Carlos Nataniel Wanzeler e Carlos Roberto Costa , donos da Telexfree, em evento da empresa realizado em cruzeiro, em 2013
Carlos Nataniel Wanzeler e Carlos Roberto Costa , donos da Telexfree, em evento da empresa realizado em cruzeiro, em 2013. Crédito: Divulgação

Crise argentina levou show de Paul McCartney até chefões da Telexfree

Suspeita é que pirâmide tenha pagado cachê de Paul McCartney com dinheiro obtido pela venda ilegal de crédito eletrônico. Evento só veio para o Estado porque apresentação do artista em Buenos Aires foi cancelada

Publicado em 05/10/2019 às 16h13

A inesperada confirmação do show no Estado de uma das maiores lendas da história da música não se deu exatamente por esforços de produtores locais, muito menos por interesse específico dos cabeças da Telexfree em Paul McCartney. A chance de o ex-Beatle se apresentar no Espírito Santo só existiu porque uma apresentação da turnê de 2014, prevista para Buenos Aires, acabou cancelada.

Medidas da então presidente argentina, Cristina Kirchner, para enfrentar a recessão impediam a remessa de dólares ao exterior. Isso impossibilitava o pagamento do cachê do compositor de "Yesterday". O problema de Buenos Aires colocou em xeque todos os outros quatro espetáculos de Paul no Brasil.

Os produtores brasileiros passaram a buscar alternativas domésticas. No Espírito Santo, sondaram o produtor Flávio Salles. Ele, por sua vez, procurou os donos da Telexfree, aproveitando a amizade que passou a cultivar especialmente com Carlos Costa por conta de trabalhos anteriores para a empresa. A resposta dos empresários ao produtor foi: “Pode fazer que a gente garante”, contou Salles à reportagem.

Àquela altura, em meados de 2014, as atividades da Telexfree, a principal fonte de renda de Costa e Carlos Wanzeler, estavam bloqueadas pela Justiça. A Polícia Federal já havia deflagrado a primeira fase da Operação Órion e feito uma devassa na empresa e nos endereços pessoais dos acusados. As investigações haviam descoberto que a dupla operava para diversificar investimentos e as suspeitas eram de lavagem de dinheiro.

Polícia Federal realiza Operação Orion para apreender arquivos da  Telexfree, em 2014. Crédito: Bernardo Coutinho - 24/07/2014
Polícia Federal realiza Operação Orion para apreender arquivos da  Telexfree, em 2014. Crédito: Bernardo Coutinho - 24/07/2014

Além de construir o que autoridades norte-americanas chamaram de “esquema de pirâmide global”, a Telexfree era também uma instituição financeira clandestina, segundo o Ministério Público Federal (MPF).

Enquanto diziam aos seguidores que era necessário vender VoIP (semelhante ao Skype) e levar mais pessoas para a rede para ganhar dinheiro, os chefões manuseavam o banco de dados do esquema e geravam créditos manuais para os escolhidos. Assim a Telexfree movimentou US$ 5,8 bilhões entre 2012 e 2014, período em que manteve as atividades a pleno vapor.

Emissão de moeda

A emissão de moeda eletrônica ganhou mais força a partir do bloqueio das atividades pela Justiça do Acre, em junho de 2013. No princípio, a brecha no sistema tinha a intenção de corrigir erros de pagamentos, mas os chefões decidiram usar o mecanismo para gerar um dinheiro imaginário.

Na fase internacional da pirâmide, a partir da suspensão no Brasil, os créditos eram transferidos para líderes incluírem pessoas na rede, burlando a determinação judicial. Renato Alves, um dos principais integrantes, foi beneficiado com US$ 16 milhões. Vale destacar que foi ele quem pagou o cachê de Paul McCartney, segundo o advogado dele, Rafael Lima, a título de investimento particular.

Renato Alves, é apontado em ações penais como um dos laranja dos sócios da Telexfree. Crédito: Divulgação
Renato Alves, é apontado em ações penais como um dos laranja dos sócios da Telexfree. Crédito: Divulgação

As ações penais apontam que Renato também vendia bônus aos potenciais associados, que, em vez de pagar o boleto oficial da Telexfree, faziam os pagamentos das inscrições em dinheiro vivo ou via transferências bancárias.

Dessa forma, a moeda eletrônica criada manualmente era transformada em dinheiro de verdade, guardada, segundo denúncias na Justiça Federal, em nome de laranjas ou de empresas de fachada, que é o caso do Renato Alves.

“Tais ativos financeiros (US$ 16 milhões) foram comercializados com terceiros e as contrapartidas financeiras recebidas em contas bancárias próprias e de terceiros e, posteriormente, de forma diferida repassada para a Telexfree e seus sócios”, explicou o MPF em denúncia oferecida em fevereiro de 2017.

Os processos falam também em manipulação de câmbio, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Os líderes da Telexfree transferiam dinheiro eletrônico do Brasil para o exterior por meio de um sistema interno, o que o MPF considera ilegal.

Show de Paul McCartney no estádio Kleber Andrade, em Cariacica. Crédito: Edson chagas - 10/11/2014
Show de Paul McCartney no estádio Kleber Andrade, em Cariacica. Crédito: Edson chagas - 10/11/2014

As denúncias oferecidas pelo MPF mostram que os cabeças do esquema enriqueceram. Costa, por exemplo, saiu de contas negativas para ser dono de ao menos 15 imóveis, incluindo três apartamentos em Pompano Beach, na Flórida.

No Brasil, as autoridades apontam que Wanzeler tem imóveis e carros. Nos Estados Unidos, as acusações apontam que ele tem mais de 30 apartamentos e casas, além de lanchas e carros de luxos, patrimônio que foi tomado para o pagamento das vítimas.

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