produtos acessíveis para seus 53 milhões de clientes.
"Para tanto, o grupo de acionistas de referência da empresa informou ao Presidente do Conselho de Administração que pretendem manter a liquidez da companhia em patamares que permitam o bom funcionamento da operação de todas as lojas, do seu canal digital, – americanas.com – , da Ame e suas demais coligadas. A Companhia manterá seu esforço na busca por uma solução com os seus credores, para manter seu compromisso como geradora de milhares de empregos diretos e indiretos, amplo impacto social, fonte produtora e de estímulo à atividade econômica, além de ser uma relevante pagadora de tributos", informou.