As debêntures representam a maior fatia individual das dívidas relacionadas à crise da Apex Partners. Dos R$ 985,6 milhões em passivos informados em documentos apresentados à Justiça, R$ 452,1 milhões correspondem a obrigações ligadas a esse tipo de título — cerca de 46% do total.
O peso dessas operações no endividamento coloca em evidência um investimento que pode ser menos conhecido pelo público do que aplicações bancárias tradicionais. Conforme explica o especialista em mercado de capitais Adriano Salvi, diferentemente de produtos como CDBs, as debêntures são títulos emitidos por empresas para captar recursos diretamente com investidores e não contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Entre as operações listadas na documentação está uma emissão da BRM Apex Investimentos, no valor de R$ 82,4 milhões. Os documentos também apontam uma obrigação de R$ 79,3 milhões com a Gazin Holding, cujo pagamento estava previsto em dez parcelas. A primeira delas, com vencimento em junho, não foi quitada.
As emissões relacionadas ao grupo foram realizadas de forma privada por intermédio da Rhino Securitizadora S.A. e previam diferentes formas de remuneração. As taxas variavam entre 110% e 130% do CDI ou eram calculadas pelo IPCA acrescido de 1,1% a 1,3% ao mês.
Percentuais elevados podem tornar uma aplicação atraente aos olhos do investidor, mas o retorno prometido não pode ser analisado separadamente do risco assumido. Em títulos de dívida corporativa, o pagamento depende da capacidade financeira da empresa responsável por honrar a obrigação.
É justamente aí que o funcionamento das debêntures se torna importante para compreender o caso. Ao comprar esse tipo de título, o investidor não está adquirindo uma participação na companhia, como ocorre com uma ação. Na prática, está emprestando dinheiro à empresa.
De acordo com Salvi, a debênture é um instrumento utilizado pelas companhias para captar recursos no mercado. A empresa estabelece as condições da dívida, como valor da emissão, prazo para pagamento, remuneração e periodicidade dos juros, e os investidores decidem se aceitam ou não aquela proposta.
Para quem aplica, portanto, a expectativa é receber de volta o capital investido, acrescido da remuneração prevista. Para a companhia, fica a obrigação de honrar essa dívida nas condições estabelecidas na emissão.
A diferença em relação a um financiamento bancário está também na origem dos recursos. Em vez de contratar o crédito diretamente com um banco e seguir as condições oferecidas pela instituição financeira, a empresa estrutura a emissão e capta o dinheiro junto aos investidores.
Entretanto, de acordo com o especialista, a possibilidade de receber juros mais elevados vem acompanhada de uma questão essencial: qual é a capacidade dessa empresa de devolver o dinheiro?
Taxas elevadas podem tornar uma aplicação mais atraente, mas também devem servir de alerta para que o investidor examine com atenção a operação e a situação financeira da empresa emissora. “Tem um princípio em investimentos que é: quanto maior o retorno, maior o risco”, afirma Salvi.
Isso não significa que uma remuneração elevada, isoladamente, seja suficiente para concluir que uma debênture terá problemas ou que a empresa não conseguirá pagar a dívida. De acordo com o especialista, o investidor precisa avaliar a companhia que está captando o dinheiro e as características da operação antes de decidir aplicar.
A análise envolve entender a situação financeira da empresa, seu nível de endividamento, a destinação dos recursos captados e as condições estabelecidas na documentação da emissão.
Outro ponto que merece atenção é justamente a destinação dos recursos obtidos com as debêntures.
Levantamentos financeiros sobre a Apex apontam que 58% dos aproximadamente R$ 300 milhões captados no primeiro semestre de 2026 teriam sido destinados a sustentar custos operacionais internos do grupo, em vez da geração de novos ativos produtivos.
Salvi explica que a documentação de uma emissão deve indicar para que o dinheiro captado será utilizado. Essa destinação é conhecida no mercado como use of funds, ou uso dos recursos. “Ela está dizendo para que quer aquele dinheiro”, explica o especialista.
Para o investidor, conhecer essa finalidade é importante porque permite avaliar se a destinação prevista para os recursos tem potencial de gerar resultados suficientes para que a empresa consiga cumprir as obrigações assumidas.
Ou seja, não basta analisar quanto a empresa promete pagar. É necessário entender também o que ela pretende fazer com o dinheiro captado e de onde poderão vir os recursos necessários para quitar a dívida.
Salvi orienta que um dos indicadores que podem auxiliar nessa avaliação é a relação entre dívida líquida e Ebitda. De maneira simplificada, o cálculo compara o endividamento líquido da companhia com sua geração operacional de resultados.
A dívida líquida considera as dívidas da empresa descontado o caixa disponível. Já o Ebitda é um indicador utilizado para medir o resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização.
Salvi afirma que essa relação é um dos primeiros indicadores que observaria ao analisar uma empresa emissora de debêntures.
Segundo o especialista, uma relação entre dívida líquida e Ebitda acima de 2,5 já pode representar um sinal de atenção para o investidor, por indicar um nível maior de endividamento em relação à geração operacional da companhia.
O próprio especialista ressalta, porém, que o número não deve ser interpretado isoladamente.
Uma companhia pode, por exemplo, apresentar um nível de endividamento considerado administrável em determinado momento e, posteriormente, enfrentar queda de receitas ou redução da geração operacional, o que altera sua capacidade de pagamento.
Por isso, Salvi recomenda analisar também os balanços da companhia, os fundamentos do negócio, o mercado em que ela atua e as demais condições previstas na emissão.
Um dos pontos mais importantes para o pequeno investidor é que as debêntures não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
O mecanismo oferece cobertura para determinados produtos financeiros, dentro dos limites e das regras estabelecidas pelo fundo, mas não protege o dinheiro aplicado em debêntures.
Na prática, isso significa que, se houver inadimplência, o investidor não pode recorrer ao FGC para receber automaticamente o valor aplicado.
O risco de crédito, portanto, está ligado à capacidade de pagamento da empresa emissora. Se a companhia enfrentar dificuldades financeiras e deixar de cumprir as obrigações previstas na emissão, o investidor poderá precisar recorrer aos mecanismos estabelecidos na própria operação para tentar recuperar os recursos.
Salvi explica que uma situação de inadimplência pode resultar no chamado default, termo utilizado no mercado para indicar o descumprimento das obrigações relacionadas à dívida.
“Uma vez que deu problema e deu o que chama de ‘default’, para recuperar o dinheiro é bem mais difícil”, afirma.
Dependendo da estrutura da operação e do que estiver estabelecido nos documentos da emissão, a busca pelo recebimento do crédito pode envolver mecanismos como arbitragem ou medidas judiciais.
Nesse processo, existe uma figura importante para os investidores: o agente fiduciário.
A instituição é responsável por representar coletivamente os interesses dos detentores das debêntures e acompanhar o cumprimento das obrigações previstas na emissão.
Segundo Salvi, cabe ao agente fiduciário monitorar a situação da empresa e observar acontecimentos que possam colocar em risco o pagamento dos investidores. “Ele está ali para zelar pelos interesses dos investidores”, explica.
Em uma situação de inadimplência ou de descumprimento das condições da emissão, o agente fiduciário pode atuar na busca de alternativas para a recuperação do crédito e recorrer aos mecanismos previstos nos documentos da operação.
Por isso, Salvi afirma que o investidor também deve observar qual instituição desempenha esse papel e seu histórico de atuação.
Para Salvi, debêntures exigem um grau de análise maior do que muitos dos investimentos com os quais o pequeno investidor está acostumado.
Antes de aplicar, é necessário compreender não apenas a rentabilidade oferecida, mas quem está tomando o dinheiro, qual é o nível de endividamento da companhia, para que os recursos serão utilizados e quais são as condições previstas na documentação da emissão.
O especialista recomenda atenção especial às operações privadas. Segundo ele, em emissões desse tipo, o investidor precisa ter capacidade para avaliar mais profundamente a estrutura da dívida e os riscos envolvidos.
“É um investimento mais sofisticado. Então, carece de um cuidado redobrado na hora de investir”, afirma Salvi.
A ausência de cobertura do FGC torna essa avaliação ainda mais importante. Ao comprar uma debênture, o investidor assume o risco de crédito relacionado à operação e, dependendo das condições da emissão e da situação financeira da companhia, pode sofrer perdas relevantes, inclusive do capital aplicado.
Por isso, uma rentabilidade elevada não deve ser analisada apenas como uma oportunidade de obter ganhos maiores. O retorno oferecido precisa ser colocado na balança junto com o risco assumido.
A Apex Partners foi procurada pela reportagem e questionada sobre a indicação de que aproximadamente 58% dos recursos captados teriam sido destinados ao custeio da operação interna do grupo, em vez do financiamento de novos ativos produtivos, e sobre a situação de adimplência das emissões junto aos investidores. A empresa também foi perguntada sobre sua atual capacidade financeira e de geração de caixa para honrar juros e principal das operações e sobre as garantias oferecidas aos investidores.
Em resposta, a Apex não se manifestou especificamente sobre cada um dos questionamentos e encaminhou nota na qual afirma que foram identificadas “inconsistências financeiras” na companhia e que uma auditoria externa e independente será contratada para dimensionar os impactos. A empresa declarou que “todos os esforços” estão direcionados a entender o tamanho do desafio financeiro e honrar os compromissos assumidos no mercado.
A Apex acrescentou que os valores mencionados na ação judicial não representam obrigações vencidas ou imediatas, mas compromissos de longo prazo e que o impacto das inconsistências identificadas internamente ainda será validado pela auditoria externa.