Nas redes sociais, Priscila Santos é conhecida como “rainha do reboque” e apresenta para os mais de 400 mil seguidores uma vida de luxo. Na vida real, um histórico de dívidas. A influencer e empresária capixaba, radicada no Rio de Janeiro, deve mais de R$ 5 milhões ao Estado vizinho. As informações foram apuradas pelo telejornal RJ2 e compartilhadas com o site g1.
Priscila é considerada uma mulher de negócios com sucesso no ramo de reboques. Em entrevista para A Gazeta, em junho do ano passado, ela relatou faturar aproximadamente R$ 9 milhões por ano.
A reportagem do G1 apontou que o glamour exibido nas redes esconde uma série de golpes que tiram dinheiro dos cofres públicos e de proprietários de veículos no Rio de Janeiro.
A "Rebocar Remoção e Guarda de Veículos", empresa que ela é diretora e com sede em Guarapari, tinha um contrato com o Departamento de Transportes Rodoviários do Rio de Janeiro (Detro) para prestar serviços de reboque, guarda e leilão de veículos apreendidos.
Assinado em janeiro de 2019, o contrato com valor estimado em mais de R$ 25 milhões para o lote 1 contém serviços nas cidades do Rio de Janeiro, Niterói e São Gonçalo.
"Uma mulher no ramo de reboque'? 'Não, ela deve ser mafiosa'. 'Não, mas ela herdou'. 'Não, ela é amante de um velho rico'. Sabe... Já ouvi de tudo na vida", diz Priscila em um vídeo, no qual se apresenta.
SEM PAGAR
Um funcionário, que preferiu não se identificar para a reportagem, relatou que a empresária e influencer leva a vida como se não houvesse nenhum problema à vista. "Parece que não tem nada acontecendo em volta, parece que não tem dívida. Parece que não tem processos trabalhistas e continua normal, como se nada tivesse acontecido", contou.
A empresária não deu calote apenas nos funcionários. A Rebocar também era responsável pelos leilões dos carros que não eram recuperados nos pátios. E essa parte do contrato ela cumpriu bem. Vendeu todos eles, mas não repassou nada. Assim, o Estado também ficou sem ver a cor do dinheiro.
O contrato entre a Rebocar e o Detro tem várias obrigações que a empresa precisa cumprir. Uma delas estabelece o recolhimento aos cofres do Detro dos valores referentes aos saldos dos leilões, "sob pena de serem descontados dos pagamentos das notas fiscais".
Mas de acordo com o Detro, a Rebocar não fez os repasses que devia e ficou com o dinheiro. Ainda segundo o departamento, a empresa não entregou documentos que comprovem regularidade junto ao Ministério do Trabalho.
Em dezembro, o Detro desfez unilateralmente o contrato com a Rebocar, alegando que a empresa de Priscila Santos deixou de repassar mais de R$ 5 milhões. Ela vendeu os carros e ficou com o dinheiro.
ENVIO DE ÁUDIO
Em um áudio, obtido pela reportagem do G1, a empresária orienta um amigo a arrematar um veículo no leilão que a própria empresa dela, a Rebocar, estava promovendo. Em tese, o leilão deveria ser da seguinte forma: os veículos apreendidos pelo Estado vão para os chamados "pátios", onde podem ser recuperados pelos proprietários.
Mas, se o veículo não for retirado em 90 dias, vai para leilão. Apesar disso, nem todos os vencedores dos leilões receberam os veículos arrematados. "A gente arrematou o carro e nunca conseguimos pegar. Já tem um ano e até hoje não conseguimos pegar o carro", diz Ursulla Ciriaco, que venceu a disputa por um Renault Logan, pelo qual pagou R$ 26 mil.
O suposto esquema não se limitava a não pagar quem arrematasse os veículos. Pessoas ligadas Priscila participavam ativamente das disputas pelos carros. Um deles é Felippe Fausto de Jesus, que em rede social aparece como produtor.
Numa planilha de despesas, o nome de Felippe surge como funcionário da casa da própria "rainha", com o salário de R$ 2,5 mil por mês. Ele compartilha fotos com Priscila em Angra dos Reis e em Cancun, no México.
Em abril, um dos carros arrematados por Felippe Fausto foi um Jeep Compass Vermelho, por R$ 97 mil. No mês seguinte, Priscila postou uma foto com carro. Em uma lista obtida pela TV Globo, aparecem, em diferentes leilões da rebocar, mais oito carros arrematados pelo homem. O valor total gasto em leilões chega a R$ 463.300,00.
Outro nome ligado à Priscila Santos é Carlos André de Moraes Junior. De acordo com os dados da própria Rebocar, Carlos André arrematou mais de R$ 280 mil em veículos. Num dos lances, o cadastro dele registrado na documentação do leilão tem como endereço de e-mail a empresa de Priscila Santos: [email protected].
As defesas dos citados foram procuradas pela TV Globo, mas não atenderam às ligações.
HISTÓRIA NO ES
Priscila manteve negócio no setor ainda no Espírito Santo, onde teve contrato com o Departamento Estadual de Trânsito (Detran). O acordo foi rompido justamente por falta de pagamentos de funcionários e prestadores.
No estado natal, Priscila foi investigada pela Polícia Civil em 2014 por peculato, por autorizar a retirada irregular de peças de um carro que estava num pátio do Detran de Guarapari.
Ela também foi investigada duas vezes por estelionato e fraude, em 2017. Uma das acusações diz que a "rainha do reboque" teria assinado e entregue um cheque que não era dela na compra de um cachorro.
O QUE DIZ A DEFESA DE PRISCILA
Priscila Santos não aceitou o pedido de entrevista feito pelo TV Globo. Os advogados de defesa dela enviaram uma nota dizendo que a Rebocar "está trabalhando junto ao Detro para serem solucionadas todas as pendências decorrentes de conflitos contratuais - administrativos ou judiciais".
E acrescentou que a companhia espera a relação do Detro nos próximos dias para começar a liberar os veículos que estão nos pátios da empresa. O texto diz que a empresa "reafirma ter o compromisso em solucionar todas as questões no menor tempo possível".
Com informações do RJ2 e g1