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Qual é a eficácia das vacinas contra as variantes do coronavírus?

Epidemiologista explica que a vacinação rápida da população reduz a circulação do Sars-CoV-2 e, consequentemente, barra mutações em sua estrutura

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 14/02/2021 às 19h34
Atualizado em 14/02/2021 às 19h34
Coronavac
Coronavac, que usa o princípio do vírus inativado, pode ser mais eficaz contra variantes da Covid-19. Crédito: Fernando Madeira

Desde o surgimento da pandemia da Covid-19, há quase um ano, o mundo esperou ansioso pelo surgimento de uma vacina que pudesse ser usada como arma contra a doença. Agora, com a imunização já em curso, a preocupação da comunidade científica é com a mutação do coronavírus e suas possíveis implicações nas campanhas de vacinação.  

Variantes do vírus já foram identificadas no Reino Unido, na África do Sul e também no Brasil. Essa mutação, inclusive, foi a responsável pelo aumento de casos e pela crise assistencial do sistema de saúde do Amazonas.  

A pós-doutora em Epidemiologia Ethel Maciel explica que as mutações são características comuns dos coronavírus, por isso é importante vacinar a população o quanto antes, para reduzir a circulação do Sars-CoV-2 e, consequentemente, barrar mudanças na sua estrutura. 

"O Sars-CoV-2 é um novo coronavírus e, quando começou a circular, a gente não conhecia a velocidade de mutação. Agora sabemos que  já fez mais de 4 mil mutações, mas, até então, essas mutações não tinham sido importantes para dar a ele uma vantagem significativa. Temos que pensar como se estivéssemos em uma corrida, a gente em uma pista e o vírus na outra. Temos que vacinar rápido e diminuir a circulação do vírus, controlar a transmissão, para que a gente consiga ganhar essa corrida. Por enquanto, ele está na nossa frente", disse.

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Ethel detalhou que a mais importante mudança na estrutura viral aconteceu na proteína espícula, os componentes semelhantes a espinhos, que dão a forma de coroa ao coronavírus. De acordo com a epidemiologista, isso afeta o desempenho de vacinas que se baseiam na mutação do RNA viral, podendo diminuir a eficácia do imunizante. É como se a mutação fizesse o vírus se disfarçar e, de certa forma, enganar o sistema imunológico, o que permite a infecção.

"Essa mutação específica, que aconteceu na variante da África do Sul e do Brasil, atua despistando nosso sistema imunológico. É como se fosse um outro vírus, nosso organismo não percebe que é o mesmo vírus. A gente chama de escape, porque ele escapa do nosso sistema imunológico. Essa é a preocupação em relação às vacinas, principalmente as que usaram essa parte do vírus", explicou. 

Ainda assim, Ethel destacou que as vacinas que se baseiam no RNA, como os imunizantes da Pfizer e da Moderna, permitem uma modificação mais rápida em sua estrutura, o que mantém as esperanças de sucesso na imunização.

Ethel Maciel

Pós-doutora em Epidemiologia

"Essa tecnologia da vacina de RNA é toda computacional, eles informam na programação da vacina qual a parte que mudou e você refaz a vacina. Então ela é muito mais rapidamente modificável. Nessa parte da tecnologia, temos bastante esperanças"

A epidemiologista ressaltou que os estudos em relação à eficácia de vacinas contra as variações do coronavírus são preliminares e, por isso, ainda não é possível tirar conclusões exatas sobre o desempenho dos imunizantes e nem quais seriam os mais recomendados. Ela aponta, porém, que as vacinas que trabalham com o vírus inativado, ou seja, que introduzem o vírus inteiro dentro do sistema imunológico para induzir a produção de anticorpos, podem ser mais vantajosas.

Segundo a pesquisadora, a comunidade científica analisa, inclusive, se haverá necessidade da aplicação de uma terceira dose de vacina para garantir a proteção contra as novas cepas. "A vacina de vírus inativado, por usar o vírus inteiro e não só uma parte, parece ser mais estável, é o caso da Coronavac. Mas ainda é tudo incerto, estamos aprendendo enquanto o processo vai acontecendo. Alguns pesquisadores da Europa já estão falando que, talvez, a gente precise de uma terceira dose da vacina renovada para essas variantes", comentou. 

SINAIS DE ALERTA

Ethel ressalta que o avanço da Covid-19 no mundo preocupa. O aumento no número de casos, de hospitalizações e de mortes são indicativos de que o vírus circula de forma acelerada entre a população. E essa circulação desenfreada é uma consequência das mutações.

"Estamos vendo o aumento de infecção, de hospitalizações e de óbitos, isso é um sinal de alerta, de que a transmissão do vírus está muito acelerada. Toda vez que o vírus está circulando muito, estamos dando a ele a chance de fazer mutações, porque ele vai se multiplicando no nosso organismo, nós transmitimos para outra pessoa, ele mais uma vez se multiplica. Nessas multiplicações é que podem ocorrem mudanças que dão vantagem ao vírus", afirmou Ethel.

Outra consequência do surgimento de novas variantes que enganam o sistema imunológico é o aumento no número de reinfecções, ou seja, há uma redução da memória imunológica das pessoas infectadas.

Além de amplia ampliam a transmissão do vírus, as mutações também provocam casos mais graves da doença. Segundo Ethel, já houve um perceptível aumento na taxa de mortalidade da Covid-19 e foi constatada uma evolução mais séria da doença entre pessoas jovens, algo que não era comum nos primeiros meses de pandemia. 

"À medida que a doença se espalha mais, cresce também a chance de atingir alguém que tenha comorbidade ou outro fator de risco. O que estamos aprendendo com a variante e com os estudos do Reino Unido é que, antes dessa mutação, a cada 1.000 infectados, 10 pessoas morriam. Agora, a cada 1.000 contaminados, 13 pessoas morrem. Então tem uma mudança no patamar de gravidade da doença", aponta Ethel. 

"Outra aspecto observado, inclusive em Manaus, é o aumento de internação de jovens, que estão adquirindo a forma mais grave da doença. Esses sinais de alerta já seriam suficientes para estarmos muito preocupados aqui no Brasil", acrescenta a epidemiologista. 

Por fim, Ethel disse acreditar que a população terá que se acostumar a conviver com o vírus ainda por muito tempo. "Acho que esse vírus veio pra ficar, semelhante ao da gripe, o H1N1. Provavelmente, teremos que nos vacinar de tempos em tempos", avalia. 

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