Já tentou ligar para os telefones fixos da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) nas últimas semanas? A Gazeta fez o teste e constatou que os números disponíveis no site da instituição não completam a ligação. Em vez de tocar, a ligação é interrompida ou se escuta uma mensagem automática: “Todas as linhas estão ocupadas no momento”. Levantamento feito pela reportagem descobriu que a instituição está sem contrato de manutenção para telefonia IP desde junho de 2025, pelo menos.
Oficialmente, a Ufes informa que o problema com os telefones será resolvido, gradualmente, nas próximas 72 horas. Por meio de nota, a universidade diz que ainda realiza a conversão entre o sistema digital e as linhas analógicas — mudança iniciada em 2021, há mais de cinco anos. A instituição afirma ainda que, há algumas semanas, uma dificuldade técnica nessa conversão afetou o recebimento de chamadas externas pela telefonia fixa.
Para agravar a situação, servidores e professores ouvidos por A Gazeta afirmam que esse problema não é recente. Há quem diga que a falha ocorre "há alguns anos" e que já "perdeu as contas" de quando começou.
Entre os números de telefones fixos testados por A Gazeta para esta reportagem, apenas os de contato do Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam) não foram afetados pela instabilidade e estão funcionando para atendimento do público. Os demais não completam a ligação ou informam, por mensagem automática, que “todas as linhas estão ocupadas”.
Ao ligar para os telefones da Biblioteca Central e do Restaurante Universitário, por exemplo, as ligações não foram completadas. O mesmo aconteceu com os telefones das Pró-Reitorias de Extensão (Proex) e de Pesquisa e Pós-Graduação (PRPPG). Como precaução, a página da Ufes oferece contatos de e-mail e alguns celulares.
Já a Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), no site da instituição, não disponibiliza telefone fixo entre seus contatos. As opções disponíveis à população são buscar ajuda presencialmente, por meio de atendimento on-line ou por celular.
Na lista de contatos das coordenações dos cursos de graduação, apenas o e-mail é disponibilizado, enquanto na das direções dos Centros de Ensino, nenhum dos telefones fixos disponibilizados está funcionando. O mesmo acontece com o telefone do Núcleo de Práticas Jurídicas (NPJ) da Ufes, que é destinado a atender à comunidade com prestação de serviços gratuitos.
Dentro das páginas visitadas no Portal Ufes, uma mensagem na página da PRPPG informa que “os telefones/ramais da Ufes estão apresentando problemas intermitentes”. A mesma mensagem também aparece no site do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social (PósCom). Em ambos, o usuário ainda é aconselhado a fazer contato por e-mail ou usar os serviços de atendimento on-line. A mesma orientação também está na página da Diretoria de Materiais e Patrimônio da universidade.
A Ufes explica, por meio de nota, que os avisos são para minimizar o problema, pontuando que essas mensagens estão em alguns sites de setores que registram maior atendimento ao público externo. Alguns desses locais, acrescenta a nota, ainda optam por disponibilizar números de telefonia móvel, como é o caso da Prograd.
Mas a universidade não informa quantos telefones estão sem funcionar para ligações externas. A instituição também não sinaliza desde quando esse problema vem acontecendo. Foi a partir do levantamento feito pela reportagem de A Gazeta, no site da universidade, nos espaços de divulgação de contratos e de acompanhamento de protocolos, que houve a constatação da ausência de contrato de telefonia.
Além disso, alguns servidores e professores da Universidade confirmaram, para A Gazeta, que os telefones fixos não funcionam "há alguns anos" e que isso já acontece há tanto tempo que “perderam as contas” de quando o problema começou.
Atualmente, não há contrato em funcionamento para a manutenção dos serviços de telefonia da instituição. Esse problema começou ainda em 2024, após a Ufes encerrar o contrato com a Rede Nacional de Pesquisas (RNP), empresa responsável por substituir o modelo de telefonia TDM (analógica) pelo IP (digital). Os principais objetivos eram ampliar o número de ramais, melhorar o atendimento do público e reduzir custos.
Os serviços foram prestados entre 2022 e 2023, por meio de contrato de dispensa de licitação, para atender a todos os campi da Ufes. O trabalho foi concluído no final de 2023, com o contrato finalizado meses depois, durante o primeiro semestre de 2024.
O movimento para trocar a rede de telefonia para IP começou em dezembro de 2020, durante a pandemia da Covid-19. Foi quando a então Superintendência de Tecnologia da Informação (STI) da Ufes deu início à contratação de empresa para atualizar a telefonia da universidade, por dispensa de licitação.
A defesa pela contratação desse serviço pedia "prioridade no andamento desse processo, considerando que a atual central telefônica encontra-se obsoleta, com mais de 15 anos de uso e sem contrato de manutenção e peças para substituição".
O contrato assinado com a RNP incluiu fornecimento de equipamentos, instalação, suporte e manutenção tanto da infraestrutura existente quanto da integração com a VoIP da RNP às centrais existentes, mas sem incluir a manutenção das centrais no contrato.
Também foram incluídos no contrato a atualização de versões, o treinamento e a prestação de assistência técnica durante toda a vigência do acordo. Os trabalhos foram realizados entre 2021 e 2023, no valor de R$ 644.001,65.
Entre os meses de março e julho de 2024, o site de protocolos da Ufes indica somente os trâmites finais para encerrar o contrato com a RBD, incluindo a prestação de contas. Depois, com uma lacuna de mais de um ano, a universidade abriu outro processo, também por dispensa de licitação, prevendo o contrato de manutenção dos serviços de telefonia por 12 meses, com valor anual de quase R$ 55 mil.
Esse processo foi aberto em junho de 2025, e a empresa a ser contratada deveria oferecer suporte técnico, manutenção, monitoramento e apoio operacional à infraestrutura de telefonia IP da Ufes. O serviço cobriria 5 mil ramais, por meio de atendimento remoto e, quando necessário, presencial.
Mas esse processo foi encerrado e arquivado em setembro deste ano – 15 meses depois – sem chegar a um resultado. Um mês antes, em agosto de 2026, outro processo foi aberto dentro da Ufes com o mesmo objetivo final: contratação de serviços de suporte, manutenção e sustentação para a infraestrutura de telefonia IP. Só que, agora, o contrato está orçado em R$ 75.180,72.
É com esse contrato, ainda não efetivado, que a Superintendência de Infraestrutura (SI) da universidade acredita que o problema será resolvido em 40 dias. Nesse período, a Ufes ainda espera realizar a portabilidade dos números antigos para a nova tecnologia.
Nota da UFES na íntegra
"A Ufes não ficou sem comunicação com a comunidade"
A Ufes esclarece que não permaneceu sem linhas telefônicas durante todo o período mencionado e que, em nenhum momento, ficou sem comunicação com a comunidade. As linhas móveis institucionais, os e-mails e os diversos outros canais de atendimento permaneceram disponíveis.
A tecnologia VoIP foi implantada na comunicação interna da Universidade, com integração à central telefônica, que realizava a conversão entre o sistema digital e as linhas analógicas para o recebimento de ligações externas. A solução da RNP integra um processo de modernização da infraestrutura de comunicação cujo alcance vai além da telefonia convencional.
Nas últimas semanas, durante os procedimentos para a migração para um serviço integralmente digital, uma dificuldade técnica nessa conversão afetou o recebimento de chamadas externas pela telefonia fixa. Para normalizar o atendimento, foi solicitada a reativação das linhas analógicas. A previsão é que os canais fixos sejam restabelecidos progressivamente nas próximas 72 horas.
Paralelamente, a Universidade segue com a contratação dos serviços digitais, cuja conclusão está prevista para os próximos 30 dias. Após a conclusão da contratação e da implantação, a telefonia passará a operar de forma totalmente digital, proporcionando uma solução mais moderna e econômica.
O Hucam possui gestão distinta. Por isso, os esclarecimentos sobre o funcionamento e os contratos de telefonia do hospital devem ser prestados por sua administração.
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