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Vista aérea da P-57, que produz óleo e gás no Parque das Baleias, litoral Sul do ES
Vista aérea da P-57, que produz óleo e gás no Parque das Baleias, litoral Sul do ES. Crédito: Gabriel Lordêllo | Agência Petrobras

Coronavírus reduz produção de petróleo no ES e adia investimentos

Queda na produção já vivida nos últimos anos deve se acentuar pela demanda baixa e pela tendência de redução do preço do barril. Reflexos vão desde a arrecadação de royalties até o adiamento de investimentos e empregos

Publicado em 22/04/2020 às 13h14

A pandemia da Covid-19 está fazendo jorrar inúmeras incertezas sobre a indústria do petróleo no Espírito Santo. Se nos últimos anos, na contramão do Brasil, o Estado via sua produção de óleo e gás cair, voltando aos patamares do início da década, o choque na demanda causado pelo coronavírus, que está provocando uma desvalorização acelerada do barril, deve trazer impactos amargos para a nossa economia com adiamento de investimentos de exploração e uma derrubada ainda mais forte do óleo extraído dos campos terrestres e marítimos capixabas.

Os cortes já anunciados na extração diária pela Petrobras, que devem ser replicados também em empresas privadas, devem provocar uma queda de cerca 15% da produção de petróleo capixaba, segundo especialistas. Isso daria quase 30 milhões de barris no ano (ou 82 mil barris/dia) se levarmos em conta que, em 2019, o Estado produziu 195 milhões de barris de óleo equivalente (que soma petróleo e gás), o que já representou a menor quantidade desde 2010.

As projeções para o setor não são nada boas em todo o mundo. Nos últimos dias, os contratos futuros do barril do petróleo WTI, referência no mercado dos Estados Unidos, chegaram a ser cotados no negativo pela primeira vez na história e continuam em queda. O que aconteceu nos Estados Unidos tem uma explicação: os produtores de petróleo estão com seus estoques quase lotados de óleo. Não tendo onde armazenar, é interessante pagar para quem quiser levar o produto. Por isso, os preços foram cotados abaixo de zero dólar.

Por mais que a referência aqui no Brasil seja o barril Brent, também devemos ter impactos locais desse tombo nos preços visto que as duas cotações costumam andar próximas e o cenário em ambos os casos é o mesmo: há muita oferta de petróleo no mundo para uma demanda tão baixa. Com isso, os estoques no mundo estão abarrotados. Nesta terça-feira, essa commodity foi cotada abaixo dos US$ 20, algo que surpreende mesmo após o fim da guerra de preços do petróleo.

Um dos maiores reflexos deve se dar na arrecadação de royalties e participações especiais. Só com a chamada "guerra dos preços" entre Rússia e Arábia Saudita, que acelerou a derrubada nos preços do petróleo, o governo do Espírito Santo já estimava deixar de ganhar neste ano R$ 1,3 bilhão com recursos do ouro negro diante do que havia sido projetado no Orçamento de 2020. Se o barril seguir se desvalorizando, essa perda será ainda maior.

Vale lembrar que esse recurso é destinado para investimentos públicos. Também tem sido usado como uma espécie de poupança pelo Estado com a formação dos Fundos de Soberano e Infraestrutura. Este último foi o socorro encontrado pelo governo local para emprestar dinheiro a juros baixos ou mesmo zero para empreendedores individuais e microempresas diante da atual crise econômica.

O cenário de incertezas já afeta a produção no Estado, sobretudo da Petrobras. Por mais que, até o momento, nenhuma plataforma localizada no litoral do Espírito Santo esteja na lista das 62 que serão hibernadas pela companhia, a produção aqui já começa a ser reduzida. A previsão de especialistas é de que haja uma redução de 15% no óleo extraído das plataformas do Estado neste ano.

Segundo o Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro), já foi feito um corte da ordem de 80% na produção da P-58, a maior plataforma que opera no Estado e que atua na região do Parque das Baleias, Litoral Sul capixaba. Há um temor também de que a companhia reduza as operações em campos terrestres (onshore) no Norte do Estado, que produzem bem menos, mas geram empregos e oportunidades de negócios para empresas da região.

A empresa também precisou parar a produção do FPSO Capixaba, que tem como afretadora a SBM Offshore, após 61 casos de coronavírus teriam sido descobertos entre os trabalhadores da embarcação que fica próxima a Marataízes, Novo Jubarte. Serão mais de 20 dias sem operação, o que terá impacto importante na economia do Estado.

20% do PIB do ES

É o peso do setor de petróleo na nossa economia

Para além da arrecadação de royalties e participações especiais para governos, a intensificação da redução da produção deve impactar o desenvolvimento econômico do Espírito Santo, afetando empregos, oportunidades de negócio e adiando investimentos esperados há anos pelo Estado.

A Petrobras derrubou de R$ 12 bilhões para R$ 8 bilhões o investimento que seria feito no Espírito Santo neste ano, segundo fontes disseram para A Gazeta. Parte do recurso seria aplicado em atividades de exploração e descoberta de novos poços, o que é crucial para o Estado voltar a ver sua produção crescer.

O setor representa cerca de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) capixaba, explica o coordenador do Fórum Capixaba de Petróleo e Gás da Findes, Durval Vieira de Freitas, e movimenta uma cadeia de fornecedores que conta com centenas de empresas que esperavam ter oportunidades neste ano em função de investimentos das petroleiras. Porém, projetos de curto prazo devem ficar em stand-by.

Durval Vieira Freitas

Coordenador do Fórum Capixaba de Petróleo e Gás da Findes

"No curto prazo devemos ter investimentos atrasados. No longo prazo, se esses investimentos terão continuidade é uma resposta que a gente não tem com segurança diante de todas as incertezas desse vírus. É um cenário muito imprevisível. Pela experiência que a gente tem, acredito que a recuperação será rápida e não teremos alterações nos projetos de longo prazo. Mas no curto prazo certamente"

Só na área trabalhista, o Sindipetro estima cerca de 2 mil profissionais afetados por demissões ou cortes de salários pela Petrobras em função da crise.

QUEDA NATURAL DA PRODUÇÃO

O grande agravante do cenário é o fato de que o Estado já vem numa queda natural da produção ano após ano. O Espírito Santo, que já foi o segundo maior produtor de petróleo no país e chegou a extrair 400 mil barris por dia, hoje está na terceira colocação do ranking (atrás de Rio de Janeiro e São Paulo) e produziu, em 2019, cerca de 340 mil barris/dia.

Os motivos para isso são vários, segundo o economista Luiz Paulo Vellozo Lucas, que é autor do livro "Petróleo: reforma e contrarreforma do setor petrolífero brasileiro". 

"A produção de petróleo depende de três fatores. O primeiro é a maturidade dos campos. Como regra, um campo dura 10 anos, e você pode extrair 10% do que é possível por ano. Quando ele vai se amadurecendo, existem investimentos como reinjeção de gás e vapor para recuperar a produção. Mas chega um momento que isso não é mais economicamente viável e o campo se exaure", diz. No Estado, vários poços estão neste estágio de maturidade ou mesmo de exaustão, como em campos terrestres.

Luiz Paulo Vellozo Lucas:
Luiz Paulo Vellozo Lucas: "Chega um momento que o campo se exaure". Crédito: ISJN/Divulgação

Outro fator que acaba afetando na produção são as pausas para manutenção programada. "Isso foi uma das coisas que mais afetou nosso resultado de produção em 2019", disse Luiz Paulo. Já neste ano, a Petrobras deve segurar mais essas manutenções no Estado para evitar quedas ainda mais bruscas na produção, segundo apurou a reportagem.

O principal, porém, é ausência de investimentos em exploração e produção (E&P), que vieram numa curva de declínio nesta década causada sobretudo pela não realização de novos leilões de campos e blocos exploratórios, uma política do governo Dilma Roussef.

"Desde que houve a mudança no marco regulatório em 2010, no governo do PT, ficamos uns seis anos sem leilões de petróleo e a área de E&P reduziu enormemente. O novo modelo do regime de partilha que foi criado trouxe dúvidas e isso fez vários players importantes como a ExxonMobil saírem do Brasil. Isso se resolveu parcialmente no governo Michel Temer, com uma emenda que tirou a exclusividade da Petrobras para operar no pré-sal e campos estratégicos", analisou o economista.

Sem os leilões, deixaram de entrar empresas no mercado investindo em novas descobertas e no aumento da produção, o que é fundamental para um Estado como o Espírito Santo que conta com dezenas de campos maduros. "Tem que investir todo ano em exploração e produção para o campo não cair a produção. Se parar de investir cai naturalmente", reforçou Vellozo Lucas.

Por isso, segundo Durval Vieira Freitas, dificilmente deveremos ver por agora um aumento significativo da nossa produção. "Os números não devem alterar tanto porque não tivemos nenhuma grande descoberta. Ficamos seis anos sem leilões. Agora precisamos que acelerem as privatizações e concessões para termos investimentos que , lá na frente, elevem a nossa produção e recuperemos, pelo menos, a produção de 400 mil barris/dia mais".

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